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Posts de janeiro 2011

Ao longo dos séculos, mudamos pouco

30 de janeiro de 2011 3

Para tirar o remorso daquela caipirinha a mais, mas lembrando que, se for dirigir, não beba.



“ Convém ser condescendente com a alma e dar-lhe algum descanso que atue como um alimento restaurador. Ás vezes um passeio, uma viagem com mudança de região. Isso proporciona energia renovada. Igualmente uma refeição alegre e uma bebida mais abundante, podendo chegar à embriaguez, não para nos afogarmos, mas para nos divertirmos, porque dissolve as preocupações, comove até o íntimo da alma e cura não apenas a tristeza, mas também outras doenças.

De toda forma, é necessário, de vez em quando, afrouxar as rédeas, para interromper, de leve, a moderação e levá-la à exultação e à liberdade.

Demos credito ao poeta grego; “ De vez em quando é alegre enlouquecer”. Também Platão afirmava: “Em vão se dirige às portas das musas quem tem domínio de si”. E ainda Aristóteles: “Nunca existiu um grande gênio sem nenhuma mistura de loucura”.”



                Sêneca ( 4 a .C- 65 d .C) – Da tranquilidade da alma


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O Cisne negro

29 de janeiro de 2011 4

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Confiança e gozo

29 de janeiro de 2011 0

Ontem, conversando com uma amiga, ouvi-a dizer: isto é igual sexo, precisa confiança..  

Juro que, de forma consciente, nunca havia ligado essa palavra — confiança — ao sexo.

É perfeita.

Um bom sexo só pode existir com confiança porque um bom sexo só acontece com entrega e só há entrega se existe confiança em si mesma e, principalmente, no parceiro. Talvez por isso sofra-se tanto quando uma relação termina: além do abandono, além de tudo, nossa confiança foi traída.

No filme O Cisne Negro, o diretor artístico aconselha Nina (a bailarina) a que se masturbe. Para dançar o cisne negro não basta técnica, ele diz, é preciso soltar-se, atacar, deixar-se ir, seduzir. Ao aconselhar que se masturbe o que ele pede é que ela tenha confiança em si mesma. Nas mulheres, confiança e gozo são íntimos, sem a primeira o segundo não existe.    


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Quem, poeta, já não passou por isto

28 de janeiro de 2011 3


no dia seguinte

decifrando os sulcos da caneta

na página em branco

ao resgatar o poema posto fora

encontrei a minha arte


                                               Alexandre Brito

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Aqui e lá

27 de janeiro de 2011 2

Numa oficina literária me foi dado um exercício: falar sobre a perda de um filho sem mencionar a morte. Não fiz. Simplesmente não consegui pensar na morte de um filho para o fim banal de um simples exercício. No romance que escrevi, uma das personagens principais perde o filho. Foi duro de escrever, mas escrevi. Era preciso. Dei a ela o consolo de um fantasma.

Falo nesse assunto porque dois dos novos filmes a que assisti – Rabbit Hole ( Reencontrando a felicidade), com Nicole Kidman e Hereafter (Além da vida), de Clint Eastwood – tratam de morte e consolo.

Quanto ao primeiro: uma pena o título que deram por aqui – Reencontrando a felicidade. Perde-se a magia do original que remete a Alice no País da Maravilhas e sua queda no desconhecido através de um buraco, ou toca, de coelho.

O filme de Clint, uma grande surpresa. Não pensei que, aos 80 anos, tivesse a coragem de dar essa guinada. Nas entrevistas ele diz não estar preocupado com a morte e que teria feito o filme aos 30 anos. Bobagem, ele está sim, como todos nós, preocupado e fala do assunto com uma seriedade de quem acredita no que está dizendo. O mais admirável é que não se pode dizer que o filme seja religioso, até para a mediunidade é encontrada uma explicação física e, que eu me lembre, em nenhum momento se fala em Deus. Um assunto batido levado por mão de mestre. A vida continua porque é assim e ponto.

Tenho diversos amigos que, infelizmente, perderam filhos.  A maioria, em razão de acidentes. Cada um deles buscou consolo de uma forma diferente. Todas as buscas, porém, tiveram em comum a negação do nunca mais. Todos trilharam o mesmo caminho: pelas leis da física (os mundos paralelos do Rabbit Hole),  pela fé, ou ‘apenas”  porque essa é a lei natural, concluiram que, de alguma forma, a vida continua. A noção do nunca mais, em especial quando ligada à perda de um filho, sempre nos será insuportável.

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O documentário

24 de janeiro de 2011 4

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José e Pilar

24 de janeiro de 2011 4

Fui assistir a José e Pilar, o documentário sobre os últimos anos de José Saramago e Pilar Del Rio, sua mulher. Fui com opiniões opostas girando em minha cabeça feito moscas.

“É comovente, chorei do princípio ao fim”, diziam alguns.

“Quem aquela espanhola pensa que é para ficar ensinando português aos portugueses?”, diziam outros se referindo à cena em que Pilar insiste em ser chamada Presidenta (e não Presidente) da Fundação Saramago.

“Ela jamais o devia ter exposto dessa forma.”

“Um filme ridículo mostrando um ateu com medo da morte”.

As opiniões, como disse, eram muitas. Não concordo com elas, pelo menos, não totalmente.

O documentário mostra um José (podia ser um José qualquer) velho, caseiro, distraindo-se com jogos de paciência (talvez, para um escritor, palavras cruzadas fosse mais apropriado), terminando de escrever A viagem do elefante. Mostra também as muitas viagens para divulgar esta obra, sua doença, o casamento tardio, a assinatura da ata da Fundação Saramago, sua “briga” com Portugal, as pazes, entrevistas, entrevistas, entrevistas….

Sinceramente não entendi porque Saramago concordou em fazer esse documentário. Não que eu não tenha gostado (todos nós somos voyeurs ou revistas como Caras e Hola não venderiam tanto), o que digo é que eu jamais pensei que ele se exporia daquela forma.

O que eu vi na tela foi um homem velho, a quem enfraquece ainda mais a certeza de se saber perto da morte e a quem, talvez por isso, tudo comove. No documentário, Saramago está fraco. Quem foi o escritor que ele foi, com certeza, viveu com mais coragem do que ali aparece. Por isso, repito, não entendi essa exposição aparentemente inútil de um mau momento. Mídia? Quem é premio Nobel de literatura não precisa disso.

De qualquer forma, o documentário é bem feito e a naturalidade dos dois é impressionante. Eles simplesmente não parecem saber que a câmera está ali.

Gosto do Saramago. Não o idolatro. Assisti ao filme sem pensar que contava a história de um grande escritor. Para mim, foi a história de duas pessoas comuns. Comoveu-me a necessidade absolutamente visceral de escrever.  Eu me idenfiquei com ele por isso. Senti também inveja: ter a sorte de encontrar o amor da sua vida aos 63 anos e não desperdiçar a oportunidade é bom e bonito.

Se Pilar o amou de verdade, ou se foi “caso pensado”, não interessa. Ele a amou do fundo do coração. Ela lhe foi dedicada. Os dois parecem ter tido aquela cumplicidade sobre a qual já falei aqui antes. Longa vida a José e Pilar.

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The impossible dream de Dom Quixote

23 de janeiro de 2011 0

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O que faz um bom livro?

23 de janeiro de 2011 0

Terminei de ler Um gosto e seis vinténs de Somerset Maugham ( pronuncia-se Môme, gozado não é?) . Falei sobre esse livro aqui quando visitei a exposição do Gaugin, ele é baseado na história desse pintor. É um bom livro, ao estilo de Maugham. Linguagem direta, sem frescura, contando uma história e com algumas frases que dá vontade de sublinhar. Igual ao Érico, Maugham se dizia “ um contador de histórias”. Baixinho, gago, bissexual, órfão desde muito cedo, ele tinha tudo para dar errado. Deu certo. Encontrou sua vocação, seu estilo, foi dos poucos que conseguiu viver, e bem, da literatura.

Sua maneira de escrever, mesmo vivendo numa época em que despontavam as diferenças de Joyce e Virginia Woolf, manteve-se.Considerando essas diferenças de estilo, tenho pensado muito sobre o que faz um bom livro.

Há tantas formas de escrever como há de fazer bolos. A massa básica é semelhante — farinha, leite, ovos, manteiga, no caso dos bolos; palavras, no dos livros — a partir daí, as variações são infinitas. Há livros, como dizia Kafka, que nos picam e mordem, outros “apenas” nos distraem.

Não significa, muitas vezes, que um tenha dado mais trabalho para escrever do que o outro. Parece ser mais uma questão de capacidade do que realmente de escolha. Não capacidade de escrever bem ou mal, capacidade de escrever de certa forma. Eu adoraria escrever ao estilo de Clarice ou Guimarães Rosa, não consigo, não tenho esse poder. Escrevo como posso.  

Estou lendo Don Quixote. O que fez esse livro permanecer 400 anos? O estilo, o humor, a tragédia? O refletir uma época em que a Espanha havia perdido a esquadra com a qual pretendia voltar a dominar o mundo e era, ela mesma, quixotesca? É um livro trágico ou um livro de humor? Parece que há tantos “Dom Quixotes” quanto há leitores. Cervantes, quando o escreveu, sabia o que estava escrevendo. Escreveu com o propósito de distrair ou quis, de forma organizada, penetrar profundamente na tragédia humana? 

Não esperem respostas, apenas penso alto. Dou-me conta do quanto somos pequenos frente a nós mesmos e às palavras.  Do quanto é pequeno nosso controle.


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Quem quer a moça...

14 de janeiro de 2011 2

Quem quer a moça mexe com o e a bolsa.

Cresci ouvindo de meu pai essa frase, versão antiga do atual: se ele não ligou é porque não está a fim de você.

Antes, nem todos tinham telefone (eu não tinha), era preciso usar o do vizinho. Linha telefônica não era serviço, era bem a ser declarado em inventário e, sobre ela, pagava-se imposto de transmissão.

Por isso, naquela época, se “ele” não ligasse, talvez não fosse porque não estava a fim. Podia ser que não tivesse telefone e/ou o vizinho não estivesse em casa ( se bem que já havia telefones públicos…)

Naquele tempo, quando ele estava a fim, ia até a casa da moça, pagava o bonde, o cinema, a pipoca. O seja, naquele tempo, mexia-se com o pé e a bolsa.   

Como neste mundo nada se perde, tudo se transforma, trocou-se o mexer por ligar – não se mexe mais os pés, mexe-se um dedo, não se mexe mais tanto na bolsa, as despesas são repartidas -  o princípio é o mesmo.

Daí o sucesso do livro de Greg Behrendt –  humorista e redator da série Sexy & The City (Ele simplesmente não está a fim de você”, editora Rocco) que virou até filme.

Como faziam nossas avós, nós continuamos inventando desculpas para justificar o descaso. Bastou amar, estar apaixonada, para vermos entrelinhas onde há apenas um papel em branco, segundas intenções onde não há nem primeiras (ou há apenas uma, aquela, a condenada pelo Vaticano).

Não adianta negar. Todas nós já fizemos isso, nos enganamos, o desculpamos,  prolongamos relacionamentos que não existiam até que a verdade – ele simplesmente não está a fim – caiu sobre nós como um morro desabando,

Foi sobre isso que pensei ontem quando, durante o almoço, discutiu-se lá em casa a questão do Ronaldinho.

Meu marido, gremista, dizia que nunca vira algo tão antiético.

Meu genro, colorado, dizia que o Ronaldinho foi antiético mas o que ele fez não teve nada de “excepcional” , no mundo dos negócios todo mundo “come” todo mundo.

Embora eu ache que Ronaldinho exagerou (muito público, muita entrevista, muita promessa) deu para perceber que o que doía mais no meu marido era o fato dele, Ronaldinho, não ter “ligado” Afinal (como fazem todos) “ele” prometera. O que doeu mais foi dar-se conta de que o Ronaldinho simplesmente não estava a fim.

Portanto, gurias, não temos a hegemonia da burrice, os homens também se enganam e ficam esperando um “telefonema” que nunca virá.  

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