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Anonymus

09 de dezembro de 2010 2

Natal é época de presentes e amigos secretos. O amigo que trago aqui hoje não é secreto mas é

Anonymus, o que dá quase no mesmo embora seja muito diferente. Eu não dei a ele nenhum

presente, foi ele quem me deu, o que também dá quase no mesmo embora seja muito diferente.

Esclarecendo: no último caderno de gastronomia da Zero Hora, que li por puro acaso  pois

jamais chega a mim, surrupiado que é por minha cozinheira, o meu amigo Anonymus Gourmet 

cita a crônica Acorrentados, de Paulo Mendes Campos (Anjo Bêbado, edição de 1969, Editora

Sabiá). Olhem que coisa mais linda.


“Quem coleciona selos para o filho do amigo; quem acorda de madrugada e estremece no

desgosto de si mesmo ao lembrar que há muitos anos feriu a quem amava; quem chora no cinema

ao ver o reencontro de pai e filho; quem segura sem temor uma lagartixa e lhe faz com os dedos

uma carícia; quem se detém no caminho para ver melhor a flor silvestre; quem se ri das próprias

rugas; quem decide aplicar-se ao estudo de uma língua morta depois de um fracasso sentimental;

quem procura na cidade os traços da cidade que passou; quem se deixa tocar pelo símbolo da

porta fechada; quem costura roupa para os lázaros; quem envia bonecas às filhas dos lázaros;

quem diz a uma visita pouco familiar: Meu pai só gostava desta cadeira; quem manda livros aos

presidiários; quem se comove ao ver passar de cabeça branca aquele ou aquela, mestre ou

mestra, que foi a fera do colégio; quem escolhe na venda verdura fresca para o canário; quem se

lembra todos os dias do amigo morto; quem jamais negligencia os ritos da amizade; quem

guarda, se lhe deram de presente, o isqueiro que não mais funciona; quem, não tendo o hábito de

beber, liga o telefone internacional no segundo uísque a fim de conversar com amigo ou amiga;

quem coleciona pedras, garrafas e galhos ressequidos; quem passa mais de 10 minutos a fazer

mágicas para as crianças; quem guarda as cartas do noivado com uma fita; quem sabe construir

uma boa fogueira; quem entra em delicado transe diante dos velhos troncos, dos musgos e dos

líquens; quem procura decifrar no desenho da madeira o hieroglífo da existência; quem não se

acanha de achar o por do sol uma perfeição; quem se desata em sorriso à visão de uma cascata;

quem leva a sério os transatlânticos que passam; quem visita sozinho os lugares onde já foi feliz

ou infeliz; quem de repente liberta os pássaros do viveiro; quem sente pena da pessoa amada e

não sabe explicar o motivo; quem julga adivinhar o pensamento do cavalo; todos eles são

presidiários da ternura e andarão por toda a parte acorrentados, atados aos pequenos amores da

armadilha terrestre”.


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Comentários (2)

  • edmundo diz: 18 de dezembro de 2010

    Oi Dida
    Obrigado por me relembrar desta cronica
    Li logo que cheguei em casa depois do encontro, que aliás foi ótimo em todos os sentidos…
    Biobeijos
    Edi

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