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A importância da falta

19 de março de 2011 1

Já escrevi aqui sobre esse assunto. A pedido de uma amiga, repito a idéia de uma outra forma. 

Para os antigos gregos, o amor era um demônio filho de dois deuses: a Falta (Penúria) e o Recurso. Ou seja, eles sabiam a importância da falta. A consideravam deusa porque entendiam que é ela quem nos incentiva a seguir adiante em busca de algo melhor.

Diferente deles, nós, modernos, temos a mania defeituosa de abominar o vazio.

No metrô de Londres, a toda hora, ouve-se uma advertência  – mind the gap.  Não há nada de profundo ou de poético nisso, é apenas um lembrete para que as pessoas tomem cuidado com o espaço vazio entre o trem e a plataforma, no entanto, Antonio Cícero escreveu que a ambiguidade existente nessa simples frase fazia nascer nele um prazer estético.

Ele tem razão. Se pensarmos de uma forma metafórica, essa advertência comum pode ser entendida como – dê importância ao vazio.

Existe uma peça musical de John Cage chamada 4’33 na qual, durante quatro minutos e trinta e três segundos, os músicos apenas ficam lá, no palco, segurando seus instrumentos, não tocam. A idéia é fazer com que as pessoas percebam os ruídos existentes no ambiente, ou seja, que percebam a música surgindo da falta de música.

Se é assim, diriam alguns, se dessas coisas pode vir prazer estético, não é preciso mais escrever-se música ou poesia. São coisas diferentes, graduações diferentes. Como explica Antonio Cícero: o fato de nos deleitarmos com o ruído do vento na copa das árvores e com frutas silvestres não impede que continuemos precisando da música ou da culinária.~

Mas, essa é outra discussão. Hoje falo apenas sobre a importância de percebermos que de um lugar repleto, já totalmente tomado de coisas, palavras, sentimentos, dificilmente nascerá algo. Precisamos do vazio para criar. Se não sentíssemos necessidades, estaríamos eternamente saciados e imóveis. É o vazio que nos faz ir adiante.

Assim, se amanhã acordarem (como eu muitas vezes acordo) tristonhos, sentindo falta, achando a vida vazia, não reclamem: agradeçam ao vazio e vão à luta.





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Comentários (1)

  • Angela Warlet diz: 19 de março de 2011

    No dicionário, o termo vazio remete para aquilo “que não contém nada ou s contem ar”. Está correlacionado a desabitado, frívolo, vão, fútil, falto, destituído de inteligência.
    Na matemática, um conjunto vazio é aquele destituído de elementos.
    A arte que se tornou oficial na moderna contemporaneidade lida, de forma mais radical do que a arte que a antecedeu, de diversas formas com o vazio. De alguma forma, ela potencializou o vazio, maximizou-o, trazendo-o para o primeiro plano da obra.
    Na poesia seria o mesmo que valorizar, de tal modo, o espaço em branco entre as palavras e os versos que, ao fim, as letras se tornariam desimportantes e o branco da pgina bastaria a si mesmo, compondo um poema sem palavras. Na escultura seria o mesmo que potencializar os “buracos”, ou seja, os vazios de uma escultura de Henry Moore, convertendo-os na própria obra.
    Um dos poucos consensos é que ela consiste em uma combinação de sons e de silêncios, numa sequência simultânea ou em sequências sucessivas e simultâneas que se desenvolvem ao longo do tempo. Neste sentido, engloba toda combinação de elementos sonoros destinados a serem percebidos pela audição.

    Conclusão:já percebeste que um copo vazio está cheio de ar?
    A falta é um estar pleno,é a ausência assimilada.Isso aprendi com o tempo …custei muito,mas sentindo, lendo e escrevendo…
    Me fizeste lembrar daquele poema do “nosso querido Drummond.

    Um beijo

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