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Os Maias, os fados

30 de abril de 2011 0

Não tenho uma formação acadêmica em literatura. Sou assim como os passarinhos da história infantil do João e da Maria. Avisto as migalhas deixadas na estrada, pistas mostrando o caminho, e as vou comendo. Às vezes engano-me, confundo uma pedrinha branca com um pedacinho de pão mas, aos poucos, vou aprendendo.

Antes da viagem a Portugal, para entrar no clima, comecei a ler Os Maias.

Ler Eça pela primeira vez e já na maturidade é uma verdadeira bênção. Estou absolutamente encantada.

O livro retrata (ou pretende retratar) a aristocracia lisboeta da época. Para mim, o personagem mais verossímil por suas contradições, seus paradoxos é o Ega (depois, li que ele seria o próprio Eça).

A história, uma tragédia incestuosa, a meu ver, é secundária.

Escolhas são feitas mas nunca se sabe bem com que liberdade pois o destino e, já que estamos falando em finais do século XIX, também o meio e a hereditariedade interferem.

A única coisa a fazer em Portugal é plantar legumes, enquanto não há uma revolução que faça subir à superfície alguns dos elementos originais, fortes, vivos, que isto ainda encerre no fundo, diz o protagonista.

Ao que o avô, o sábio senhor Afonso,  responde:

Pois então façam vocês essa revolução. Mas pelo amor de Deus, façam alguma coisa!

O sonhar muito e não fazer nada, a hipocrisia, a preguiça, os adultérios acontecendo por detrás dos panos, uma aristocracia decadente que despreza ou trata com condescendência a burguesia, o diminuir a própria terra, o copiar os modos estrangeiros, o falar-se inglês ou francês para ser chique: não somos ou fomos muito parecidos?

Mas é chato falar sobre um livro se quem me está lendo não o leu, então vou falar de música.

O fado, cujo nome significa também destino, (e o destino está sempre presente em Os Maias) só podia ser português. O fado é saudade, é melancolia alegre, descontentamento contente, como já disse alguém. Há nele tanto sentimento, tanta saudade, ao mesmo tempo tanta tristeza e tanta alegria de viver que não existe quem, em algum momento da vida, com ele não se identifique.

Em Os Maias, o fado aparece, mas como algo distante, ligado à “devassidão da plebe”. Casas de fado são lugares pecaminosos, velados. Ironia: todas as senhoras aristocratas razoávelmente bonitas, veladamente, traíam seus maridos.

Quanto à música, interessante notar como os cantores portugueses, independente de ser ou não fado, dão uma conotação  trágica ao que cantam. As palavras são as mesmas, a linguagem é outra.  Como se alteram as mesmas palavras cantadas com “sotaque” ( e uso essa palavra como sinônimo de jeito de ser) português!

Pude perceber isso porque, num dos discos que comprei ,Amália Rodrigues interpreta sabem quem? O nosso Lupicínio.

Na rádio Amália, de Lisboa, faz sucesso uma música de Marisa Monte. Pena que não consegui encontrar no you tube pois não sei o nome do cantor. Coloco-a aqui cantada pela Marisa. Talvez algum de vocês encontre a “versão” portuguesa.


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