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Posts de maio 2010

Crime e castigo

31 de maio de 2010 7

Um homem disse: “Eu prefiro ter sorte do que ser bom” . As pessoas têm medo de encarar que uma grande parte da vida está dependente da sorte. É assustador pensar que não se tem qualquer controle. Há momentos, num jogo, quando a bola atinge o topo da rede e por uma fração de segundo ela pode avançar ou retroceder. Com um pouco de sorte ela cai do outro lado e você ganha. Ou, não, e você perde.

Esse é ( aproximadamente) o texto inicial do filme de Woody Allen: Match Point.
Quis rever Match Point porque li Crime e Castigo do Dostoiévski e o professor Nicotti chamou nossa  atenção para o paralelismo ( proposital, é claro) entre as duas obras.
Em Crime e Castigo, assim como em Match Point , o protagonista se acha no direito de afastar do seu caminho tudo o que o impede de ir além e esse “afastar” inclui a morte de outras pessoas.
A diferença é que Chris, de Match Point, ao contrário de Raskólnikov, suporta a culpa e faz de tudo para não ser preso.
Tudo o que faz, porém, não é importante,  quem decide é a sorte.
Parece que esse tema – a sorte – está se repetindo nos filmes de Allen. 
Esse último – Tudo pode dar certo – ainda não vi, mas, me disseram, trata do mesmo assunto.
Saber que não se tem o controle, que dependemos, em última instância, do imprevisível, é, sim, assustador mas pode ser também um alívio.
Quando estou num avião, sei que não sou eu quem o mantém no ar e, ao invés de ter medo, desligo e fico livre.  Preciso aprender a fazer o mesmo com a vida.

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Novos tempos

27 de maio de 2010 2

Existe um tempo em que não há mais tempo.
É quando aprendes a viver com pouco
e examinas de uma forma nova
e organizas brancas prateleiras
na ordem louca que só tu conheces.
Existe um tempo em que não há mais tempo
e um silêncio nu toma tua mão
e um verso alheio te faz companhia
e o tango triste que teu pai cantava
te dá a certeza de que no horizonte
se pôs a lua dos teus pesadelos.
Um tempo existe em que não há mais tempo
e nesse tempo a vida é suficiente
e o pouco tempo já não mais assusta.

                                                                     Ana Mariano

 

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Destino exagerado

25 de maio de 2010 2

Há alguns dias, um acidente de avião perto de Manaus matou 6 pessoas, entre elas o piloto – Miguel Vaspeano Lepeco . Esse senhor tinha esse nome - Vaspeano-  porque, em 1957, nasceu dentro de um avião da Vasp quando sua mãe, informada de que o parto seria complicado, decidiu ir de Maringá para Curitiba onde havia mais recursos médicos. Apaixonado por aviões, Vaspeano, resolveu ser piloto. Segundo sua filha, graças à destreza adquirida em voar para garimpos na serra Pelada, sobreviveu a 5 acidentes sem registro de mortes. Não sobreviveu ao sexto mas parece ter conseguido evitar uma tragédia maior pois o avião caiu próximo a uma escola e a poucos metros de um conjunto habitacional. Se vocês lessem isso num livro não iam dizer que o autor havia exagerado? Pois parece que o Destino ou Deus, como quiserem chamar, não se importa com exageros.

 

 

Postado por ana mariano

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Transexualização

22 de maio de 2010 4

Li, há algum tempo, uma crônica do Drauzio Varella na qual ele chamava a atenção para um fato: enquanto ( felizmente) os homossexuais têm cada dia mais simpatizantes, estão, a cada dia, conquistando mais direitos, a cada dia, mais inseridos na sociedade moderna, os travestis e transexuais amargam uma rejeição digna do Collor na época do impeachment. Enquanto os gays e lésbicas fazem risonhas passeatas ( nada contra), os travestis matam-se com a ingestão indiscriminada de hormônios, a aplicação de silicone não apropriados para o corpo humano e outras coisas piores.
Soube, por acaso, ouvindo rádio, que, no Brasil a operação de troca de sexo ( cirurgia de transgenitalização) pode ser feita sem custos, através do SUS. Como as pessoas são selecionadas para o programa, confesso que não sei informar, o que sei é que, depois de selecionadas, são necessários mais ou menos dois anos de espera com atendimento por endocrinologistas, psicólogos, psiquiatras, urologistas e assistentes sociais até a cirurgia.
Muitos de vocês vão dizer que é perda de tempo, que se faria melhor aplicando o dinheiro do SUS no tratamento do câncer, por exemplo. Difícil avaliar. Uma coisa não elimina a outra e, por outro lado,só quem já passou  ou conviveu com ele sabe o quanto pode ser doloroso o sofrimento psicológico.
Vinícius de Moraes, no poema O dia da Criação, acho que falava nisso quando dizia
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado
De uma mulher dentro de um homem
Já pensaram na angústia de sentir-se preso(a) dentro de um corpo que não combina com o gênero a que se pertence? A chamada de disforia de gênero, distúrbio causado pela inadequação entre o aspecto físico e a personalidade não pode ser simplesmente ignorada.
Para pensar a respeito, sugiro um filme. Transamérica. Conta a história de um transexual que, às vésperas da cirurgia, recebe a ligação de um filho de cuja existência não tinha a menor idéia, nascido, segundo ele, de uma relação “patéticamente lésbica” do tempo da faculdade. No princípio ele quer apenas ver-se livre do problema, mas a psicóloga encarregada de autorizar a cirugia, determina que só quando resolver o passado poderá operar-se. 
Bree ( uma ótima Felicity Huffman) decide então atravessar o país com o filho Toby ( que não tem a menor idéia que aquela “mulher” ao seu lado é, na verdade, seu pai) rumo a Los Angeles.
O filme expõe as contradições da moral puritana da América, mostra a dor e a solidão de um “transexual conservador” escandalizado com o filho prostituto e mal educado. Os dois são, ainda, discriminados pela família de Bree ( e de Toby) : uma mãe caricata em luta contra os estragos da idade, um pai submisso e uma irmã e alcoólatra.
O filme é imperdível. Ajuda a entender a ponta do iceberg. Assisti, faz já algum tempo, no cinema, mas deve existir em vídeo. 

Postado por ana mariano

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Cartas de amor ridículas

21 de maio de 2010 1

 

 

 

Cada um de nós conhece poemas que gostaria de ter escrito. Esse, do Fernando Pessoa, ao dizer o aparentemente óbvio, diz muito com pouco.

Postado por ana mariano

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A Assombrosa Viagem de Pompônio Flato

20 de maio de 2010 2

” No caminho, pergunto-lhe como ficou sabendo da minha existência e responde que Nazaré é uma cidade pequena, onde as notícias e boatos se espalham com grande velocidade, e que desde a véspera fala-se de um romano que adoeceu procurando umas águas milagrosas e agora anda pela rua soltando peidos. Alguns dizem que sou um homem sábio, e me chamam de rabi ou raboni, que na sua língua significa “mestre”. Outros me chamam simplesmente de imbecil.
- E você? – perguntei. – O que acha?
- Eu – disse Jesus – acho que você é um homem justo. “

O trecho acima é de A Assombrosa Viagem de Pompônio Flato, do escritor catalão Eduardo Mendoza. O livro conta a história de um romano do século I d.C que, em busca da fonte da sabedoria, bebeu de muitas fontes, muitos arroios, o que lhe acarretou uma flatuência crônica e memorável. Em Nazaré, ele é contratado por José, pai de Jesus ( não coloquei a palavra entre aspas porque o escritor é ateu), acusado da morte de um homem rico do vilarejo. Jesus, ” rubicundo, bochechudo e com orelhas de abano”  torna-se, assim, uma espécie de Watson do “detetive” Pompônio Flato e dele leva até mesmo alguns “cascudos”.
Uma personagem de Agatha Christie dizia que nada acontece no mundo que não aconteça também numa vila. Assim, apoiado-se na piada central, e em Nazaré, o livro fala das tristezas do mundo, desde a simples especulação imobiliária passando por prostituição,  maledicência ( comentam que José é corno manso), terrorismo político e religioso.
Achei a história tão original, de um humor tangenciando a falta de gosto mas não afundando nela, que resolvi trazer como dica. Aos que ( como eu) se assustam  com o tema levemente escatológico, o escritor lembra que esquartejam gente em romances, mas neles ninguém diz que soltou um peido.

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A palavra (en)cantada

19 de maio de 2010 2

 

 

Há cerca de um mês, ganhei, da minha prima Magali, esse DVD. Parece mentira, mas só agora tive tempo para assistir. Talvez eu esteja chovendo no molhado e vocês todos já conheçam ( é de 2009) mas, mesmo correndo o risco de ser óbvia, não posso deixar de dizer o quanto é bom esse filme. Começando nos trovadores franceses da idade média, passando pelo Cordel nordestino, ele faz uma aproximação entre música e literatura, traz depoimentos fantásticos, resgata cenas maravilhosas como a encenação do Morte e Vida Severina, os festivais da Record, Dorival Caymmi dos anos 40, Bethânia declamando Eros e Psique, aquele poema do Fernando Pessoa. Prestem atenção na resposta que o Caetano dá ao repórter que lhe pergunta porque usou Coca-Cola e Cardinale na letra do Alegria Alegria, está no trailer. É de bater palmas.

Postado por ana mariano

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Hilda Hilst

16 de maio de 2010 2

Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses
E era como se a água
Desejasse

Escapar da sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.

                                               Hilda Hilst

                                             Júbilo, memória, noviciado da paixão

 

Postado por ana mariano

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A médica poeta ou a poeta médica

16 de maio de 2010 8

A Angela, poeta, autora de Segredo das Águas, é também médica hematologista  e hemoterapeuta. Ás vezes, num desabafo, ela me conta das batalhas que trava no hospital. Algumas ganhas, outras perdidas, todas heróicas. 
Impotente para fazer muito mais, lembrei de colocar aqui no blog um chamamento para doação de sangue.
Este é apenas um resumo, quem quiser se informar com mais detalhes pode entrar no blog  www.elefantedememoria.blogspot.com
Com a palavra, a doutora poeta.

Como faço para doar e qual a importância deste ato?

O Brasil necessita diariamente de mais de cinco mil bolsas de sangue, mas o total da população que doa sangue no país não chega a 2%.
 A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que o percentual ideal de doadores esteja entre 3 e 5%.
A grande maioria das pessoas só doa sangue quando alguém pede.
Essa afirmação reflete duas irresponsabilidades do sistema de saúde: a primeira está relacionada a inexistência de sangue estocado em condições de uso com segurança, é necessário tecnicamente um intervalo de dias para que o sangue coletado possa ser utilizado e todo cidadão tem direito a isto; a segunda, relaciona-se ao tratamento reducionista que as instituições hospitalares dão ao assunto, transformando um problema de ordem coletiva e de interesse de toda a comunidade em uma questão individual ou familiar: a família da vítima ou paciente é transformada em agenciadora de doadores.

Requisitos para doação de sangue:

 • Ter boa saúde
 • Ter idade entre 18 e 65 anos
 • Ter peso superior a 50Kg
 • Não apresentar sintomas de anemia, gripe, febre ou convulsão (epilepsia)
 • Não ser portador do vírus da Hepatite, Sífilis, Doença de Chagas, HIV (AIDS)
 • Em caso de mulheres: não estar grávida ou amamentando
 • Não estar doente com febre
 • Não estar em jejum
 • Não ter tido gripe  há menos de 15 dias
 • Não utilizar drogas injetáveis e outros

 

 

Postado por ana mariano

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Marketing de Comportamento

13 de maio de 2010 8

Minha cabeça é cheia de becos tortuosos. Vias expressas, são raras, raríssimas. Talvez por isso vou pulando pensamentos como quem pula sapata ( amarelinha,para os do norte), salto de um assunto para outro, talvez por isso quando leio uma coisa faço ligação direta com outra, talvez por isso, sofra. 
Quando li e ouvi sobre esse tal de bullying, essa crueldade que anda matando adolescentes nas escolas, lembrei de uma crônica do Pondé, meu filósofo predileto depois do Paulinho, publicada na Folha de São Paulo (10/5/) sob o título Marketing de Comportamento e mandada a mim pela sempre atenta Fátima.
Pondé começa dizendo que esse papo de que “hoje temos outra cabeça” não é verdadeiro, continuamos básicamente os mesmos, a frase, usada nos chamados “jantares inteligentes” é apenas marketing pessoal. Deixo falar o Pondé. Atenção, ele vai direto no fígado.

 

…não acredito em pessoas bem resolvidas, acho que todo mundo que se diz bem resolvido é um mentiroso contumaz, mulher ou homem. No fundo, o que existe hoje é um marketing de comportamento que se apoia no consumo crescente de antidepressivos e hábitos macabros como conversar com gatos, cachorros, plantas ou extraterrestres. Só eremitas conseguem viver bem sozinhos. Amar a solidão sempre implica alguma forma de trauma ou desencanto com a vida.
E por que existe tanta gente que faz uso desse marketing de comportamento dizendo por aí que “hoje temos outra cabeça”? Dou duas respostas.
Primeira: eu me vendo como bem resolvido para fazer os outros se sentirem mal e com isso elevo minha autoestima. Nunca subestime a delícia que é fazer o outro se sentir mal mesmo que você não esteja se sentindo tão bem assim.
Segunda: como derivação da primeira, eu me vendo como bem resolvido para elevar meu preço no mercado dos afetos e das relações.
As duas se resumem no velho pecado da vaidade. Esse é apenas um dos sete pecados capitais (caso a cara leitora queira saber mais, leia são Tomás de Aquino). Melhor do que todo o papo de luta de classes, ideologia, política dos corpos, sexismo e blá-blá-blás associados, experimente usar os sete pecados capitais para ver se eles não iluminam a chacina cotidiana em que você vive.”

Postado por ana mariano

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