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Posts de fevereiro 2010

Villa Lobos e Ferreira Gullar

28 de fevereiro de 2010 4

O Trenzinho do Caipira, música de Villa Lobos ( Bachiana nº 2), ganhou, num arranjo de Edu Lobo, letra (belíssima) de Ferreira Gullar. Numa de suas crônicas na Folha de São Paulo ( 06/12/09), Gullar relembra o fato. Trago para vocês, não apenas pela beleza da música e da letra, mas pela descrição do processo criativo. Olhem como o passar do tempo (o andar da carroça, como se diz) e a mudança de enfoque torna algo impossível em algo possível de ser feito em vinte minutos.

 

 

  ” … certa tarde, sozinho no apartamento ( na antiga rua Montenegro, hoje Vinivius de Moraes) pus na vitrola um disco com a “Bachianas” e ouvi, pela primeira vez, a do trenzinho do caipira. Entrei em transe. É que, quando menino, meu pai, que fazia comércio ambulante, me levava nas viagens de trem entre São Luís e Teresina. O trem saía de madrugada e, ao amanhecer, cortava o Campo dos Perdizes, um vasto pantanal, povoado de garças, marrecos, nham bus, pássros de todo tamanho e cor. Eu ficava deslumbrado, a cada viagem.Deslumbramento esse que que voltou quando ouvi a “Tocata” da “Bachiana nº 2″. Tive o ímpeto, naquele instante, de pôr letra na música, mas não consegui. E não tentei uma vez só, não, mas várias, ao longo dos anos, sem resultado. Pois bem, em 1975, ao escrever o “poema Sujo” em Buenos Aires, evoco aquelas viagens que fazia com meu pai e, então, enquanto antes era a música de Villa-Lobos que me fazia lembrar da ” Bachiana nº 2″, agora elas é que me fizeram lembrar da “Bachiana nº 2″ e, assim, a letra que não conseguira escrever em 20 anos, escrevi em 20 minutos”.

Postado por ana mariano

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100 anos de solidão II

27 de fevereiro de 2010 1

Loucamente apaixonados ao fim de tantos anos de cumplicidade estéril, gozavam o milagre de se amarem tanto na mesa como na cama, e chegaram a ser tão felizes que quando já eram dois anciãos esgotados continhavam brincando como coelhinhos e brigando como cachorros.

                                                                     G. G. Márquez

Postado por ana mariano

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A princesa e a ervilha

25 de fevereiro de 2010 4

Fui assistir àquele filme argentino – O segredo de teus olhos. Bem interessante, vale á pena. Não vou contar o enredo para não perder a graça, mas vou comentar um aspecto que me chamou a atenção.
Há um assassinato ( isso aparece no início). O suposto assassino se esconde na Capital e, nas cartas que manda para a mãe, não dá pista alguma sobre onde está. Um dos protagonistas, no entanto, descobre onde ele pode  ser encontrado por um detalhe que revela uma paixão. Podemos esconder tudo, o tal personagem diz, disfarçar ao máximo, mas uma coisa não podemos esconder: nossa paixão.
A palavra aqui está mal utilizada porque, no desenrolar do filme se vê que, por paixão, se deve entender também convicção, como, por exemplo, ser visceralmente contra a pena de morte.
Reparem que não se questiona as profundezas de cada um, mas sim os sinais que delatam essas profundezas. Não a razão da paixão mas a paixão em si. Dito de outra forma, não o iceberg, mas sua ponta, a maneira como nos mostramos para as outras pessoas, nossa  camada externa, o que Jung chama de persona e, se não estou enganada, a astrologia chama de lua – a forma como os outros me vêem ou o que vemos um no outro.
Todos nós temos, é verdade, uma paixão que vem de nossas profundezas e nos delata. Mais ou menos como aquela história infantil da princesa e da ervilha. Mesmo sob sete colchões, a ervilha não a deixou dormir a noite toda.
Minha ervilha é a literatura. Passei cinquenta anos da minha vida a escondendo sob sete colchões mas não pude evitar que ela me marcasse o corpo.
Agora, vivo cheia de hematomas, alguns, bem doloridos. 

Postado por ana mariano

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Hermanas dudas

24 de fevereiro de 2010 5

Porque o inferno é estático, feito de certezas, eu, igual ao Jorge Drexler, chamo minhas dúvidas de irmãs e agradeço que continuem mordendo minha língua. São elas que me fazendo acordar a cada manhã e seguir adiante.
Duas delas são mais constantes e, talvez porque envolvam o definitivo da morte, vão continuar existindo em mim.
Não sei se sou a favor ou contra a pena de morte e a eutanásia.
Da eutanásia, sou a favor, a maior parte do tempo.
Estou convicta que uma pessoa não pode ser obrigada a viver num sofrimento além dos seus limites.
No entanto, me pergunto, quais são os limites? Aqueles dois cientistas, cujo nome me escapa agora (quem souber, me ajude) que, com doenças degenerativas irreversíveis, seguem ativos, trabalhando, sentindo-se e sendo de uma utilidade quase insubstituível, têm um limite que a maior parte de nós não consegue alcançar.
O limite, então, tem a ver não apenas com o corpo mas com a mente e, por isso, é muito difícil se avaliar se foi ou não ultrapassado.
A pessoa mesma pode dizer,dirão alguns. Concordo, mas, e se a pessoa estiver, naquele momento, sob efeito de uma depressão reversível e, com o tempo, mudar de opinião? Como saber se sua decisão de morrer é mesmo definitiva?
Com a pena de morte tenho uma posição parecida.
Diante de alguns crimes, me pergunto: como foram possíveis?
Carimbo no criminoso a palavra monstro e quero a sua morte.
No entanto será a morte a punição maior? Ou manter a pessoa presa por toda uma vida “vingará” melhor a sua vítima.
Olhando por outro lado, se tiver uma chance, ela não poderá se arrepender?
Não poderá ser útil ainda evitando, com seu exemplo, que outros crimes semelhantes aconteçam?
Esse comentário não tem uma conclusão a não ser a de que continuo em dúvida e gostaria de ouvir vocês.

Postado por ana mariano

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Um amor de verão

22 de fevereiro de 2010 4

Beijinho

Postado por ana mariano

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As praias

21 de fevereiro de 2010 1

Aqui, no Uruguai, como em qualquer outro lugar, cada tribo tem sua praia.
Existe a dos solitários, a dos nudistas, a dos esportistas radicais, a dos surfistas, as da moda…
A minha, que é minha porque fica bem em frente de casa, é praia mansa, não tem ondas, e, talvez por isso, é a praia das famílias.
Nada mais padrão e, ao mesmo tempo, mais individual e surpreendente que os membros de uma família: as mães , as crianças , os avôs, as avós, todos, ao mesmo tempo,iguais e diferentes.
Dito de outra forma, na minha praia, se vê de tudo.
Mães jovens cuidando de seus  pequenos, uma outra, não tão jovem, cuidando com o mesmo carinho do seu menino, não tão pequeno, portador de Síndrome de Down. Vovós turbinadas secando ao sol,feito passas. Vovós tradicionais de maiô com saiote e touca de borracha. Vovós médias, feito eu, se esforçando ao máximo. Vovôs gordos, muito gordos, magros, muito magros, altos, baixos, intermediários, dando suas olhadinhas para mamães e vovós. Maridos, idem, idem. Pessoas em cadeira de roda tomando banho de mar e curtindo cada minuto. Crianças, muitas crianças e, atrás delas, os inevitáveis sorveteiros. Parênteses: porque aqui há muitos argentinos e argentino adora café, além de vendedores de sorvete, temos vendedores de café.  Não sei se no Rio vendem café na praia; biscoito, sei que sim o que, convenhamos, é meio caminho andado. Bem, tudo isso é só para dizer que minha neta foi embora hoje; as férias estão terminando; logo minha praia, além de mansa, vai estar vazia e meus companheiros serão apenas aqueles três cachorros vagabundos que me acompanham no inverno e , no verão, continuam tomando seu banho de mar mas passam desapercebidos no meio da balbúrdia.

Postado por ana mariano

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Fernando, simplesmente

19 de fevereiro de 2010 4

A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.
                                                       Fernando Pessoa

 

Postado por ana mariano

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Post Scriptum

18 de fevereiro de 2010 2

Sempre fica algo por dizer
um rancor um amor uma surpresa
um pedaço de vida insuportável
que no entanto nos ensina algo

aquela vez em que fomos derrotados
como se fôssemos ídolos de trapo
e a outra em que nos roçou um triunfo
desses que não se tem programado

sempre fica algo por sonhar
chegar a uma fronteira tão remota
que fica mais além do horizonte
e por essa razão é sedutora

e um intervalo quase escuro
de que não nos livramos ainda
e que nos deixa imóveis olhando
essa lua de tantos pesadelos

sempre fica algo por apagar
um aguaceiro um choque dois domingos
que apesar de ser pouco ou quase nada
resistem em fundir-se no esquecido

sempre fica algo por buscar
digamos uma paz sem atenuantes
e uma consciência boba que censura
pecados que são simples disparates

não fica nada para acrescentar
ao menos encontrei o que buscava
e se lembro de alguma outra coisinha
neste caso acrescento outro P.S.
                                                    Mario Benedetti

Postado por ana mariano

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Canção para me entender

16 de fevereiro de 2010 3

Para Inês, que perguntou se estou triste.

No bolso esquerdo, levo uma tristeza
que se agita, andorinha, quando escrevo.
No entanto, juro, sou alegre e rio
tanto e mais,  sempre que me atrevo.
 
No amor, dizem, sou incongruente.
Mas amo. Amo sempre, esperançosa,
reincidente abelha, amo industriosa,
em dias alternados, amo insistente.

Dos abraços, rápidos marinheiros,
ficam no ar algumas formas breves,
um revoar de plumas, travesseiros.
Mas é de chumbo e sal o peso deles.

A exatidão do mundo perco, minuciosa.
Guardo apenas, em meus olhos desatentos,
imprevistas surpresas de janela
e essa inocência de menina à espera.

Postado por ana mariano

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100 anos de solidão

14 de fevereiro de 2010 4

marcas na areia foto de ana alegria

 

“…  o segredo de uma boa velhice não é outra coisa senão um pacto honrado com a solidão. “

                                  Coronel Aureliano Buendia

 

Postado por ana mariano

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