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Poema em linha reta

12 de dezembro de 2010 4

Nesta época de final de ano, quando todos temos a obrigação de sermos limpinhos e felizes, esse poema do Fernando Pessoa ( como Álvaro de Campos) vem a calhar, coloca as coisas em perspectiva, nos desobriga.

POEMA EM LINHA RETA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

                                                                                Álvaro de Campos
 

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Comentários (4)

  • Larissa de Oliveira diz: 13 de dezembro de 2010

    teste de comentário

  • George Sand diz: 19 de janeiro de 2011

    Finalmente!
    Depois de até mandar e-mail para esse RBS, consigo aceder à sua caixa de comentários, sem essa enorme e impossivel complicação de cadastro aqui e ali.
    Fica o meu novo espaço, que espero possa agradar-lhe.

    http://chezgeorgesand.blogspot.com/

    Hoje assino como sempre assinei no seu blogue, para se situar :)

    george Sand

    Filipa Vera jardim

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