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Posts de agosto 2010

Sobre alunos e professores

30 de agosto de 2010 0

Os filmes sobre alunos e professores são bastante comuns.
O primeiro de que me lembro foi Ao Mestre, com carinho ( To sir, with love) com Sidney Poitier.
Depois, lembro o Sociedade dos Poetas Mortos, com Robin Willians.
Lembram do conselho – Carpe diem – aproveitar, viver bem cada dia – e do poema O Captain! My Captain! que Walt Whitman fez para Abraham Lincoln quando o assassinaram?
Coloco aqui para vocês lembrarem, a cena final do filme, vou tentar achar o poema em português.
Depois desses, houve muitos outros professores: de esportes, de dança ( Antonio Banderas).
Em todos eles, uma coisa em comum: o mestre como elemento de resgate, de mudança.
Ultimamente, dois filmes quebraram, de certa forma, essa regra.
O primeiro foi o francês Entre os muros da escola.
Ganhador do festival de Cannes em 2008, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, é um filme diferente de todos os que eu havia visto.
Para começar, maior parte dos alunos são alunos de verdade, não atores profissionais, os diálogos são muitas vezes improvisados o que o torna muito realista.
O mais importante é que mostra uma França desamparada, fragmentada em muitas etnias, uma França desconhecida de nós, estrangeiros.
Um filme triste, muito triste, porque realista.
Ontem, assisti a outro.
É um filme alemão, remake de outro, americano. Chama-se A Onda.
Dentro de um projeto do colégio, com a duração de uma semana, professores são indicados para darem aulas sobre assuntos fora do currículo normal.
Um deles, o professor de educação física, técnico do time de water polo, é escalado para falar sobre Autocracias.
Como os alunos afirmam que o fenômeno Hitler ou outra ditadura semelhante jamais se repetirá na Alemanha, ele resolve fazer uma ditadura real com a duração de uma semana.
Os alunos o elegem líder. Criam uma saudação, um logo que os identifica, um uniforme e um slogam: Poder, disciplina e superioridade.
O filme se baseia num fato real ocorrido numa escola americana.
Interessante a forma como tudo se desenrola mostrando o quanto somos capazes, sim, de repetir os mesmos erros e o quanto as experiências pedagógicas podem ser perigosas quando erradamente conduzidas.
Esse é o trailer.

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Bruna Lombardi

28 de agosto de 2010 2

Sei que é bonita. Sei também que foi a musa do Quintana de quem ficou amiga acho que na mesma feira do livro em que encontrou Caio Fernando Abreu. Não conhecia seus poemas. Fazendo uma associação com o Medo do Carver, uma amiga me mandou esse poema. Achei muito bom.

Arame farpado

O medo é aquilo que tenho
de mais parecido comigo
ninguém vai me perseguir
mais do que eu me persigo

Ninguém me machuca tanto
quanto eu mesmo consigo
ninguém me mora tão dentro
como meu próprio inimigo

Ninguém me habita tão perto
quanto este instante suspenso
presente e sempre desperto

Medo até de compreender
de pensar tudo o que penso
de não dizer o que digo
do que pode acontecer
do que fizeram contigo

O medo ficou o sentimento
que marcou todo esse tempo
ficou sendo aquilo
que temos de parecido
nos cobriu como uma pele
nos arrancou o sentido

Bruna Lombardi

Livro Gaia pág. 70 e 71
Editora Codecri 1980

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Cortes

26 de agosto de 2010 1

Raymond Carver (1938-88), escritor e poeta americano, publicou, entre outros livros, a coletânea de contos que, aqui no Brasil, recebeu o nome de “Iniciantes” ( trad. Rubens Figueiredo, Companhia das Letras). Em inglês, chama-se “What we talk about when we talk about Love”
O interessante é que a versão inglesa tem 70% menos palavras e expressões do que a brasileira.
Isso mesmo: 70%. Acho que até mais.
Tenho a versão em inglês e um amigo me mostrou a outra, em português.
Ele teve o trabalho de assinalar nela todas as frases que não estão na edição americana.
O que aconteceu? Carver levou o texto ao editor e este eliminou a maior parte, enxugou as frases e disse que, se não fosse assim, não publicava. Essa atitude não é tão rara. Pound, como amigo, fez o mesmo com os poemas de Elliot.
Na versão brasileira ( que não é tão boa) Carver publicou da forma como havia escrito de início, o jeito original. Acho que nunca “engoliu” muito bem os cortes. O equilíbrio entre confiança no que se escreveu e humildade para aceitar opiniões divergentes não é fácil.
Esse poema é de Carver. Ilustrissima, Folha de São Paulo, tradução de Cide Piquet.

MEDO

Medo de ver a polícia estacionar à minha porta.
Medo de dormir à noite.
Medo de não dormir.
Medo de que o passado desperte.
Medo de que o presente alce voo.
Medo do telefone que toca no silêncio da noite.
Medo de tempestades elétricas.
Medo da faxineira que tem uma pinta no queixo!
Medo de cães que supostamente não mordem.
Medo da ansiedade!
Medo de ter que identificar o corpo de um amigo morto.
Medo de ficar sem dinheiro.
Medo de ter demais, mesmo que ninguém vá acreditar nisso.
Medo de perfis psicológicos.
Medo de me atrasar e medo de ser o primeiro a chegar.
Medo de ver a letra dos meus filhos em envelopes.
Medo de que eles morram antes de mim, e que eu me sinta culpado.
Medo de ter que morar com a minha mãe em sua velhice, e na minha.
Medo da confusão.
Medo de que este dia termine com uma nota infeliz.
Medo de acordar e ver que você partiu.
Medo de não amar e medo de não amar o bastante.
Medo de que o que amo se prove letal para aqueles que amo.
Medo da morte.
Medo de viver demais.
Medo da morte.

Já disse isso.

Raymond Carver

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Noche de la nostalgia

24 de agosto de 2010 2

Hoje, aqui no Uruguai, véspera de feriado e Noche de La Nostalgia. Depois do réveillon, a noite da nostalgia é o evento que mais movimenta os clubes e as casas noturnas por aqui. Ainda se diz casas noturnas? Bom, sendo noite da nostalgia, acho que sim.
A decoração inclui posters do John Travolta ( Saturday night fever) e antigas vitrolas.
Nesse clima de passado, além de escrever, estou aproveitando para rever filmes do Hitchcock: Um corpo que cai com Kim Novak e O homem que sabia demais com Doris Day (esse é o que tem a música Que será, será… lembram?) Ambos com John Stewart.
São filmes de um tempo de saias rodadas, anáguas, terno e gravata, cinturinhas finas. O suspense, e bom suspense, acontece apenas através da narração e da música, sem nenhum efeito especial.
Em O homem que sabia demais, só um tiro é dado e o mistério se resolve de forma discreta, enquanto os amigos da protagonista tomam drinques. Muitos drinques.
Numa época em que até filme sobre sonhos inclui tiro e correria ( estou falando em Origem, o filme é bom, não precisava tanta correria) o exemplo de Hitchcock bem que podia ser mais lembrado.

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Unanimidades

22 de agosto de 2010 2

Nós, gaúchos, já nos acusamos (e fomos acusados) de sermos caranguejos num balde: sempre tentando puxar o que está conseguindo subir mais alto. Não sei se é “mérito” só nosso, dos gaúchos, ou se é uma atitude geral e humana, baseada na inveja só sei que, infelizmente, isso é, muitas vezes, verdade.
No Rio Grande do Sul, do ponto de vista literário, talvez por estarem ambos mortos, só conheço duas unanimidades: Érico Veríssimo e Caio Fernando Abreu.
Nem Mario Quintana, que tem homenagem em forma de Casa de Cultura, é unânime. Muitos dos que o conheceram pessoalmente, embora admirem sua obra, o achavam chato.
Já com Érico e Caio, isso não acontece. Quando se fala em algum deles, sempre tem alguém para dizer, com o maior orgulho, que participou das famosas tardes na casa do Érico ou que se correspondeu com Caio.
O engraçado é que nossas duas unanimidades, os dois caranguejos que não puxamos para baixo, não podiam ser mais diferentes um do outro. Caio era louco, dizem, mas um “louco beleza”.
Meu pai foi amigo do Érico. Eu era muito jovem ( ou muito ignorante) para participar dos encontros com Érico. Também não conheci o Caio pessoalmente. Se nos tivéssemos encontrado antes, ele nem ligaria para mim. Estávamos cursando caminhos muito diferentes.
Hoje, gosto de pensar que talvez me achasse uma avó interessante, com quem valesse a pena trocar algumas palavras.
Como dizia meu pai: pretensão e água benta, cada um toma o que quer.
O homem e a mancha, uma de suas últimas peças, eu assisti na interpretação do Marcelo Adams (que fez recentemente Leonardo da peça do Lorca dirigida pelo Alabarse). É um papel (ou papéis, pois o mesmo ator faz 4 personagens diferentes) que exige muito do ator. Foi uma noite inesquecível.
Já disse aqui que sou viciada em beleza. Pois a beleza áspera, triste e morena da obra de Caio me satisfaz plenamente.

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TED

20 de agosto de 2010 3

TED é a sigla para Technology Entertainment and Design, uma série de conferencias patrocinadas por uma entidade sem fins lucrativos e cuja finalidade é espalhar no mundo novas e boas idéias. Pensadores, artistas ( Bono Vox, entre eles), escritores são desafiados a darem a melhor conferencia de suas vidas em 18 minutos. Uma prima mandou a de Chimamanda Adichie, uma escritora nigeriana ( Hibisco Roxo e Meio Sol Amarelo, esse último sobre a Biafra) que já andou pela nossa FLIP, se não estou enganada, há um ano ou dois. Além de ter gostado do tema ( Os perigos da história única) me identifiquei com ela porque, pelas mesmas razões (influencia dos autores ingleses, no meu caso, Dickens)em meus primeiros escritos ( eu devia ter uns 8 anos e morava em São Borja) a neve sempre “gemia baixinho” sob os sapatos dos meus personagens. Vejam que delícia de conferencia.

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Poema em linha reta

19 de agosto de 2010 2

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Fernando Pessoa como Álvaro de Campos

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Sargento Getúlio

13 de agosto de 2010 2

Tinha lido Sargento Getúlio no tempo de colégio. Porque, naquela época, eu não sabia o quanto é difícil inventar gente, não dei o devido valor. Reli agora e estou encantada com o dom do João Ubaldo em criar ou colocar no papel( o caso é verídico) um sargento, quase um jagunço, tentando sobreviver e manter-se dentro de uma ética toda particular no interior de Sergipe, espaço dominado pelo coronelismo.
Escolhi essa passagem porque já comentei aqui o quanto é difícil descrever uma relação sexual. Está perfeita esta descrição: sensual, poética, com humor e adequada ao personagem.

Os olhos me perturba, isso é verdade,porque é uns olhos lustrosos e grandes e uns olhos muito devagar, que me olha fundo. Ou me passeia em cima, quase engordurando, dá pra sentir. Na hora mesmo não porque na hora dá vontade de lascar, assim estufando por dentro e eu espio entrar e quanto mais entra mais eu tenho vontade que entre e tenho vontade de abrir mais e levanto a cara e espio outra vez entrando e vou alisando e repuxando e dou umas mordidas, ai meu Deus, tenho vontade de dar umas porradas e perguntando a ela você quer umas porradas minha filha e ela dizendo bata nela, bata nela que ela é sua. Me mate, ela dizendo. Ai meu bom Jesus, vuct-vuct. Cafute-cafute. Hum.

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Summum ius; summa iniuria

08 de agosto de 2010 2

Revoltada, como todos, pela “punição” recebida por dois juizes(aposentadoria compulsória com vencimentos de R$ 25.000,00 mensais) lembrei de uma frase herdada dos romanos e aprendida na faculdade: Summum ius, summa iniuria; summa lex, summa crux. Justiça extrema, extrema injustiça; lei extrema, grande sofrimento.Trocando em miúdos, como diria meu pai: quanto mais se aplica a lei exatamente como escrita, de forma inflexível, sem atentar para a realidade, mais se tem a injustiça. Foi o que ocorreu.
Felizmente, dentro dessa mesma máxima, uma parte do nosso judiciário procura aplicar melhor a justiça utilizando-se não da inflexibilidade mas do seu inverso. Essa posição merece ser aplaudida desde que, pelo bom senso, seja preservada a segurança jurídica.
Assim foi, por exemplo, quando, mesmo antes do reconhecimento legal da união estável, os companheiros não casados passaram a ter direitos sobre o patrimonio em comum.
A saída encontrada pelos juízes numa época em que “viver junto” mesmo por muitos anos não criava nenhum direito, foi a de tratar esses casais como uma empresa, ou seja aplicar a eles as leis referentes a sociedades comerciais cuja definição ( duas ou mais pessoas que se unem com um objetivo comum) podia, com facilidade, agasalhar a situção de duas pessoas vivendo juntas e juntas criando um patrimonio comum. A cada um deles, coube, como se sócios igualitários fossem,a sua parte. Assim, pouco a pouco, vêm sendo reconhecidos os direitos de casais gays e, recentemente, a mesma estratégia foi usada para punir a exploração sexual de adolescentes.
Sabendo que o processo criminal seria demorado e, em razão do poder economico dos acusados, de resultado pouco confiável, a justiça utilizou-se das leis trabalhistas para condenar 11 “senhores” a pagar multas por exploração de trabalho infantil a meninas com idade que de 12 a 14 anos.
É o ideal? Longe disso, mas, com certeza, merece aplauso quando, reconhecendo a própria fragilidade, o judiciário preocupa-se não com a aplicação inflexível da lei mas com a justiça.

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Book

04 de agosto de 2010 3

Minha filha mandou e eu achei ótimo. Do jeito que as coisas vão, talvez seja muito útil para a minha neta. As coisas se perdem e precisam ser redescobertas.

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