Ler Borges sempre me aflige um pouco.
Não porque, numa primeira leitura, eu nem sempre consiga entendê-lo por completo. Há tantos estudos sobre sua obra, que isso se resolve com certa facilidade. O que me aflige é ver a quantidade enorme ( ia dizer infinita mas seria demasiado) de camadas ou níveis de compreensão de cada texto. Parece que ele precisa sempre controlar-se para que cada conto seu, cada poema ou ensaio não seja uma planta com mil raízes que vão se espalhando, aí sim, ao infinito: uma reflexão levando a outra que leva a outra e a outra...
Não acredito que, na entrevista sobre a qual fala o texto abaixo, ele esteja “se fazendo”. Acho que, de verdade, ele sempre quis ser alguém diferente ( best-seller é exagero). Acho também qu faz uma correta a avaliação da própria poesia. Ainda que terrivelmente bonita, a poesia de Borges não é musical. Aliás, a sua vida, apesar de bonita, nunca foi “musical” no sentido de harmoniosa, existiu sempre um descompasso entre o que escrevia e o que vivia. O texto é de José Castello e foi publicado no O Globo sob o título Borges, o Evangelista.
“ Sempre se fala da inigualável habilidade intelectual de Jorge Luis Borges. De sua erudição incomum, da frieza e elegância de seus argumentos, de sua mestria. Borges, o grande jogador, a mover as palavras como peças de um xadrez metafísico. Borges, o grande leitor, uma biblioteca encarnada em um homem.
Releio (em Os escritores e a literatura, 1984, editora Dom Quixote, Lisboa) uma velha entrevista que Borges deu, no início dos anos 1980, à jornalista francesa Madeleine Chapsal. Já estava quase cego. Já era um gênio. Talvez um deus. Os críticos e intelectuais o consideravam um intocável. Ajoelham-se diante de Borges, com um fervor quase religioso. A literatura, volta e meia, produz essas distorções. Essas monstruosidades. Serena, Madeleine os despreza. E Borges se aproveita disso para, com discreta alegria, renegar a máscara que carrega.
A jornalista pede que ele fale de sua poesia. Borges se assusta: "Eu? Não sou o poeta que gostaria de ser". Acredita que escreve meditações, e não poesia. Para Borges, existem dois tipos de poetas: os inspirados (Whitman) e os que fazem objetos (Mallarmé). Não se espelha em nenhum dos dois modelos. "Interesso-me pela peripécia, pelo que é épico. Veja os Evangelhos, contêm ao mesmo tempo o épico e a peripécia. E daí o seu êxito".
Sem que Madeleine o provoque, Borges lhe confessa uma frustração. "Gostaria de fazer o contrário do que faço! Gostaria de fazer uma poesia que fosse uma música... E parece que há pouca música na minha poesia". Destruindo, em um só golpe, a imagem tão venerada, ele arremata: "No entanto, eu não gosto de poesia intelectual".
Há algo de irônico nesse Borges que se declara um anti-intelectual. E que se vê como um evangelista apesar de si. Não posso deixar de pensar: a imagem de um Borges Evangelista compõe melhor com o séquito fanático de borgeanos. E, no entanto, Borges, sem nenhuma fé, desejava ser um outro.
Borges sonha com uma música que não pode ouvir ou, pelo menos, não consegue escrever. Mesmo com desgosto, persevera no caminho que o desagrada. Épica e peripécia sugerem a improvável imagem de um Borges best-seller. Um Borges hollywoodiano, que deve ser lido nas piscinas e nos aviões. A negação de Borges.
Reencontro na antiga entrevista um elemento em geral descartado de seu perfil: a delicadeza. E, ainda, um certo desencanto, uma amargura, que procedem da consciência de que um escritor não escolhe o que faz. Borges insatisfeito com Borges: pode haver idéia mais assustadora? Contudo, ela está aí, na entrevista a Madeleine.
Pergunta-lhe, ainda, Madeleine Chapsal se um escritor está consciente de tudo o que escreve. Borges é feroz: "Se está consciente de tudo, não vale nada! É preciso que ele seja um pouco inocente. Um poeta não deve ser inteligente. A criação deve acontecer como num sonho". Em quatro frases, esfarela-se a figura do grande sábio.
E agora sou obrigado a pensar que Borges escrevia contra si mesmo. Só a contragosto tornou-se Jorge Luis Borges. Ser Borges o incomodava. Mais que isso: o desmentia! O Evangelho segundo Borges é um texto indigno de confiança. O bando borgeano precisa encontrar outro deus.”
José Castello - O Globo - 22 junho 2011



