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Originais? Nem tanto.

10 de abril de 2011 0

É sempre perturbador descobrir um hábito social dominante ali onde se pensaria existir a marca da nossa singularidade. Perturbador e até mesmo humilhante.

Quem afirma o acima transcrito é Renée, a concierge culta e ranzinza do livro A Elegância do Ouriço de Muriel Barbery (Companhia das Letras).

Afirmação absolutamente verdadeira.

Existem erros e acertos que pensamos serem apenas nossos quando, na verdade, estamos repetindo o que vem sendo feito há séculos.

Fiquei culpada, senti-me uma transgressora, uma “inventora de moda” ao inserir em Atado de Ervas (romance) textos meus escritos antes.   

Lendo Cervantes, vi que não era nem transgressora e nem original.

Em Dom Quixote há poemas que não foram escritos para o livro.

Cervantes deve tê-los feito, achado que ficaram legais e resolvido criar uma peripécia para poder inseri-los no livro.

Revisando (juro que pela última vez) meu romance, fiquei pasma ao perceber quantos erros haviam passado impunes tanto por mim quanto pela revisora.

Quantos ainda existirão e assim irão para o prelo? Não tenho a menor ideia, mas tenho certeza que serão descobertos e apontados.

Acontece apenas comigo? Negativo.

No caderno Ilustríssima da Folha de hoje leio que no poema Advertência, edição de 1902 das Poesias Completas de Machado de Assis, a palavra “cegara” teve o “e” constrangedoramente transformado em “a” . 

Segundo o autor do artigo, Antonio Secchin: pressurosas mãos trataram de remover, em quase todos os exemplares da tiragem, a inoportuna letra.  

Voltando a Dom Quixote: um burro morto revive dois capítulos adiante.

A bacia  do barbeiro (confundida com o Elmo de Mambrino) totalmente destruída num capítulo ressurge apenas amassada logo após.

Em 1897, o escritor Valentim Magalhães percebeu tarde demais que um personagem do seu livro Flor de Sangue morre duas vezes por razões diferentes.

Com o livro já impresso a solução encontrada foi a publicação da seguinte errata: À página 285, quarta linha, em vez de “estourar os miolos” leia-se cortar o pescoço.

Dizem as más línguas que o livro sobreviveu pela originalidade da errata e não pelo texto.  

Confesso não ter certeza se perceber que dividimos com muitos nossos pecados, nossas transgressões, nossos erros e acertos serve  (ou não) de consolo. 

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