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Posts de dezembro 2010

Em 2011 ...

31 de dezembro de 2010 3

Cada vez me convenço mais de que é o principal, todo o demais é sublimação necessária. Ele não anda por aí, solto, ao alcance da mão. É difícil de conseguir mais difícil ainda de conservar. Não importa. Sonhar é sempre possível e, mais que possível, imprescindível. Por isso, em 2011…

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O último dia do ano

30 de dezembro de 2010 1

O último dia do ano sempre me angustia. Eu não deveria escrever isso. Não é o que as pessoas querem ler. Lembrando Fernando Pessoa: todos querem ser príncipes; ou, como diziam aqueles álbuns de recordações que eram moda no meu tempo de colégio: ri, que o mundo rirá contigo; chora, que o mundo rirá de ti.  Sábias palavras, ninguém quer saber de tristeza.

Azar, agora eu já disse, ou melhor, escrevi. Essa obrigação de ser feliz dá nos nervos de qualquer um.

Por que fico angustiada? Sei lá. Pensando bem, é só uma convenção: amanhã será o último dia porque se “combinou” que o ano teria 365 dias. Não vou ficar um ano mais velha porque amanhã é 31 de dezembro. Vou ficar um dia mais velha. Tirando o prejuízo dos cheques, que a gente tem que escrever de novo porque sempre erra a data, o dia 1º de janeiro de 2011 é só um dia a mais. É, mas não adianta racionalizar, no último dia do ano todos nós pensamos em tempo: a sua rapidez, nossas escolhas, o que fizemos dele. Nessas horas, o poema que me vem à mente  é o Burnt Norton, de T. S. Eliot. Ele começa assim:

O tempo presente e o tempo passado

Estão ambos presentes no tempo futuro

E o tempo futuro contido no tempo passado.

Se todo tempo é eternamente presente

Todo tempo é irredimível.

Sobre as muitas opções que tivemos e do que deixamos para trás ao escolher uma delas, sobre o grande SE — se eu tivesse escolhido X ao invés de Y talvez hoje eu seria … teria…. estaria — Eliot diz:

O que poderia ter sido é uma abstração

Que permanece, perpétua possibilidade

Num mundo apenas de especulação.

O que poderia ter sido e o que foi

Convergem para um só fim, que é sempre presente.

E aí vem a parte mais bonita do poema

Ecoam passos na memória

Ao longo das galerias que não percorremos

Em direção á porta que jamais abrimos

Para o roseiral. Assim ecoam minha palavras

Em tua lembrança

                                   Mas com que fim

Perturbam elas a poeira sobre uma taça de pétalas.

Não sei.

                                   Outros ecos

Se aninham no jardim. Seguiremos?

Depressa, disse o pássaro, procura-os, procura-os

Na curva do caminho. Pela primeira porta,

Aberta ao nosso mundo primeiro, aceitaremos

A trapaça do tordo?

…..

Vai, disse o pássaro, porque as folhas estão cheias de crianças,

Maliciosamente escondidas, a reprimir o riso.

Vai, vai, vai, disse o pássaro: o gênero humano

Não pode suportar tanta realidade.

Não coloquei o poema inteiro, apenas pedaços, não queria que vocês ficassem com preguiça de ler. Esse poema, mesmo assim, aos pedaços, alivia a minha angústia. Alivia como? Por me dizer que o único tempo possível é o presente e portanto é nele, sem esquecer passado e futuro, que eu preciso viver. Por me ensinar que viver o presente é estar aqui mas é também ir além, para lá do que envelhece e morre porque, não apenas eu, o gênero humano não pode suportar tanta realidade.

Ser consciente é estar fora do tempo

Mas somente no tempo é que o momento no roseiral

O momento sob o caramanchão batido pela chuva,

O momento na igreja cruzada pelos ventos ao cair da bruma

Podem ser lembrados, envoltos em passado e futuro.

Somente através do tempo é o tempo conquistado.


Feliz 2011 (presente, passado e futuro) para todos.

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Cumplicidade

23 de dezembro de 2010 0

Aqui no Uruguai, inverno e verão, cruzo na praia com um casal maduro, para lá dos setenta

anos. Altos, corpos enxutos, sem supérfluos. Carregam sempre óculos de natação e

pés-de-pato. No inverno, usam roupa de borracha. Andam de mãos dadas, conversando. Vão

absortos, os corpos molhados, falando baixinho e ao mesmo tempo, como se cada um já

soubesse antecipadamente o que o outro vai dizer e desse a resposta sem precisar ouvir a

pergunta.

Nadar todos os dias nessas águas frias até no verão não é brincadeira. Para mim seria um

sacrifício. Pois eles parecem gostar e mais, dividir o mesmo gosto.

Se me pedissem para mostrar cumplicidade — não definir, mostrar — eu mostraria esse casal. 

Cumplicidade é uma palavra de difícil definição. A maioria a confunde com submissão. Porque

não estão dispostos a abrir mão de nada, pensam que o seu cúmplice é aquele que aceita fazer

tudo o que eles querem. 

Não contesto — ceder para satisfazer o outro até pode ser uma forma de cumplicidade — mas

tenho uma tese: nenhuma submissão é eterna, mais dia, menos dia, o que sempre cedeu vai querer

“cobrar a dívida” e aí as coisas vão ficar difíceis.

De qualquer forma, como eu disse, a palavra tem muitas definições. Seja qual for essa definição,

porém, um predicado básico se mantém constante, sem ele não há cumplicidade. Esse predicado

é o gostar de estar junto.

Só serão cúmplices os que curtem a companhia um do outro, os que não veem no “estar junto”

um sacrifício. Dividindo os mesmos gostos, cedendo em tudo ou abrindo mão de algumas

coisas e recebendo outras em contrapartida, se uma pessoa não tem prazer em estar com a outra,

jamais será seu cúmplice. E como é bom ser cúmplice! 

Nestes tempos de votos e presentes, desejo a vocês que, em 2011, cada um encontre e/ou

conserve seu cúmplice, que caminhe com ele de mãos dadas, inverno e verão, conversando

baixinho, dividindo experiências e sensações.

Se conseguirem isto, a  cumplicidade, todo o demais — como diz a Bíblia — lhe será dado por

acréscimo.

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As muito bonitas que me perdoem

19 de dezembro de 2010 0

Sabem a Gisele Bündchen? Pois, diferente dela, quando o vento bate, meu cabelo não fica esvoaçante, fica descabelado, quando minha camiseta escorrega pelo ombro, não fica sexy, fica desarrumada.
É que, como diria Adélia Prado, não sou tão feia que não possa casar, mas também não sou, nem nunca fui, nenhuma beleza.
Só que (e se não houvesse este só que não haveria crônica), há momentos em que algo acontece e eu fico bonita.
Talvez seja a luz num ângulo certo ou o vento que se atenua, não sei, mas há dias em que, quando passo, o pessoal repara, assobia, quer meu telefone.
Nessas horas, depois de confirmar se não estou com algo “aparecendo”, me deixo embalar pela maravilhosa sensação de ser bonita.
Se meus quinze minutos de beleza durassem mais do que quinze minutos eu seria convencida.
Por isso, porque semelhante a Tirésias que foi, alternadamente, homem e mulher, eu conheço os dois lados, posso, com conhecimento de causa, sugerir a vocês uma resolução de ano novo: em 2011 apostem num amor feinho.
As razões? Deixo que Adélia Prado explique.

Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um para o outro.
Uma vez encontrado é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos quer os quantos haja.
Tudo o que não fala, faz. 
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca, da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial, o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão, o que ele tem é esperança:
eu quero amor feinho.
                                                                                                     (Adélia Prado, Amor feinho)

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Poema em linha reta

12 de dezembro de 2010 4

Nesta época de final de ano, quando todos temos a obrigação de sermos limpinhos e felizes, esse poema do Fernando Pessoa ( como Álvaro de Campos) vem a calhar, coloca as coisas em perspectiva, nos desobriga.

POEMA EM LINHA RETA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

                                                                                Álvaro de Campos
 

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Anonymus

09 de dezembro de 2010 2

Natal é época de presentes e amigos secretos. O amigo que trago aqui hoje não é secreto mas é

Anonymus, o que dá quase no mesmo embora seja muito diferente. Eu não dei a ele nenhum

presente, foi ele quem me deu, o que também dá quase no mesmo embora seja muito diferente.

Esclarecendo: no último caderno de gastronomia da Zero Hora, que li por puro acaso  pois

jamais chega a mim, surrupiado que é por minha cozinheira, o meu amigo Anonymus Gourmet 

cita a crônica Acorrentados, de Paulo Mendes Campos (Anjo Bêbado, edição de 1969, Editora

Sabiá). Olhem que coisa mais linda.


“Quem coleciona selos para o filho do amigo; quem acorda de madrugada e estremece no

desgosto de si mesmo ao lembrar que há muitos anos feriu a quem amava; quem chora no cinema

ao ver o reencontro de pai e filho; quem segura sem temor uma lagartixa e lhe faz com os dedos

uma carícia; quem se detém no caminho para ver melhor a flor silvestre; quem se ri das próprias

rugas; quem decide aplicar-se ao estudo de uma língua morta depois de um fracasso sentimental;

quem procura na cidade os traços da cidade que passou; quem se deixa tocar pelo símbolo da

porta fechada; quem costura roupa para os lázaros; quem envia bonecas às filhas dos lázaros;

quem diz a uma visita pouco familiar: Meu pai só gostava desta cadeira; quem manda livros aos

presidiários; quem se comove ao ver passar de cabeça branca aquele ou aquela, mestre ou

mestra, que foi a fera do colégio; quem escolhe na venda verdura fresca para o canário; quem se

lembra todos os dias do amigo morto; quem jamais negligencia os ritos da amizade; quem

guarda, se lhe deram de presente, o isqueiro que não mais funciona; quem, não tendo o hábito de

beber, liga o telefone internacional no segundo uísque a fim de conversar com amigo ou amiga;

quem coleciona pedras, garrafas e galhos ressequidos; quem passa mais de 10 minutos a fazer

mágicas para as crianças; quem guarda as cartas do noivado com uma fita; quem sabe construir

uma boa fogueira; quem entra em delicado transe diante dos velhos troncos, dos musgos e dos

líquens; quem procura decifrar no desenho da madeira o hieroglífo da existência; quem não se

acanha de achar o por do sol uma perfeição; quem se desata em sorriso à visão de uma cascata;

quem leva a sério os transatlânticos que passam; quem visita sozinho os lugares onde já foi feliz

ou infeliz; quem de repente liberta os pássaros do viveiro; quem sente pena da pessoa amada e

não sabe explicar o motivo; quem julga adivinhar o pensamento do cavalo; todos eles são

presidiários da ternura e andarão por toda a parte acorrentados, atados aos pequenos amores da

armadilha terrestre”.


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Tate modern

04 de dezembro de 2010 0

Gaugin. 2

Já comentei que sou viciada em beleza. Meu conceito de beleza é, graças a Deus, amplo. Não gosto apenas de coisas “comportadas” que se encaixam com facilidade no difícil conceito de “belo” . Em pintura, por exemplo, assim como me encanta a delicadeza de Renoir, sou fascinada pela loucura desvairada de Van Gogh e a outra, um pouco mais comportada, de Gauguin.
Quando estive em Londres havia uma exposição de Gauguin numa galeria chamada Tate Modern.
O título da exposição – Fazedor de mitos – lembra -  não sei se de propósito – um verso de Safo: Eros, tecelão de mitos.

Fazendo um parênteses: na mesma galeria estava exposta a obra de um chinês Ai Weiwei, patrocinada pela Unilever. Na antiga sala das turbinas ( a Tate modern era antes uma usina)espalharam 100 milhões de sementes de girassóis feitas de porcelana e pintadas à mão. Essa obra ganha em expressão quando se assiste ao filme que mostra como ela serviu para dar trabalho ( e dinheiro) a milhares de chineses do interior do país. Um belo exemplo a ser seguido.

Voltando a Gauguin, ele me fascina, não só pela arte mas pela vida revolucionária, rompedora de padrões, jamais acomodada.
Eu a conhecia contada por Vargas Llosa num livro muito gostoso – O paraíso na outra esquina – onde o autor alterna a narrativa da vida de Gauguin com a da avó do artista, Flora Tristán, uma revolucionária que lutava pelos direitos da mulher e dos trabalhadores.

Avó e neto, em momentos (claro) diferentes, ele mais decidido, ela mais sofrida, lutam com a mesma paixão pela liberdade. Como diria minha mãe: sangue não é água, ou, quem sai aos seus não degenera.

Falando em minha mãe, fiquei sabendo que um livro bem mais antigo que herdei dela- Um gosto e seis vinténs, de Somerset Maugham – também narra a vida desse artista. Comecei a ler. Depois comento com vocês. O do Vargas Llosa, eu recomendo muito.

Podia descrever e comentar os quadros que vi mas não sou especialista, estaria apenas repetindo o que pode se encontrado na Internet. Entrem no site e vejam a exposição.


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