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Posts de julho 2010

Transplante de rosto

28 de julho de 2010 3

Foram divulgadas as fotos do décimo segundo transplante de rosto, o primeiro total.
Essa pequena palavra - total -  o torna único.
Não pelo riscos ou pela complexidade da cirurgia, mas por dar a uma pessoa o rosto inteiro de outra.
Como será feito? São tomadas providencias para que os familiares do doador não o reconheçam no transplantado? Como o próprio transplantado aceitará  sua nova face?
Eu não me importaria de doar meu próprio rosto mas (e isso, com certeza, é uma idiotice minha) acho que não aceitaria doar o rosto de um familiar.
O mundo anda tão rápido! Nunca imaginei que precisaria pensar sobre transplante total de rosto. 
 

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Les nuits atypiques

25 de julho de 2010 3

Hoje, por pura sorte, assisti no SESCTV ao documentário de Claudinho Antunes e Marcio Werneck – Sete dias em Burkina.
Vocês já tinha ouvido falar nesse país, Burkina Faso que significa Terra dos homens íntegros? Eu, não.
O vídeo surgiu para registrar o NAK – Noites Atípicas de Koudougou, um dos festivais de música mais importantes da África que repete, em solo africano, o Festival Nuits Atypiques de Langon.
O documentário de Antunes e Werneck, no entanto, ao mostrar o festival, mostra muito mais; mostra como o sonho de ajudar um país, se levado com seriedade, pode dar certo.
Koudbi Koala, é o nome do homem que, tendo se formado professor na França, voltou para ajudar seu povo através da música. Partindo do nada, dando aulas de música e percurssão, ele iniciou e dá continuidade Fundação Koudougou, idealizadora do festival.
O documentário está no Youtube, dividido em partes. Nesse pedacinho que estou postando agora, vocês podem ouvir o início de uma poesia linda a Água ( tema central do festival de 2007) dita ( e acho que também escrita) por Simon Aka, ator e poeta africano.
Vou tentar encontrar a poesia sozinha e postá-la depois.
A beleza, o orgulho dos africanos em serem africanos, sua vontade de ir adiante é algo comovente. Talvez, se nos conhecerem, eles digam o mesmo de nós porque, no documentário, Koala declara que a pobreza da África não se compara com a da América Latina. Estive na Argentina, ele conta, e fiquei imaginando como aquelas pessoas podem viver naquele frio e numa casa feita de lata. Mil vezes ser pobre na África do que na América Latina, conclui.
Essa declaração, de um orgulho maravilhoso, é um tapa na cara de quem pretenda rotular a África como um continente pobre, doente, sem futuro. Preconceito não de cor mas de pobreza.

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Gilberto Perin

24 de julho de 2010 0

Ontem, no último dia, fui à exposição de fotografias do Gilberto Perin: Brasil Camisa Brasileira. Fiquei comovida. Durante meses ele acompanhou um clube pequeno da cidade gaúcha de Pelotas e o resultado é um registro da nossa humanidade. A esperança, o esforço, a derrota, a beleza, a vitória, tudo o que nos faz grandes e humanos está ali, de forma enganadoramente simples, em imagens belíssimas. A curadoria de Alfredo Aquino, impecável.  

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Do fazer ao exibir-se

21 de julho de 2010 2

Sob esse título, Ferreira Gullar pergunta-se por que o radicalismo se apresenta muito mais forte nas artes plásticas do que na literatura.
Quando ele fala em radicalismo é radicalismo mesmo, a liberdade sem limites, a negação da coerência, o tal do dadaismo do qual um dos representantes seria Duchamp ( lembram do mictório? A Fonte?).
É verdade, movimentos de vanguarda surgem tanto na literatura e na música quanto nas artes plásticas mas permanecem mais nessas do que naquelas. Em literatura, por exemplo, o quase incompreensível Finnegans Wake, do Joyce, é caso isolado. Felizmente, segundo Gullar, pois se Joyce tivesse tido muitos seguidores não teríamos Clarice, Borges, Faulkner…
De qualquer forma, a resposta de Gullar à pergunta que ele mesmo se faz seria a de que os pintores de hoje expõem sua arte em eventos grandiosos mas transitórios, as Bienais, por exemplo.
Os de antigamente (Da Vinci, Rafael, Ticiano) não o faziam.
Essas grandes mostras e exposições incentivariam  a busca do impacto, a polêmica, as  obras de vanguarda.
O artista de hoje, segundo ele, ao contrário dos antigos, não busca a permanência mas a exposição. Daí as intalações, os happenings, as perfomances.
Gullar que me perdoe mas não concordo ou concordo em parte.
Acho sim que há mais vanguarda nas artes plásticas do que na literatura. Os escritores, de forma geral, não se animam tanto a serem “incompreensíveis”. Segundo meu editor ( que é também artista plástico) isso acontece porque todo o escritor tem um editor que o poda num formato legível pois cabe ao editor, sem abrir mão da qualidade, ser o representante do leitor comum. Editoras ( com raras exceções) não são fundações, precisam vender.
Verdade, mas a idéia de Gullar com a qual menos concordo seria a de que nas obras de vanguarda não haveria uma busca de permanência mas apenas um desejo de expor e expor-se.
Na minha opinião, todos, mesmo os que fazem as obras chamadas transitórias, buscam a permanência, se não pela obra, pela idéia da obra. O querer sobreviver é inerente ao ser humano.Seja pelo trabalho, pelos filhos, pelos netos todos queremos ficar.Todos.   

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Uma licença poética

19 de julho de 2010 0

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Não, não estou me repetindo, sei que já comentamos aqui esse poema do Drummond. É que, dessa vez, lembrei-me dele num outro contexto. Aos 4 meses, em razão de uma doença grave chamada sepsis meningocócica, uma menina espanhola teve ambas as pernas amputadas. Alguns meses depois da amputação, a mãe procurou um médico da Unidade de Dor Infantil do Hospital La Paz de Madrid dizendo que o bebê  chorava todas as noites, não sorria nunca, não sentia prazer em nada.
Ela não fala, não pode dizer o que está sentindo, mas eu estou convencida de que chora de dor, a mãe informou ao especialista, doutor Francisco Reinoso. Esse, deixando-se guiar pela intuição materna, desconfiou de que a criança pudesse estar sentindo a dor do membro fantasma, uma dor muito frequente nos amputados. É como se, depois da amputação, ficasse registrada no sistema nervoso central uma última imagem: a dor no membro perdido. Essa dor, se não tratada, torna-se crônica.
A pergunta era se uma criança que ainda não construira uma consciência corporal, que não sabia que perdera as pernas poderia ter “membro fantasma”.
Os médicos decidiram arriscar e a menina foi tratada da mesma forma que um adulto: com reméidos contra epilepsia. 
Dois ou três dias depois doinício do tratamento, a mãe veio informar que a menina já dormia toda a noite, havia parado de chorar, voltara a sorrir, ficara boa.
Sei que aplicar o poema do Drummond neste contexto é uma licença poética mas não pude deixar de faze-lo. O cérebro da menina, mesmo sem saber da ausencia, chorava a falta. Parece que, em nós, desde o princípio, corpo e espírito são tão misturados, tão “o mesmo” que fazemos poesia não só com os sentimentos mas também com o corpo. 

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Momento auto ajuda

17 de julho de 2010 3

Atrasada em responder aos comentários, peço desculpas e explico: estou em Barcelona; serão apenas 4 dias, há que aproveitar ao máximo. Hoje vou ao Palau de la Musica Catalana assistir a um concerto de violão: Concerto de Aranjuez. Quanto ao post anterior, o do tal escritor nascido húngaro, postei mais para ativar uma discussão. Fiquei contente por ter dado certo. Pessoalmente, concordo em parte. Não sou assim táo estóica, Pedro. Ninguém, ou pelo menos muito poucos, precisam conformar-se, por exemplo, em serem barrigudos. Aceitar-se, sim, mas, como dizia Francisco de Assis,sabendo o que se pode ou não mudar. Há que espernear um pouco, há que lutar.
De qualquer forma, o que chamei de sabedoria húngara, é apenas a fala de um personagem do livro As Brasas e, todos sabem, nem sempre o que o personagem diz é o que o autor pensa. Aliás, se esse era mesmo o jeito de pensar do autor, o conformar-se não o ajudou muito pois Sándor Márai suicidou-se nos EStados Unidos em 1989. 
Mas, já que estamos num momento auto ajuda, dou outra dica. No jornal El País, Rosa Montero ( autora de A louca da Casa) declara que, embora deteste tudo que lembre auto ajuda, ouviu de uma amiga, gostou e repassa: Não te leves a sério demais, os outros certamente não te estão levando.

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Sabedoria húngara

15 de julho de 2010 6

Ser diferente do que somos, de tudo o que somos é o desejo mais nefasto que pode queimar um coração humano. Pois a única maneira de suportar a vida é se conformar em ser o que somos aos nossos olhos e aos do mundo. Devemos nos contentar em sermos feitos de uma certa maneira e em sabermos que, uma vez aceita essa realidade, a vida não nos louvará por nossa sabedoria, ninguém nos conferirá uma medalha de honra ao mérito só porque nos conformarmos em ser vaidosos e egoistas, ou calvos e barrigudos – não, em troca dessa tomada de consciência não obteremos prêmios nem louvores. Devemos nos suportar tal como somos, este é o único segredo. Suportar nosso caráter, nossa natureza profunda, com todos os seus defeitos, seu egoísmo e sua cupidez, que não serão corrigidos nem com a experiência nem com a boa vontade. Devemos aceitar que nossos sentimentos não são correspondidos, que as pessoas que amamos não retribuem o nosso amor, ou pelo menos não como gostariamos. Devemos suportar a traição e a infidelidade, e sobretudo a coisa que nos parece mais intolerável: a superioridade intelectual ou moral do outro.
        Sándor Márai

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A beleza das bolhas de sabão

11 de julho de 2010 2

O poeta Ronald Augusto, manda um link para o artigo de Alcir Pécora – Escrever não é preciso – publicado na revisa Sibila.  Para os que estiverem interessados:
http://www.sibila.com.br/index.php/critica/1170-o-inconfessavel-escrever-nao-e-preciso.
Numa época de propagação de oficinas literárias, quando parece que, de repente, todos decidiram ser escritores, o artigo, talvez venha em boa hora.
No entanto, como em tudo ou quase tudo, há um outro lado a ser considerado.
O que o artigo afirma é verdade: escrever não é preciso. Escrever é luxo de poucos porque poucos ( muito poucos) ficarão. A maioria, não importa o quanto se esforce, irá desaparecer feito bolha de sabão. Com sorte, serão bonitos, por um instante.
No entanto, como saber sem arriscarmos, sem  publicarmos um primeiro livro, sem pagarmos para ver? Até Drummond pagou do proprio bolso sua primeira publicação.
Gênios são muito raros. Nasce um a cada 200 anos, é o que dizem. A grande maioria dos que escrevem, tocam, pintam é feita de pessoas absolutamente comuns.
Sobre isso, li, recentemente, um livro, – O Náufrago, de Thomas Bernhard ( Cia das Letras, 2006); difícil de conseguir, está ou estava esgotado;  narra a história de três amigos que entram juntos para uma academia de música, o Mozarteum. Um deles é gênio, Glenn Gould. Os outros dois são pessoas comuns que precisam justamente aprender a lidar com o fato de que são comuns. O narrador, suporta a comparação com Gould, o outro “naufraga” no desespero e termina por suicidar-se. Com sua morte, perde-se um bom concertista, um homem que, se não era gênio, tornava o mundo melhor com seu piano.
Por isso, sem tirar a razão do artigo da Sibila, digo que não podemos ser radicais: seja gênio ou cale-se para sempre.
Somos todos ou quase todos apenas bolhas de sabão? Estamos destinados a sumir sem vestígios? Quase certo que sim. Mas, se na beleza perolada de nossas bolhas, conseguirmos, mesmo que por um breve instante, refletir o arco-íris, por que não arriscarmos? 

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Uma bela poeta

10 de julho de 2010 2

Ilustríssima, o caderno de cultura da Folha de São Paulo do dia 27 de junho trouxe dois poemas muito interessantes. A poeta, eu não a conhecia, chama-se Ana Martins Marques.
O google e uma resenha escrita pelo Carpinejar na revista Aplauso me informam que é bonita, tem apenas 32 anos, é mineira, ganhadora por duas vezes do Prêmio Cidade de Belo Horizonte e publicou recentemente seu primeiro livro : A vida submarina.
O que mais me chamou a atenção no seu trabalho é a quebra de uma característica da poesia atual que, por não ser uma teórica, não sei bem como chamar mas vou tentar explicar.
Grande parte dos poetas atuais, na minha opinião, limpam demais o poema. Com medo, talvez, de estarem escrevendo, não poemas, mas prosa poética, tiram preposições, conjunções, pronomes. Isso dificulta o entendimento. Apenas com substantivos e adjetivos, difícil fazer-se entender. Ana Marins Marques não tem medo de pronomes nem de preposições e tem outra qualidade, sabe usar muito bem o humor.

O Brinco

Pode ser que como as estrelas
as coisas estejam separadas
por pequenos intervalos de tempo
pode ser que as nossas mãos
de um dia para o outro
deixem de caber
umas dentro das outras
pode ser que no caminho para o cinema
eu perca uma das minhas ideias
preferidas
e pode ser
que já na volta
eu me tenha resignado
alegremente
a essa perda
pode ser
que o meu reflexo sujo
no vidro da lanchonete
seja uma imagem de mim
mais exata
do que esta fotografia
mais exata do que a lembrança
que tem de mim
uma antiga colega de colégio
mais exata do que a ideia
que eu mesma
agora tenho de mim
e portanto pode ser
que a moça cansada
de olhos tristes
que trabalha na lanchonete
tenha de mim uma imagem
mais fiel
do que qualquer outra pessoa
pode ser que um gesto
um jeito de dobrar
os lábios
te devolva
subitamente
toda a infância
do mesmo modo que uma xícara
pode valer uma viagem
e uma cadeira
pode equivaler a uma cidade
mas um cachorro estirado ao sol não é o sol
e uma quarta-feira não pode ser o mesmo que
uma vida inteira
pode ser
meu querido
que esquecendo em sua cama
meu brinco esquerdo
eu te obrigue mais tarde
a pensar em mim
ao menos por um momento
ao recolher o pequeno círculo
de prata
cujo peso
o frio
você agora sente nas mãos
como se fosse
(mas ó tão inexato)
o meu amor.

Ana Martins Marques

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O Polvo

10 de julho de 2010 3

Será que o polvo vai acertar de novo? A essas alturas, todo mundo sabe do que estou falando mas, para os que não se ligam em Copa, explico. O pessoal tem colocado um polvo perto de dois pratos com mariscos, cada prato com a bandeira de um dos países que irão participar do próximo jogo. O prato escolhido tem a bandeira do ganhador do jogo.
Até agora houve 100% acertos,incluindo a vitórira meio zebra da Espanha sobre a Alemanha.
Embora ache que o palpite seja, de verdade, não do polvo mas de quem coloca a comida no prato, penso no imponderável, naquilo que não se pode controlar enquanto vejo, como o coração na mão, minha neta subindo as escadas assustadoramente altas do escorregador na pracinha. Sei que não devo interferir, ela está aprendendo a se arriscar.
Para viver bem é preciso que aprenda: o risco faz parte da vida. 
Li há pouco um artigo do Marcelo Gleiser ( aquele físico) onde ele diz que novas teorias científicas precisam do risco, ou seja, é preciso ter a coragem de deixar-se levar pela intuição, de convencer-se de algo antes de prová-lo.
A intuição é o primeiro passo, a partir do que se intui, correndo o risco de estar trilhando o caminho errado e colocando fora anos de pesquisa, parte-se para a comprovação científica. É assim com tudo que criamos, seja uma teoria, seja um livro, ou um quadro. Eles podem ou não dar certo. Até Flaubert, antes de Mme. Bovary, já queimou romance que não deu certo.
O que risco e polvo têm em comum? Por que pensar em acaso me levou a pensar em risco? Acho que ambos nos ensinam que não podemos controlar tudo, que, se o acaso faz parte da vida, é preciso sair da zona de segurança e arriscar porque a segurança da tal zona é muito relativa: está, como tudo, sujeita ao imprevisível. Pode ser assustador, mas não existe segurança. Igual ao polvo, estamos entre dois pratos, nada garante nossas escolhas. O medo de arriscar não pode nos impedir de viver.

PS – Demorei tanto a postar porque estavam mudando o sistema e eu não tinha acesso nem à publicação de um novo texto nem aos comentários de vocês. Peço desculpas pela ausência. Tomara que alguém tenha notado…

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