Citado seguidamente por Borges, Macedonio Fernádez é um escritor argentino muito conhecido e pouco lido.
Nesta época de populismo literário, quando as editoras querem apenas “livros que vendam” (leia-se livros fáceis) a editora Cosac Naify ( que pode dar-se ao luxo de publicar apenas o que admira) lançou uma edição experimental - não me perguntem, não sei o que é uma edição experimental - do romance de Fernández: O Museu do Romance da Eterna.
Esse livro, segundo a resenha de Joca Terron, “ é composto quase que em sua totalidade de prólogos que terminam por não prologar nada, ou melhor: prefaciam justamente o nada existente além da última página”.
Segundo a resenha publicada na Folha do último dia 19, Jorge Luis Borges citava e imitava Macedonio mas não o admirava como romancista. Apropriava-se da idéia - a obra literária assumindo-se como artifício, ficção, labirinto - e, a partir dessa idéia, escrevia ao seu jeito.
O Museu do Romance da Eterna foi avaliado como ótimo pelo resenhista.
“ Nele, tudo é imperfeição, da sintaxe labiríntica de voltagem semelhante às idéias, até o incompleto fragmentário e insatisfatório que reside no irresoluto”.
Querem saber o que eu acho? Acho que o livro deve ser muito chato, dificílimo de ser lido, mas acho também que não há como deixar de reconhecer o valor de obras como essa.
Ao escrevê-lo, ao que parece, Fernández, como um cavalheiro do amor cortês da idade média ou como alguém que se masturba, praticou um ato de amor solitário; amor à literatura em si mesma. Ele enrolou e prorrogou tanto a escrita desse livro que não chegou a vê-lo publicado. Não estava preocupado. Divertia-se.
A regra geral é um escritor escrever para ser lido e apreciado. Pouquíssimos amam tanto a literatura a ponto de darem-se por satisfeitos em tê-la por perto, tesouro taslvez valioso demais para ser compartido.
Ter a coragem de escrever por escrever, de não se importar que o compreendam, e, por isso mesmo, alcançar o feito de tirar o leitor da famosa “zona de conforto”, essa cadeirinha onde, feito uma criança, ele espera que o alimentem com papinhas de fácil digestão, é atitude a ser aplaudida. De preferência, em pé.



