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Posts de junho 2010

O Estrangeiro

30 de junho de 2010 4

Hoje a mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “ Sua mãe falecida. Enterro amanhã. Sentidos pêsames.” Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem.”

 

Assim, curto e grosso, começa O Estrangeiro, de Camus. Haverá idade certa para ler um livro? Não estou falando de censura mas de compreensão. Eu havia lido esse livromuitos anos.  Não tive, então, nem de longe o impacto que senti agora. Não sei se é pela idade ou porque, nesses anos, li outras coisas e estou mais habilitada a fazer ligações, a entender melhor.

Para os que não o leram, ou o leram há muito tempo, conto alguma coisa. O protagonista vive como se não vivesse, como se visse a vida por uma vidraça que deixasse passar os fatos mas não seu significado. Tanto faz se a mãe morreu, eles não conversavam mais. Tanto faz casar ou não, o sexo é bom, por que não casar? A vida não tem sentido, não percamos tempo analisando emoções. Um dia, por nada, apenas porque o sol estava quente demais, ele mata um homem e é condenado à morte. Agora ele sabe, sabe de verdade que a vida vai terminar. O mundo deixa de ser sem sentido para tornar-se absurdo, há uma diferença sutil mas importante.

O “fingir recomeçar” na passagem final que transcrevo abaixo me fez chorar. A vida não tem sentido mas, apesar da morte, ou melhor, por causa dela, porque se entende, enfim, que ela existe e virá, a gente inventa, tenta, mesmo que todas nossas tentativas sejam absurdas. A gente recomeça ou finge recomeçar.

 

Pela primeira vez, há muito tempo, pensei em minha mãe. Julguei ter compreendido porque é que, no fim de uma vida, arranjara umnoivo”, porque é que fingira recomeçar. Também , em redor desse asilo onde as vidas se apagavam, a noite era como uma treva melancólica. Tão perto da morte, a minha mãe deve ter-se sentido libertada e pronta a tudo reviver

Postado por ana mariano

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Recadinho

28 de junho de 2010 0
oi ana, tudo bem contigo? entrei no teu blog hoje e notei que cada vez mais estás citando cinema nos teus posts. assim, recomendo um blog cultural que mantenho com amigos: www.odivago.blogspot.com . lá escrevemos sobre cinema, música, teatro, poesia, televisão, etc. acho que tu vais gostar.  
beijos e tudo de bom pra ti poeta!
Recebi esse recadinho do João Pedro e repasso a vocês. Entrei e é mesmo bem legal. Tem uma boa entrevista com o Manoel de Barros – Só 10% é mentira - o documentário que ainda não vi mas já encomendei na locadora.

Postado por ana mariano

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Dobrando (literalmente) o Cabo da Boa Esperança

27 de junho de 2010 0

Copa África 2010 172

Postado por ana mariano

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As muitas Áfricas

26 de junho de 2010 2

 

Antes de viajar, escrevi que estava curiosa para ver a África de depois do apartheid. Difícil tarefa, há muitas Áfricas.

Na de  Cape Town, os negros continuam morando fora da cidade em enormes favelas de 23 km de comprimento por 4 Km de largura. Estão sendo construídas casas populares mas em número absurdamente insuficiente até porque, segundo nos disseram, as pessoas do interior ficam sabendo das casas e mudam-se para as favelas na esperança de receber uma. De qualquer forma, Cape Town é impecavelmente limpa e organizada e parece que sem muita violência pois não se vê nada da segurança que nós temos no Brasil: uma gradezinha, uma cerca básica e pronto.

Já em Johannesburg a coisa é diferente. No centro, onde antes moravam os brancos, agora se vê apenas negros e negros pobres. Nos bairros onde, hoje, moram os brancos as casas são reforçadas por grandes muros, cercas elétricas e arame farpado. Nada que nós não conheçamos no Brasil.

No entanto, felizmente, uma nova classe está surgindo: a dos negros bem sucedidos financeiramente. Em razão disso, perto do estádio Soccer City (onde o Brasil jogou e onde será a final) dentro do bairro de Soweto, oantigo reduto da revolta negra, ao lado de casas de favela estão sendo construídas belíssimas mansões, clubes de golfe e até mesmo um luxuoso Shopping Center para atender a esses novos emergentes.  .

Nos poucos (250) quilômetros que viajei para o interior, até chegar à reserva, não vi pobreza indecente. Pobres, sim mas com aquela pobreza digna própria do interior, onde sempre se pode ter uns animais, uma plantação, alguns animais.

Quanto a simpatias, depois da bandeira da África do Sul e da Dinamarca, o que mais se vê nos carros e casas são bandeiras do Brasil.  Eles torcem por nós. Precisamos também acreditar. Porém, mais difícil de acreditar na vitória e acreditar que, no pouco tempo que temos até 2014, vamos conseguir o mesmo nível de organização quanto a aeroportos, estradas, estádios. Igual ao coelho do Alice no País das Maravilhas, precisamos olhar o relógio e dizer: está ficando tarde muito tarde… 

Postado por ana mariano

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Tempo é questão de preferência

24 de junho de 2010 0

Copa África 2010 265

Tempo, eu acredito piamente nisso, é uma questão de opção: ter tempo é preferir fazer uma coisa a outra. Mas, juro para vocês, dessa vez, fiquei vários dias sem escrever  porque realmente não tive tempo. O único tempo que poderia ter era o de dormir, mas mesmo esse é impossível porque , desde que chegamos, temos acordado muito cedo e dormido muito tarde.

 

No dia do jogo do Brasil contra a Costa do Marfim, por exemplo,  levantamos 6,30 para tomar o avião de Cape Town a Johannesburg. Ao final do jogo, esperamos no aeroporto até 2,45 da madrugada quando saiu nosso vôo de volta. Chegamos no hotel às 6, 30 da manhã seguinte, ou seja,  24 horas depois de acordarmos e 4 horas antes de acordamos novamente para  ir ver Portugal e Korea do Norte ( 7 a zero!) e conhecer o estádio de Cape Town. Portugal está muito bem, vamos precisar torcer muito amanhã.

Postado por ana mariano

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The big 5

24 de junho de 2010 0

Copa África 2010 336

Hoje tive sorte: vi girafas, elefantes e hipopótamos (além de crocodilos, impalas, antílopes, zebras e outros menos cotados). Para completar os Big 5 ffaltaram os rinocerontes e os leões.

Não, não estou num zoológico, estou numa reserva privada. Uma fazenda de 22.000 hectares, situada a 250 Km de Joannesburg. Não é grandioso como o Kruger Park, aquela enorme reserva natural ao norte do país,  mas quebra o galho, dá para se divertir. Amanhã conto mais.

Postado por ana mariano

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O prazer e a Copa.

16 de junho de 2010 0

Em São Paulo, esperando para embarcar para a África do Sul e curiosa sobre o que vou encontrar. Estive lá em 1989 quando o apartheid já agonizava. Sei que depois da lua de mel com a liberdade houve um período violento. Agora, tudo é festa mas com olhos atentos quero ver atrás da festa. Não fico até o final, assim, se o Brasil perder, não me culpem. Na vinda para cá tive tempo de ler o tal artigo sobre o prazer. Achei interessante a parte em que se refere à capacidade que temos de separar ficção e realidade e, em razão disso, encontrar prazer em situações potencialmente perigosas mas que sabemos ( ou confiamos que estejam) sob controle – a montanha russa e o para-quedas, por exemplo. Nessa capacidade se baseia também o assistirmos a uma tragédia grega e encontrarmos “alívio” nela. Nós, homens, não mudamos muito desde Sófocles. Penso nisso enquanto volto para o que se diz tenha sido o berço da humanidade, nossa mãe África.  Aliás, muito legal a frase de boas vindas que logo estarei lendo nos cartazes espalhados por Cape Town- welcome home, world!

 

Postado por ana mariano

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Dor de cotovelo ou conflito cerebral?

13 de junho de 2010 4

Tenho um amigo neurologista para quem tudo na vida são os neurotransmissores. Eu implicava com ele, dizia que era a antítese do romantico. Mordi a língua.
Um estudo recente chegou à conclusão de que até mesmo a tão temida dor de cotovelo não
passa de um conflito cerebral.
O relacionamento terminou, as lembraças negativas estão presentes mas o cérebro continua a mandar estímulos que causam as mesmas reações físicas de quando havia amor: coração a mil, adrenalina, borboletas no estomago.
Todas essas reações seriam interpretadas como sentimentos, confundidas com o amor, o que realimentaria o “circuito”.
Para terminar esse “conflito cerebral” estar sozinho não ajuda, a passagem do tempo também não
e tudo piora com a presença do(da) ex. O contato com o antigo amor seria algo semelhante a um viciado em álcool que pretende tomar “apenas” um copo.
Para superar tudo isso os médicos indicam que se deve reforçar as emoções negativas e mudar o foco para uma nova pessoa.
Tenho duas restrições ao tal estudo.
Não sei como ele têm tanta certeza de que essas reações todas não são amor ( ainda me recuso a acreditar que amor seja apenas “um feliz encontro de neurotransmissores” ) e a conclusão a que chegam é, como dizia Nelson Rodrigues, o óbvio ululante: nada como um novo amor para esquecer o antigo.

Postado por ana mariano

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Blogs terminais

08 de junho de 2010 19

Por que estou aqui? pergunta uma blogueira canadense Tenho a esperança de achar alguém que saiba o que é subir escadas e não conseguir respirar. Alguém que esteja doente e cansado de estar doente e cansado. E acrescenta um p. s. Alguém lê isso? Por favor, comente…
Sim, alguns blogs  (http://65redroses.livejournal.com)  falam não de vida, de literatura, de futebol, mas de morte. São criados por pessoas em estado terminal e, segundo depoimentos de especialistas, na reportagem que li, ajudam a enfrentar a morte.  A exposição da doença, a busca de comunicação com pessoas desconhecidas  ajudariam esses doentes a se sentirem vivos.
A nós, os saudáveis, segundo a mesma reportagem, essas confissões chocam porque não suportamos a dor do outro. Quanto a essa última afirmação, tenho, sinceramente, as minha dúvidas. Alguém já disse que amar o outro como a si mesmo não é algo natural. 
Se, como se viu acima, os comentários são poucos ou inexistentes, quem os lê me parece que o faz por curiosidade e pensando, talvez, ainda bem que não sou eu.
Se eu os lesse, com certeza deixaria uma palavra de consolo mas, como em tudo,  há, no silêncio do leitor, um lado positivo:  ajuda a criar a idéia de que a blogosfera é um espaço privado. Essas mesmas pessoas, se estivessem cara a cara com quem as lê talvez não tivessem a coragem de se exporem tanto. Os blogs terminais parecem, de certa forma, uma releitura da confissão católica: sei que alguém me escuta, mas não o vejo e isso ajuda a dizer. 
De qualquer forma insisto: se entrarem ( eles escrevem em busca de ajuda, é bom que entrem), deixem algumas palavras, vocês não têm idéia do quanto são importantes. 

Postado por ana mariano

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Antenas da raça

03 de junho de 2010 2

Ezra Poud costumava dizer que as pessoas geniais são antenas da raça ou seja, captam no ar, descobrem coisas antes que sejam oficialmente descobertas.
Um desses gênios, estou confirmando por experiência própria, foi Dostoiévski. Dou dois exemplos.
Em Crime e Castigo, ele nomeia os personagens a partir de raízes que correspondem à personalidade que lhes atribui. 
Assim, Razumikhin, um personagem ajuizado, sensato, tem seu nome derivado de razum: juizo, bom senso.
Marmieladov, personagem inseguro de qualidades indefinidas tem como origem uma palavra que pode, curiosamente, ser compreendida por nós que a herdamos das línguas românicas: marmelo.
Já o personagem principal recebeu o nome de Raskolhnikov que tem como base o radical raskol que significa cisão.   
O interessante é que Raskolhnikovn com sua rigidez afetiva, sua ambivalencia seria diagnosticado hoje como portador de uma personalidade esquizóide e mais curioso ainda que a esquizofrenia, antes chamada de demencia precoce, foi, mais tarde, identificada e nomeada por Bleuler utilizando um radical grego que significa também divisão, cisão.
Ou seja, Dostoiévski,entendeu e nomeou a esquizofrenia antes que ela fosse oficialmente identificada. 
O segundo exemplo: nesse mesmo livro, o personagewm Raskolhnióv, inventa  uma teoria segundo a qual haveria dentro da raça humana homens especiais, verdadeiros super homens aos quais tudo seria permitido. Foi julgando-se um desses super homem que ele mata a velha usurária mas o faz apenas para dar-se conta de que é incapaz de aguentar a culpa, e que, portanto, ao contrário do que pensava, faz parte da grande e desimportante massa humana.
Nietzsche, anos depois, vai fundar sua filosofia justamente na vontade de poder e na idéia do super homem isento de culpa cuja vontade é a única que importa e que prescinde de tudo, até mesmo de Deus. Não é fantástico fazer essas ligações, atar esses nós como quem ata uma grande rede?   
 

Postado por ana mariano

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