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Cervantes, nunca mais?

09 de março de 2011 6

Ontem, um amigo e eu discordamos sobre literatura.

 Para ele, a função primordial do livro é o entretenimento. E a palavra entretenimento aqui envolve uma qualidade necessária: ser fácil de se ler. Livros como o Finnegans Wake de Joyce ou Avalovara de Osman Lins estariam condenados pois rompem esse pacto tácito de entreter.

 Se esse meu amigo fosse de ler só “Paulo Coelho” (uso esse nome como metáfora até porque o Paulo Coelho está habituado e nem se importa) eu não perderia meu tempo.

 O interessante é que ele lê, e muito. Na verdade, mais livros técnicos, mas, quando lê ficção, os livros que escolhe, embora cumpram fielmente com a função de entreter como acima entendida, não podem ser classificados como ruins. Para dar um exemplo que o situe melhor: detestou 100 anos de Solidão, está adorando Tia Julia e o escrevinhador.

 Li os 100 anos  três vezes, lerei outras tantas, é um dos meus livros de cabeceira, mas confesso que, da primeira vez, fiz uma listinha com os personagens. Até percebermos que os nomes repetidos importam pouco, pois o que se conta vai muito além da história, é mesmo complicado.  Não só esse meu amigo, várias pessoas que eu conheço o acham chato.

 Outra opinião desse meu amigo é que, na época em que vivemos, porque tudo já foi dito, porque não há mais novidades, não surgirão mais escritores que permaneçam ao longo dos séculos, como Shakespeare ou Cervantes. O exemplo que deu foi Adam Smith cuja teoria econômica hoje seria já ultrapassada, mas continua sendo citada por ter sido a primeira.

 Eu e ele, cada um entrincheirado com seus argumentos, não chegamos a um denominador comum. Notem, eu não acho que ser capaz de tomar o leitor pela mão e levá-lo sem percalços até o final seja defeito, mas também não acho que um livro, para ser bom, precise ter menos do que 10 personagens.

 Essa discussão não é estéril ou acadêmica. Muitas pessoas  concordam com o meu amigo (na verdade, a maioria) e, quando tantos pensam da mesma forma, há que refletir-se a respeito.

 A lista dos mais vendidos é uma prova do que eu disse acima. Os editores, é claro, negam-se a publicar livros “difíceis” a não ser que o autor seja consagrado e morto, um Kafka, por exemplo.

 Tenho amigos que, mesmo já tendo obras publicadas e premiadas (pagaram eles mesmos a primeira publicação), por escreverem de forma elaboradas, não conseguem editor, a não ser pagando o selo, para seus novos livros. Notem, não estou falando apenas de inciantes. 

 Se não conhecêssemos a obra de Cortázar, pensaríamos que, quando ele diz — a única regra a ser obedecida por quem escreve é impedir que o livro caia das mãos do leitor aborrecido —  dá ganho de causa ao meu amigo E, no entanto, com 800 páginas,  muitos personagens e  diversos capítulos opcionais, O Jogo da Amarelinha é tudo menos fácil. 

 Então, ao que parece, aquilo que Cortázar entende por aborrecido é exatamente o inverso do que meu amigo entende como tal. Para Cortázar, o aborrecido é sinônimo de banal, previsível, fácil de ler.

 Ezra Pound (um poeta difícil) ensina com clareza porque eu e meu amigo não chegamos a um acordo: “grandes doses de rancor crítico foram dispendidas inutilmente por uma incapacidade de distinguir entre duas espécies totalmente diferentes de escrita: livros que um homem lê para desenvolver as suas capacidades e  livros que são concebidos como repouso, ópio, leitos mentais. “Ninguém dorme sobre um martelo mas não se arranca um prego com um colchão, por isso não se pode usar para livros diferentes os mesmos padrões críticos”.

Tudo bem, essa afirmação lança luz sobre o assunto, mas, mesmo assim, mesmo entendendo que não se pode comparar laranjas com bananas, fico preocupada.

Se os editores só publicam o que vende e, se, cada vez mais, o que vende é o “fácil de ler” e esse fácil de ler é, na maioria das vezes, banal, que futuro terá a literatura? Será que estamos mesmo condenados a não ter jamais outro Cervantes?  


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Comentários (6)

  • Amigo diz: 10 de março de 2011

    Entreter e Desenvolver o ser humano não são excludentes, pelo contrário. Determinar dois tipos de literatura é por demais simplista. Em literatura assim como em qualquer forma de arte não existe certo ou errado. Condenar Paulo Coelho tem o mesmo significado de condenar Cervantes. É absolutamente irrelevante, pois mais importante do que o autor é o leitor. Sem leitura, o livro não existe.

  • Angela Warlet diz: 11 de março de 2011

    Ana:

    Não só em relação à literatura, mas em situações diversas, todos tendemos a
    relegar aquilo que nos entedia e a buscar algo que nos dê satisfação ou prazer de vivenciar. A literatura só existe porque o leitor existe. Há de se supor, então, que o leitor sinta prazer em ler um bom romance.
    Mas, e se ele sentir prazer somente ao ler Paulo Coelho e não o sentir quando da leitura de Clarice Lispector ou Machado de Assis? Ou Cervantes? Seria justo afirmar que apenas Paulo Coelho é literatura?
    É certo que não. Na verdade, sob a perspectiva da Estética da Recepção, poder-se-ia dizer que ambos são literatura, apenas diferindo em função dos níveis de complexidade que a leitura de suas obras causaria em seus leitores.
    Se a mentalidade do homem é basicamente a mesma e as diferenças
    ocorrem sobretudo nas suas manifestações, estas devem ser relacionadas às condições do meio social e cultural o critério de valor de um texto não é literário nem teórico, mas ético, social e ideológico, isto é, extratextual, contextual. Assim, se em um dos pólos do processo literário, o da criação,há essa variação acerca de uma definição para a literatura, isso também ocorre no outro pólo, o da recepção.
    Todo julgamento de valor repousa num atestado de exclusão.
    Dizer que um texto é literário subentende sempre que um outro não é
    Literatura é algo complexo e passível de diferentes níveis de interpretação. Pode-se afirmar que, da mesma forma como um leitor iletrado poderá não considerar literatura a produção literária de um autor culto, um leitor culto também poderá não considerar literatura a produção de um autor iletrado.
    Uma obra literária só é considerada como valiosa por certas pessoas em situações específicas, de acordo com critérios específicos e à luz de determinados objetivos.
    O que vale mais o aval da crítica ou do leitor?
    A literatura é inclassificável.

    PS:Desculpe-me,mas gostei tanto que me alonguei no comentário.

  • Affonso Santana diz: 13 de março de 2011

    Há outra questão que é aquela relacionada ao mercado editorial de livros de literatura, situação em que é questionável, por exemplo, se as recentes obras de grande aceitação pública, os best sellers, são de fato frutos de alguma intenção literária, portanto também artística, de seus autores, ou são, meramente, o resultado de acordos financeiros entre autores e editoras cujos objetivos, vulgarmente, restringir-se-iam ao acúmulo de capital e ao
    condicionamento de uma cultura da desinformação de um público leitor-consumidor
    carente de novidade e sem tempo para refletir filosoficamente sobre o conteúdo das
    obras lidas.

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