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Posts de setembro 2010

Bienal e política

25 de setembro de 2010 2

Com a fogueira de gelo de Paulo Bruscky, que irá arder silenciosa até se derreter totalmente, iniciou hoje, aqui em São Paulo, a 29a Bienal.
Nuvens, metafóricas e não, cobrem São Paulo e sua Bienal,
O nome escolhido é poético: Há sempre um copo de mar para um homem viajar.
O tema proposto – fazer o homem refletir sobre arte e política – além de menos poético, me parece perigoso.
Não confundam perigoso com medroso. Igual ao homem, toda a obra de arte é política mas esse tema pode facilmente reduzir a arte a um momento específico, a um discurso datado.
Dou um exemplo. Logo de saída, um confronto. O artista argentino Roberto Jacoby montou no seu espaço uma espécie de oficina onde pessoas produziam propaganda da candidata Dilma Roussef. A obra foi enquadrada na legislação eleitoral que proíbe propaganda política em prédio públicos e/ou em eventos patrocinados pelo Estado.
O mais estranho ( e que está sendo mais criticado) é que a denúncia ou “consulta” ao Tribunal Eleitoral de São Paulo partiu dos próprios curadores.
Ou seja, ao invés de defenderem até o fim a liberdade do artista, os responsáveis pela Bienal de São Paulo o colocaram na fogueira de gelo sobre a qual falei no início.
Não sou eleitora da Dilma ( aliás, esse ano estou meio perdida), acho também que não gostaria da obra, mas sou da opinião de que quem sai na chuva é para se molhar. Bienal é espaço de liberdade. A alegação dos curadores de que podiam ser presos não explica sua atitude. Como curadores cabia a eles defenderem a liberdade de expressão, custasse o que custasse.
Falar sobre política na arte pode ser, como eu disse, redutor. Notem bem, pode, nem sempre é. A obra de Cildo Meireles, um cilindro gigantesco movido por homens revelando e escondendo as engrenagens do poder, me parece abordar o tema proposto de uma forma bem universal, não redutora.
Ainda no tema – curadores – uma publicação paulista ( um mapa do circuito de artes) lança uma campanha – Procura-se um curador estrangeiro – e incita a Fundação Bienal a acabar com o provicianismo e contratar um curador de prestígio internacional. Cita como exemplo dessa atitude a Bienal de Veneza.
Eu me pergunto por que ir tão longe? Por que não citar a Bienal do Mercosul logo ali, em Porto Alegre?
Será que somos provincianos demais para servirmos de exemplo?
Não, não reparem, é meu lado CTG. Longe dos pagos, me inflamo.

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Destino de lua

23 de setembro de 2010 2

Tenho em mim um boêmio de bigodinho e chapéu panamá. Coitado, vive mal porque nunca frequentei botequins, durmo às 22 e acordo às 6.30, bem na hora em que ele gostaria de estar indo dormir. Mas ele se vinga. É forte. Há dias em que acordo com uma música na cabeça. Sei que é ele cantando e me deixo levar. Hoje foi um desses dias.

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Elegia na morte de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, poeta e cidadão

20 de setembro de 2010 1

O mesmo dentista que me ensinou que aquele poema não era de Maiakósvski não conhecia esse, do Vinícius. É um pouco grande para blog. Mas é tão bonito que não resisti.
O poeta recebe a notícia da morte do pai. Consigo vê-lo, durante a madrugada, fazendo as pazes com ela.
***

A morte chegou pelo interurbano em longas espirais metálicas.
Era de madrugada. Ouvi a voz de minha mãe, viúva.
De repente não tinha pai.
No escuro de minha casa em Los Angeles procurei recompor tua lembrança
Depois de tanta ausência. Fragmentos da infância
Boiaram do mar de minhas lágrimas. Vi-me eu menino
Correndo ao teu encontro. Na ilha noturna
Tinham-se apenas acendido os lampiões a gás, e a clarineta
De Augusto geralmente procrastinava a tarde.
Era belo esperar-te, cidadão. O bondinho
Rangia nos trilhos a muitas praias de distância
Dizíamos: “E-vem meu pai!” Quando a curva
Se acendia de luzes semoventes, ah, corríamos
Corríamos ao teu encontro. A grande coisa era chegar antes
Mas ser marraio em teus braços, sentir por último
Os doces espinhos da tua barba.
Trazias de então uma expressão indizível de fidelidade e paciência
Teu rosto tinha os sulcos fundamentais da doçura
De quem se deixou ser. Teus ombros possantes
Se curvavam como ao peso da enorme poesia
Que não realizaste. O barbante cortava teus dedos
Pesados de mil embrulhos: carne, pão, utensílios
Para o cotidiano (e freqüentemente o binóculo
Que vivias comprando e com que te deixavas horas inteiras
Mirando o mar). Dize-me, meu pai
Que viste tantos anos através do teu óculo-de-alcance
Que nunca revelaste a ninguém?
Vencias o percurso entre a amendoeira e a casa como o atleta exausto no último lance da maratona.
Te grimpávamos. Eras penca de filho. Jamais
Uma palavra dura, um rosnar paterno. Entravas a casa humilde
A um gesto do mar. A noite se fechava
Sobre o grupo familial como uma grande porta espessa.

*

Muitas vezes te vi desejar. Desejavas. Deixavas-te olhando o mar
Com mirada de argonauta. Teus pequenos olhos feios
Buscavam ilhas, outras ilhas… – as imaculadas, inacessíveis
Ilhas do Tesouro. Querias. Querias um dia aportar
E trazer – depositar aos pés da amada as jóias fulgurantes
Do teu amor. Sim, foste descobridor, e entre eles
Dos mais provectos. Muitas vezes te vi, comandante
Comandar, batido de ventos, perdido na fosforescência
De vastos e noturnos oceanos
Sem jamais.

Deste-nos pobreza e amor. A mim me deste
A suprema pobreza: o dom da poesia, e a capacidade de amar
Em silêncio. Foste um pobre. Mendigavas nosso amor
Em silêncio. Foste um no lado esquerdo. Mas
Teu amor inventou. Financiaste uma lancha
Movida a água: foi reta para o fundo. Partiste um dia
Para um brasil além, garimpeiro, sem medo e sem mácula.
Doze luas voltaste. Tua primogênita – diz-se –
Não te reconheceu. Trazias grandes barbas e pequenas águas-marinhas.
Não eram, meu pai. A mim me deste
Águas-marinhas grandes, povoadas de estrelas, ouriços
E guaiamus gigantes. A mim me deste águas-marinhas
Onde cada concha carregava uma pérola. As águas-marinhas que me deste
Foram meu primeiro leito nupcial.

*

Eras, meu pai morto
Um grande Clodoaldo
Capaz de sonhar
Melhor e mais alto
Precursor do binômio
Que reverteria
Ao nome original
Semente do sêmen
Revolucionário
Gentil-homem insigne
Poeta e funcionário
Sempre preterido
Nunca titular
Neto de Alexandre
Filho de Maria
Cônjuge de Lydia
Pai da Poesia.

*

Diante de ti homem não sou, não quero ser. És pai do menino que eu fui.
Entre minha barba viva e a tua morta, todavia crescendo
Há um toque irrealizado. No entanto, meu pai
Quantas vezes ao ver-te dormir na cadeira de balanço de muitas salas
De muitas casas de muitas ruas
Não te beijei em meu pensamento! Já então teu sono
Prenunciava o morto que és, e minha angústia
Buscava ressuscitar-te. Ressuscitavas. Teu olhar
Vinha de longe, das cavernas imensas do teu amor, aflito
Como a querer defender. Vias-me e sossegavas.
Pouco nos dizíamos: “Como vai?”. Como vais, meu pobre pai
No teu túmulo? Dormes, ou te deixas
A contemplar acima – eu bem me lembro! – perdido
Na decifração de como ser?
Ah, dor! Como quisera
Ser de novo criança em teus braços e ficar admirando tuas mãos!
Como quisera escutar-te de novo cantar criando em mim
A atonia do passado! Quantas baladas, meu pai
E que lindas! Quem te ensinou as doces cantigas
Com que embalavas meu dormir? Voga sempre o leve batel
A resvalar macio pelas correntezas do rio da paixão?
Prosseguem as donzelas em êxtase na noite à espera da barquinha
Que busca o seu adeus? E continua a rosa a dizer à brisa
Que já não mais precisa os beijos seus?
Calaste-te, meu pai. No teu ergástulo
A voz não é – a voz com que me apresentavas aos teus amigos:
“Esse é meu filho FULANO DE TAL”. E na maneira
De dizê-lo – o vôo, o beijo, a bênção, a barba
Dura rocejando a pele, ai!

*

Tua morte, como todas, foi simples.
É coisa simples a morte. Dói, depois sossega. Quando sossegou –
Lembro-me que a manhã raiava em minha casa – já te havia eu
Recuperado totalmente: tal como te encontras agora, vestido de mim.
Não és, como não serás nunca para mim
Um cadáver sob um lençol.
És para mim aquele de quem muitos diziam: “É um poeta…”
Poeta foste, e és, meu pai. A mim me deste
O primeiro verso à namorada. Furtei-o
De entre teus papéis: quem sabe onde andará… Fui também
Verso teu: lembro ainda hoje o soneto que escreveste celebrando-me
No ventre materno. E depois, muitas vezes
Vi-te na rua, sem que me notasses, transeunte
Com um ar sempre mais ansioso do que a vida. Levava-te a ambição
De descobrir algo precioso que nos dar.
Por tudo o que não nos deste
Obrigado, meu pai.
Não te direi adeus, de vez que acordaste em mim
Com uma exatidão nunca sonhada. Em mim geraste
O Tempo: aí tens meu filho, e a certeza
De que, ainda obscura, a minha morte dá-lhe vida
Em prosseguimento à tua; aí tens meu filho
E a certeza de que lutarei por ele. Quando o viste a última vez
Era um menininho de três anos. Hoje cresceu
Em membros, palavras e dentes. Diz de ti, bilíngüe:
“Vovô was always teasing me…”
É meu filho, teu neto. Deste-lhe, em tua digna humildade
Um caminho: o meu caminho. Marcha ela na vanguarda do futuro
Para um mundo em paz: o teu mundo – o único em que soubeste viver;
aquele que, entre lágrimas, cantos e martírios, realizaste à tua volta.

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Só sei que nada sei

19 de setembro de 2010 1

Semelhante a Sócrates ( era Sócrates? agora já estou em dúvida) só sei que nada sei.
Esta semana dei duas rateadas feias.
A primeira foi no dentista.
Sentada à cadeira, boca aberta ( nos dois sentidos) li esse poema ( do qual, aliás, gosto muito) num pequeno quadro perto da porta.

No caminho com Maiakóvski

“[...]

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

[...]”

Abaixo dele, o nome do autor: Eduardo Alves da Costa.
Pensei, vou avisar ao doutor que o nome do poeta está errado, esse poema é de Maiakóvski.
Errada, como muitos de vocês, com certeza, já perceberam estava eu.
Esse poema é mesmo de Eduardo Alves da Costa.
Juro que sempre pensei que era do Maiakóvski.
A segunda rateada da semana aconteceu quando fui assistir à peça O Idiota, baseada no livro de Dostoiévski.
A peça iniciava às 18 horas.
Pensei comigo: ótimo, dá para ir ao teatro e jantar.
Quase meia noite e eu estava ainda no teatro.
A peça tem cinco horas e meia de duração!
Definitivamente, só sei que nada sei.
O que, convenhamos, já é alguma coisa.
Ainda bem.

PS – desculpem ter ficado ausente alguns dias ( tomara que alguém tenha percebido)

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Los versos del Capitan

13 de setembro de 2010 0

Continuo achando que certas coisas ficam melhor em espanhol.

y como
llevo
las manos llenas de tu ser desnudo
mírame
mírame
mírame por el mar, que voy radiante
mírame por la noche que navego

y quando la soledad quiera que cambies
la sortija en que está mi nombre escrito
dile a la soldedad que hable conmigo
….. PABLO NERUDA

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Porto Alegre em Cena

10 de setembro de 2010 0

Porto Alegre está, mais uma vez, em festa.
É a 17a. edição do Porto Alegre em Cena.
Cheguei ontem e ontem mesmo comecei a assistir aos espetáculos.
Amigos haviam providenciado nos ingressos mas, e essa é uma dica importante, mesmo que o site do evento diga – esgotado – tentem. Sempre sobra uma “cortesia” não utilizada, alguém que não conseguiu comparecer. Cheguem uma hora antes e tentem.
Ontem, fui assistir à versão de Roberto Cordovani e Eisenhover Moreno ( dois brasilereiros residentes na Espanha) do clássico Dr. Jekyll e Mr. Hyde.
Como vocês sabem, a peça é uma alegoria, uma representação da dualidade bem/mal.
O bem, que exibimos, o mal, que escondemos ( hide).
A sinopse do espetáculo, com uma uma hora e vinte minutos de duração, prometia um sofisticado sistema de efeitos especiais – 36 inserções musicais, 320 mudanças de luz, 14 cenas em vídeo entre muitos outros etceteras.
Antes de esgotar-se o “tempo regulamentar”as luzes acenderam-se e um dos atores fez uma declaração. Sinto muito, ele disse, o espetáculo termina aqui. Tentamos levá-lo até ao final, em respeito a vocês, nosso público, conseguimos dizer todas as falas, mas aos 50 minutos nossos computadores elouqueceram e não foi possível prosseguir como queríamos.
Foi muito aplaudido. Valeu o esforço.
Havia no ar um clima de frustração. Clima errado, na minha opinião.
O corrido enriqueceu o espetáculo.
Como em Hamlet, um teatro dentro do teatro, como em Don Quixote, um livro dentro de um livro, as máquinas criaram, no palco, uma outra dualidade.
Se hoje, muitos anos depois da época vitoriana, precisamos conviver não apenas com o mal mas com a tecnologia, a máquina, o computador, ao falhar, estava nos dizendo o mesmo que dizia Mr. Hyde: eu existo, por mais que tentem, vocês jamais me dominarão completamente.
Ontem, “revoltando-se”, a máquina demonstrou o seu poder.

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Papéis inesperados

07 de setembro de 2010 5

Este é o título do último livro publicado de Cortázar.
Como se sabe, ao morrer, ele deixou um armário repleto de textos inéditos que renderam muitos livros póstumos (Divertimento, La otra orilla, Imagen de John Keats, entre outros).
Mais recentemente, em 2006, surgiram o que sua esposa chamou de “unos papelitos”.
São manuscritos – poemas, anotações, contos inéditos – que abarrotavam uma arca. Alguns deles, antigos de 50 anos. Esses manuscritos foram selecionados e editados formando Papéis Inesperados, um livro de quase quinhentas páginas (!!).
Muitos dos textos são versões diversas de outros, já editados. Alguns, anotações para a elaboração de um conto ou de um capítulo. Outros, poemas inéditos.
Publicar “raspas de tacho”, textos que o escritor escolheu não publicar, sempre é arriscado: podem não ter a mesma qualidade.
Escritos de Cortázar, porém, sempre serão escritos de Cortázar e, além do mais, de inegável valor para se entender como o escritor caminhou pela literatura até chegar a ser quem foi.
O poema abaixo foi escrito em 1950 durante a primeira viagem de Cortázar à Europa.
A tradução é minha, sem pretensão de ser boa, serve apenas de apoio.

Los días van

Los días van como las olas e los cantos,
su rubio viento y sus profundos verdes por las horas cambiantes.
En uno de ellos queda una bahía, en otro
un pánico de estrellas o delfines,
mientras un tiempo nuevo y sigiloso
con noches de distinto meridiano
filtra sus cuerdas pálidas por los compartimentos
y se mezcla en el vino que bebemos.
Un viaje, oh dulce pena en la raíz del cuerpo
que juega con sí mismo a ser igual, constante,
y a despertar distinto cada día, bajo cielos novísimos.

Os dias vão

Os dias vão como as ondas e os cantos
seu rubro vento e seus profundos verdes pelas horas mutáveis.
Em um deles fica uma baía, em outro
um pânico de estrelas ou delfins
enquanto um tempo novo e sigiloso
com noites de diferente meridiano
filtra suas cordas pálidas pelos compartimentos
e mistura-se ao vinho que bebemos,
Uma viagem, oh doce dor na raiz do corpo
que joga consigo mesmo de ser igual, constante
e a despertar diferente cada dia, sob céus novíssimos,

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Elogio da sombra

04 de setembro de 2010 7

A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo de nossa felicidade.
O animal morreu ou quase morreu.
Restam o homem e sua alma.
Vivo entre formas luminosas e vagas
que não são ainda a escuridão.
Buenos Aires,
que antes se espalhava em subúrbios
em direção à planície incessante,
voltou a ser La Recoleta, o Retiro,
as imprecisas ruas do Once
e as precárias casas velhas
que ainda chamamos o Sul.
Sempre em minha vida foram demasiadas as coisas;
Demócrito de Abdera arrancou os próprios olhos para pensar;
o tempo foi meu Demócrito.
Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e se parece à eternidade.
Meus amigos não têm rosto,
as mulheres são aquilo que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.
Tudo isso deveria atemorizar-me,
mas é um deleite, um retorno.
Das gerações dos textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que continuo lendo na memória,
lendo e transformando.
Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os atos dos mortos,
o compartilhado amor, as palavras,
Emerson e a neve e tantas coisas.
Agora posso esquecê-las. Chego a meu centro,
a minha álgebra e minha chave,
a meu espelho.
Breve saberei quem sou.

Jorge Luis Borges

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Sonetos

01 de setembro de 2010 4

Há algum tempo, o Jorge Furtado teve a gentileza de me convidar para traduzir um soneto de Shakespeare. Achei que a coisa ia dar em nada. Que não ia sair o livro. Pois está saindo. Pela editora Objetiva. Lá estou eu, na ilustre companhia de Lázaro Ramos e Fernanda Torres, entre outros. O livro chama-se Shakespeare, faça você mesmo e pretende incentivar a fazer ou, pelo menos, divulgar a arte dos sonetos. Numa apresentação muito legal e engraçada, o Jorge incluiu esse Para Fazer um Soneto, de Carlos Pena Filho. Comprem o livro, façam sonetos.

Para Fazer um Soneto

Tome um pouco de azul, se a tarde é clara,
E espere pelo instante ocasional.
Nesse curto intervalo Deus prepara
E lhe oferta a palavra inicial

Aí, adote uma atitude avara:
Se você preferir a cor local,
Não use mais que o sol de sua cara
E um pedaço de fundo de quintal.

Se não, procure a cinza e essa vagueza
Das lembranças da infância, e não se apresse,
Antes, deixe levá-lo a correnteza.

Mas ao chegar ao ponto que se tece
Dentro da escuridão a vã certeza,
Ponha tudo de lado e então comece.

Carlos PENA FILHO
Livro Geral.

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