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Posts de fevereiro 2011

Macedonio Fernández

23 de fevereiro de 2011 2

Citado seguidamente por Borges, Macedonio Fernádez é um escritor argentino muito conhecido e pouco lido.  

 Nesta época de populismo literário,  quando as editoras querem apenas “livros que vendam” (leia-se livros fáceis) a editora Cosac Naify ( que pode dar-se ao luxo de publicar apenas o que admira) lançou uma edição experimental  - não me perguntem, não sei o que é uma edição experimental – do romance de Fernández: O Museu do Romance da Eterna.

Esse livro, segundo a resenha de Joca Terron, “ é  composto quase que em sua totalidade de prólogos que terminam por não prologar nada, ou melhor: prefaciam justamente o nada existente além da última página”.

Segundo a resenha publicada na Folha do último dia 19, Jorge Luis Borges citava e imitava Macedonio mas não o admirava como romancista. Apropriava-se da idéia – a obra literária assumindo-se como artifício, ficção, labirinto – e, a partir dessa idéia, escrevia ao seu jeito.

O Museu do Romance da Eterna foi avaliado como ótimo pelo resenhista.

 “ Nele, tudo é imperfeição, da sintaxe labiríntica de voltagem semelhante às idéias, até o incompleto fragmentário e insatisfatório que reside no irresoluto”.  

Querem saber o que eu acho? Acho que  o livro deve ser muito chato, dificílimo de ser lido, mas acho também que não  há como deixar de reconhecer o valor de obras como essa.

Ao escrevê-lo, ao que parece, Fernández, como um cavalheiro do amor cortês da idade média ou como alguém que se masturba, praticou um ato de amor solitário; amor à literatura em si mesma. Ele enrolou e prorrogou tanto a escrita desse livro que não chegou a vê-lo publicado. Não estava preocupado. Divertia-se.

A regra geral é um escritor escrever para ser lido e apreciado. Pouquíssimos amam tanto a literatura a ponto de darem-se por satisfeitos em tê-la por perto, tesouro taslvez valioso demais para ser compartido.  

Ter a coragem de escrever por escrever, de não se importar que o compreendam, e, por isso mesmo, alcançar o feito de tirar o leitor da famosa “zona de conforto”, essa cadeirinha onde, feito uma criança, ele espera que o alimentem com papinhas de fácil digestão, é atitude a ser aplaudida. De preferência, em pé.

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Que el soneto nos tome por sorpresa

20 de fevereiro de 2011 0

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Jorge

20 de fevereiro de 2011 0

Como vocês devem saber, no domingo, dia 14, Jorge Drexler recebeu o prêmio Goya pela música Que el soneto nos tome por sorpresa. Segundo a entrevista que li no El País (17/02/11) essa música teria surgido como surgem os poemas: por acaso.

Drexler estava em Marrocos, acompanhava sua mulher na filmagem da vida de Lope de Vega. O trabalho de direção do brasileiro Andrucha Watling insistindo em preservar o improviso, a intuição do momento dentro do que Drexler chama de “estrutura quase militar do cinema, onde tens cento e vinte extras e é preciso organizá-los e movimentá-los conforme a câmara”, o teria encantado e levado a desejar que um soneto ( poema com regras bastante rígidas)  tomasse a todos de surpresa .

A música aparece apenas nos créditos finais do filme que, (sempre segundo Drexler) é o momento ideal por ser um momento de transição onde termina a fantasia e recomeça a realidade. Achei muito legal o contraste entre a rigidez das regras do soneto e o “por acaso” que as palavras cantam.


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Te amo con todo mi cerebro...

17 de fevereiro de 2011 0

“O amor está longe de ser apenas uma emoção, pois pode durar toda uma vida. É um sentimento muito mais elaborado, sofisticado e intelectual. ”

Com essa afirmação, Stephanie Ortigue, que segundo o artigo do jornal El País (suplemento Domingo, 13/02/2011) seria uma das psicólogas e neurologista mais reputadas da Universidade de Genebra, reforça a afirmação que a cada ano se faz de que o amor teria origem no cérebro e não no “coração”. 

Movida pela curiosidade científica e pelo desejo de ajudar aos milhares de desiludidos amorosos, a doutora Ortigue fez um estudo aprofundado sobre o que desencadeia a euforia, a paixão e o apego emocional duradouro. “…se pudéssemos entender o processo científico do amor talvez pudéssemos melhorar a angústia dos que não reagem bem a uma ruptura amorosa. Portanto, além da finalidade de investigação pura houve, no estudo, uma finalidade terapêutica.”

Os estudos demonstraram que, embora de forma inconsciente, sem que percebamos a não ser através de sinais físicos como o aumento dos batimentos cardíacos, “borboletas no estomago” e sudorese, várias áreas do cérebro se ativam frente ao amor. São áreas relativas à emoção, à motivação e também áreas cognitivas.  

Através do exame de ressonâncias magnéticas, a equipe da doutora Stephanie, declarou-se capaz não apenas de identificar as áreas do cérebro afetadas, mas também os diversos tipos de amor, do sentimental ao materno.

O jornal faz referência a um site (chemistry.com) assessorado pela antropóloga canadense Helen Fisher da universidade de Rutgers que, após um estudo de 30 anos, teria identificado quatro tipos de personalidades amorosas, cada uma delas associada a distintas substâncias químicas: explorador (dopamina), negociador (estrógeno), diretor (testosterona) e construtor (serotonina) .

O artigo não dá maiores explicações sobre as características de cada uma dessas personalidades e nem eliminou uma pergunta minha.

 Não tenho a menor dúvida que a tal “questão de pele” é uma realidade. A maioria de nós já teve essa experiência. Mas o que desencadeia essa tal “questão de pele”, essa harmonia de hormônios a que chamamos amor?  O que faz com que uma pessoa determinada e não outra, acione nosso gatilho amoroso?

A mim parece que ninguém sabe ao certo.

Nascida no coração ou no cérebro, a paixão amorosa, assim como a existência de Deus, continua sendo, para todos ou quase todos, uma belíssima e inesperada incógnita.

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Ariana confusa procura...

16 de fevereiro de 2011 2

E de repente, não mais que de repente, não sou mais Áries, sou Peixes.

O tal de Serpentário me deixou perdida.

A briga, eu sei, é entre astrônomos e astrólogos, mas respingou em nós, os que acreditamos que não existem bruxas pero que las hay las hay… Quem morou sob um céu de estância não pode jamais esquecer as estrelas.

Li atentamente a reportagem da revista Veja e as explicações dos astrólogos dizendo que, em verdade, nada mudou.

Do ponto de visa técnico a explicação é fácil: devido à oscilação do eixo da terra os signos tradicionais já não correspondem ao alinhamento das constelações com o sol, para recolocá-los nos devidos lugares Escorpião ficou reduzido a sete dias e entrou o tal de Serpentário.

Mas não é assim que a fé funciona. Como diz ( mais ou menos) Adélia Prado – fé é igual amor feinho, depois que amou não teológa mais. Não posso deixar de pensar no quanto o Caio Fernando Abreu teria adorado todas essa bagunça.

Confesso que nunca me senti uma ariana exata. Áries é signo de fogo, o mais primário deles, o que menos se deixa levar pela razão.

A não ser quando me tiram do sério, não sou assim.

Mas, como meu ascendente é Virgem, um signo equilibrado, amante das listinhas, e como sempre ouvi que quanto mais velhos ficamos mais nos aproximamos do nosso ascendente, sempre tive a certeza de ser uma Ariana influenciada por Virgem e também por Libra ( minha equilibrada lua).

O mais engraçado é que quando eu era ( segundo os astrônomos) Áries a Amanda Costa, que escreve aos domingos na Zero Hora, acertava sempre. Agora que sou Peixes ela continua acertando.  

Há anos que venho adiando fazer o meu mapa astral. Em 2011 faço, com certeza. Meu destino não vai passar assim, em brancas nuvens

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Afinal, o que é "bom" ?

13 de fevereiro de 2011 7

Num comentário postado abaixo, a Clara me deu uma chamada em regra: não gostou de um poema meu. Tudo bem, não sou perfeita e, se saí na chuva, não posso me queixar quando alguém me  molhar. O importante foi que o comentário dela me fez pensar sobre o que é qualidade? Que características um trabalho precisa ter para ser reconhecido como “bom”?

De forma simplista, em literatura, as formas imediatas de reconhecimento são duas: ganhar dinheiro e/ou receber prêmios.

Sob esse ponto de vista, o livro de Edney Silvestre, Se eu fechar os olhos agora ( Editora Record) foi o grande vencedor de 2010 pois recebeu dois dos mais conceituados prêmios literários brasileiros (Jabuti e Prêmio São Paulo de Literatura). Por não haver recebido também o Jabuti de melhor livro do ano, a editora armou o maior banzé. ( Outros jurados escolheram o livro do Chico Buarque, Leite Derramado como o melhor do ano. O livro do Chico havia perdido para o do Edney na categoria romance.)  Pois muito bem, li o livro. Tenho o costume de  sublinhar os livros que leio. Em Se eu fechar os olhos agora, não encontrei nada para sublinhar.

Não, o livro não é ruim, de forma alguma. A linguagem é fluente, a trama prende, mas os personagens são pouco elaborados, as situações, previsíveis. Embora sendo ficção, pode ser descrito como uma narrativa “jornalística”. Como personagem, o velho moribundo e repetitivo de Leite Derramado dá de dez a zero no velhinho fujão de Se eu fechar os olhos….

Pois, como disse, esse livro que considerei raso, uma mera narração de peripécias “papou” dois dos maiores prêmios literários brasileiros; prêmios cujos jurados têm, em teoria, muito mais condições do que eu para dizer se um romance é bom.

Como pode ser que me engane tanto?

Na mesma semana em que terminei o livro, fui assistir à produção européia O Concerto. Pela irreverência, o jeito inovador de lidar com clichês, a forma corajosa de deixar bem claro que é fantasia e, por isso, uma orquestra pode ser um sucesso mesmo após 30 anos, sem ensaiar, achei o Concerto um grande filme. Saí com a certeza de que havia sido indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro (não que isso seja um aval, mas é um reconhecimento), não foi. Foi indicado ao César (não levou) e ganhou dois prêmios menores. Não sei se está fazendo uma boa bilheteria, mas, quanto a prêmios, passou, digamos assim, batido.

Como pude enganar-me tanto, de novo? Será que a errada sou eu? Será que não entendo nada de nada ou o conceito de “bom” mudou e não me dei conta?

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Debaixo d´água/Agora

02 de fevereiro de 2011 2

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Dois de fevereiro

02 de fevereiro de 2011 6


entre os bambus eu te avistei

e entre os barcos

onde, dos peixes, repousavam as redes

era manhã sob meus pés, capim e orvalho  

da casa, um cheiro de pão recém-saído

falavas

e a rigidez dos linhos engomados

não me deixava ouvir o que dizias

alguma coisa em mim, porém, te respondia

e havia um tanto de sede e água

havia um tanto

em vão busquei apoio no cheiro das goiabas

tua carne de sonho

abstrata

diluía o mundo conhecido

entre os bambus eu te avistei

e entre os barcos



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