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O último dia do ano

30 de dezembro de 2010 1

O último dia do ano sempre me angustia. Eu não deveria escrever isso. Não é o que as pessoas querem ler. Lembrando Fernando Pessoa: todos querem ser príncipes; ou, como diziam aqueles álbuns de recordações que eram moda no meu tempo de colégio: ri, que o mundo rirá contigo; chora, que o mundo rirá de ti.  Sábias palavras, ninguém quer saber de tristeza.

Azar, agora eu já disse, ou melhor, escrevi. Essa obrigação de ser feliz dá nos nervos de qualquer um.

Por que fico angustiada? Sei lá. Pensando bem, é só uma convenção: amanhã será o último dia porque se “combinou” que o ano teria 365 dias. Não vou ficar um ano mais velha porque amanhã é 31 de dezembro. Vou ficar um dia mais velha. Tirando o prejuízo dos cheques, que a gente tem que escrever de novo porque sempre erra a data, o dia 1º de janeiro de 2011 é só um dia a mais. É, mas não adianta racionalizar, no último dia do ano todos nós pensamos em tempo: a sua rapidez, nossas escolhas, o que fizemos dele. Nessas horas, o poema que me vem à mente  é o Burnt Norton, de T. S. Eliot. Ele começa assim:

O tempo presente e o tempo passado

Estão ambos presentes no tempo futuro

E o tempo futuro contido no tempo passado.

Se todo tempo é eternamente presente

Todo tempo é irredimível.

Sobre as muitas opções que tivemos e do que deixamos para trás ao escolher uma delas, sobre o grande SE — se eu tivesse escolhido X ao invés de Y talvez hoje eu seria … teria…. estaria — Eliot diz:

O que poderia ter sido é uma abstração

Que permanece, perpétua possibilidade

Num mundo apenas de especulação.

O que poderia ter sido e o que foi

Convergem para um só fim, que é sempre presente.

E aí vem a parte mais bonita do poema

Ecoam passos na memória

Ao longo das galerias que não percorremos

Em direção á porta que jamais abrimos

Para o roseiral. Assim ecoam minha palavras

Em tua lembrança

                                   Mas com que fim

Perturbam elas a poeira sobre uma taça de pétalas.

Não sei.

                                   Outros ecos

Se aninham no jardim. Seguiremos?

Depressa, disse o pássaro, procura-os, procura-os

Na curva do caminho. Pela primeira porta,

Aberta ao nosso mundo primeiro, aceitaremos

A trapaça do tordo?

…..

Vai, disse o pássaro, porque as folhas estão cheias de crianças,

Maliciosamente escondidas, a reprimir o riso.

Vai, vai, vai, disse o pássaro: o gênero humano

Não pode suportar tanta realidade.

Não coloquei o poema inteiro, apenas pedaços, não queria que vocês ficassem com preguiça de ler. Esse poema, mesmo assim, aos pedaços, alivia a minha angústia. Alivia como? Por me dizer que o único tempo possível é o presente e portanto é nele, sem esquecer passado e futuro, que eu preciso viver. Por me ensinar que viver o presente é estar aqui mas é também ir além, para lá do que envelhece e morre porque, não apenas eu, o gênero humano não pode suportar tanta realidade.

Ser consciente é estar fora do tempo

Mas somente no tempo é que o momento no roseiral

O momento sob o caramanchão batido pela chuva,

O momento na igreja cruzada pelos ventos ao cair da bruma

Podem ser lembrados, envoltos em passado e futuro.

Somente através do tempo é o tempo conquistado.


Feliz 2011 (presente, passado e futuro) para todos.

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Comentários (1)

  • Angela Warlet diz: 30 de dezembro de 2010

    Há assim uma memória involuntária que é
    total e simultânea. Para recuperar o que ela dá,
    basta ter passado, sentido a vida; basta ter,
    padecido no tempo.
    Lendo teu post, lembrei de um trecho do poema Ano Novo de Ferreira Gullar:

    Meia noite. Fim
    de um ano, início
    de outro. Olho o céu:
    nenhum indício.

    Nada ali indica
    que um ano novo começa.

    E não começa
    nem no céu nem no chão
    do planeta:
    começa no coração.

    Feliz 2011!!!

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