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Posts de junho 2011

Borges

27 de junho de 2011 4


Ler Borges sempre me aflige um pouco.

 Não porque, numa primeira leitura, eu nem sempre consiga entendê-lo por completo. Há tantos estudos sobre sua obra, que isso se resolve com certa facilidade. O que me aflige é ver a quantidade enorme ( ia dizer infinita mas seria demasiado) de camadas ou níveis de compreensão de cada texto. Parece que ele precisa sempre controlar-se para que cada conto seu, cada poema ou ensaio não seja uma planta com mil raízes que vão se espalhando, aí sim, ao infinito: uma reflexão levando a outra que leva a outra e a outra…

Não acredito que, na entrevista sobre a qual fala o texto abaixo, ele esteja “se fazendo”. Acho que, de verdade, ele sempre quis ser alguém diferente ( best-seller é exagero). Acho também qu faz uma correta a avaliação da própria poesia.  Ainda que terrivelmente bonita, a poesia de Borges não é musical. Aliás, a sua vida, apesar de bonita, nunca foi “musical” no sentido de harmoniosa, existiu sempre um descompasso entre o que escrevia e o que vivia. O texto é de José Castello e foi publicado no O Globo sob o título Borges, o Evangelista.


 “ Sempre se fala da inigualável habilidade intelectual de Jorge Luis Borges. De sua erudição incomum, da frieza e elegância de seus argumentos, de sua mestria. Borges, o grande jogador, a mover as palavras como peças de um xadrez metafísico. Borges, o grande leitor, uma biblioteca encarnada em um homem. 


Releio (em Os escritores e a literatura, 1984, editora Dom Quixote, Lisboa) uma velha entrevista que Borges deu, no início dos anos 1980, à jornalista francesa Madeleine Chapsal. Já estava quase cego. Já era um gênio. Talvez um deus. Os críticos e intelectuais o consideravam um intocável. Ajoelham-se diante de Borges, com um fervor quase religioso. A literatura, volta e meia, produz essas distorções. Essas monstruosidades. Serena, Madeleine os despreza. E Borges se aproveita disso para, com discreta alegria, renegar a máscara que carrega.


A jornalista pede que ele fale de sua poesia. Borges se assusta: “Eu? Não sou o poeta que gostaria de ser”. Acredita que escreve meditações, e não poesia. Para Borges, existem dois tipos de poetas: os inspirados (Whitman) e os que fazem objetos (Mallarmé). Não se espelha em nenhum dos dois modelos. “Interesso-me pela peripécia, pelo que é épico. Veja os Evangelhos, contêm ao mesmo tempo o épico e a peripécia. E daí o seu êxito”.


Sem que Madeleine o provoque, Borges lhe confessa uma frustração. “Gostaria de fazer o contrário do que faço! Gostaria de fazer uma poesia que fosse uma música… E parece que há pouca música na minha poesia”. Destruindo, em um só golpe, a imagem tão venerada, ele arremata: “No entanto, eu não gosto de poesia intelectual”.


Há algo de irônico nesse Borges que se declara um anti-intelectual. E que se vê como um evangelista apesar de si. Não posso deixar de pensar: a imagem de um Borges Evangelista compõe melhor com o séquito fanático de borgeanos. E, no entanto, Borges, sem nenhuma fé, desejava ser um outro.


Borges sonha com uma música que não pode ouvir ou, pelo menos, não consegue escrever. Mesmo com desgosto, persevera no caminho que o desagrada. Épica e peripécia sugerem a improvável imagem de um Borges best-seller. Um Borges hollywoodiano, que deve ser lido nas piscinas e nos aviões. A negação de Borges.


Reencontro na antiga entrevista um elemento em geral descartado de seu perfil: a delicadeza. E, ainda, um certo desencanto, uma amargura, que procedem da consciência de que um escritor não escolhe o que faz. Borges insatisfeito com Borges: pode haver idéia mais assustadora? Contudo, ela está aí, na entrevista a Madeleine.


Pergunta-lhe, ainda, Madeleine Chapsal se um escritor está consciente de tudo o que escreve. Borges é feroz: “Se está consciente de tudo, não vale nada! É preciso que ele seja um pouco inocente. Um poeta não deve ser inteligente. A criação deve acontecer como num sonho”. Em quatro frases, esfarela-se a figura do grande sábio.


E agora sou obrigado a pensar que Borges escrevia contra si mesmo. Só a contragosto tornou-se Jorge Luis Borges. Ser Borges o incomodava. Mais que isso: o desmentia! O Evangelho segundo Borges é um texto indigno de confiança. O bando borgeano precisa encontrar outro deus.”


                                 José Castello – O Globo – 22 junho 2011


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Brasil X Portugal

23 de junho de 2011 2

Uma amiga mandou essa matéria publicada da revista Época de 18 de junho passado ( Danilo Venticinque e Luís Antônio Giron).  Concordo com algumas afirmações, duvido de outras.

O crescimento econômico tem reflexos na literatura, sim, mas a longo prazo através da melhora na escolaridade. Tempos duros levam à introspecção e, essa, à literatura. A música popular brasileira conheceu seu grande momento durante a ditadura quando, por tudo ser proibido, era preciso inventar novas vozes.  

Que há “apadrinhamentos” aqui também é verdade, mas acho ingenuidade achar que em Portugal o elogio gratuito não exista. Os bons escritores brasileiros e portugueses, desde Eça, desde Machado, sempre foram muito exigentes consigo mesmos. O resto, é talento pois  il faut d´abord être poète (Duhamel e Vildrac).

“ No terreno da produção cultural, comparar Portugal e Brasil pareceria até desleal. Além de ter uma população 20 vezes maior que a de sua antiga metrópole, o Brasil tem passado por transformações econômicas e sociais que repercutem, positivamente, na produção artística do país. Apesar disso, a literatura brasileira derrapa, enquanto uma nova geração de autores portugueses ocupa as prateleiras, seduz a crítica internacional, arrebanha leitores e deixa os ficcionistas brasileiros a ver navios. Por quê?

À primeira vista, há pouco em comum entre os escritores que formam a atual geração de romancistas portugueses. O mais novo deles, Jorge Reis-Sá, tem apenas 34 anos. O mais velho, Miguel Sousa Tavares, já chegou aos 59. Enquanto alguns flertam com a linguagem experimental, como Valter Hugo Mãe, outros, como Inês Pedrosa, mostram-se mais conservadores – além de escrever em um estilo mais tradicional, a autora milita contra a reforma ortográfica e afirmou que não vai se render às novas regras. “Cada autor está interessado em criar livremente o que a sua natureza permitir”, afirma Mãe, um dos escritores convidados para a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). “Existem alguns de que gosto muito, outros de que gosto e uns quantos de que não gosto nada.”

O tom pouco condescendente revela uma das diferenças entre a cena literária brasileira e a portuguesa: não há espaço para camaradagem. “No Brasil, todos os escritores se conhecem, se gostam e se elogiam. O panorama português é um panorama mais tenso, mais ácido”, diz o crítico literário Luiz Maffei, pesquisador do Real Gabinete Português de Leitura.

A atitude crítica dos autores também se manifesta no conteúdo das obras. “A literatura portuguesa contemporânea destaca os aspectos sombrios da modernidade”, diz o crítico Manuel da Costa Pinto, curador da Flip. “A literatura brasileira é urbana, foca espaços da realidade periférica e não tem tanto vínculo com seu passado.” A obsessão brasileira pela questão social – ou mesmo o neorregionalismo de um Milton Hatoum – dá à literatura feita aqui um caráter local e provinciano, muito aquém da reflexão e dos vastos panoramas dos portugueses. O nosso pensamento crítico volta-se para temas como a luta de classes e a desigualdade social. Mas esses questionamentos se fundem a uma celebração ingênua da vida do país, sobretudo em romances que adotam a periferia como cenário. Para os autores brasileiros, seu país merece elogios, apesar de seus defeitos. Os portugueses encaram Portugal – e o homem português – como um problema a ser discutido e revisitado incansavelmente.

Um dos expoentes dessa tendência é José Luís Peixoto, de 36 anos. Apesar da pouca idade, o romancista e dramaturgo tem um currículo admirável. Em 2001, seu romance Nenhum olhar venceu o Prêmio Literário José Saramago e recebeu elogios do patrono da premiação. Outros romances do autor ganharam destaque em publicações internacionais, como o jornal inglês The Independent, o francês Le Figaro e o espanhol El País – uma projeção dificilmente obtida por um escritor brasileiro de qualquer idade e certamente inédita entre escritores da mesma geração que os portugueses. No exterior, Peixoto é elogiado por usar uma escrita moderna e experimental para falar de realidades arcaicas.

Entre os candidatos a sucessores de José Saramago (1922-2010), único escritor de língua portuguesa a vencer o Nobel de Literatura, a principal aposta dos acadêmicos é Gonçalo M. Tavares, de 40 anos. Nascido em Luanda, Angola, e criado em Portugal, Tavares já foi traduzido para mais de 40 idiomas. O único brasileiro comparável a ele em importância, Bernardo Carvalho, de 50 anos, chega à marca das dez línguas, sem grande repercussão crítica. Em 2007, Tavares foi o primeiro autor português a vencer o prêmio Portugal Telecom. “Gonçalo não tem o direito de escrever tão bem aos 35 anos. Dá vontade de lhe bater”, disse José Saramago.

Tavares diferencia-se dos conterrâneos por buscar uma literatura menos baseada em Portugal e mais inspirada na tradição centro-europeia. Em sua obra, as grandes navegações e a Revolução dos Cravos dão lugar ao Holocausto e à Segunda Guerra Mundial, e escritores como T.S. Eliot, Franz Kafka e Robert Walser tornam-se personagens. Ele exibe uma erudição e um patamar de ambição raramente atingidos por escritores brasileiros da mesma geração – mergulhados, em sua maioria, em romances violentos de sexo e ação, sob a influência do escritor mineiro Rubem Fonseca. Para que a próxima geração de autores brasileiros esteja mais próxima de Saramago do que de Fonseca, os portugueses contemporâneos são leitura obrigatória.”

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Risco sexual, por quê?

19 de junho de 2011 2

Porque pouco sabemos, de verdade, sobre o ser humano, ele não para nunca de nos surpreender. Estamos no século XXI e a perplexidade cerca ainda a nossa maneira de ser, pensar, amar e até mesmo de sofrer. 

No 7º Congresso Brasileiro do Cérebro Comportamento e Emoções, encerrado ontem em Gramado (RS) discutiu-se as razões de um comportamento que jamais pensei que pudesse existir.

O nome da prática é barebacking ou roleta-russa do sexo.

Nela, grupos de indivíduos não infectados com vírus HIV ( bug chasers – caçadores de vírus) transam com grupos de pessoas infectadas ( gift givers – os presenteadores).

Nesses encontros, marcados pela Internet, exige-se que todos fiquem nus e façam sexo em público ( para ter a certeza de que realmente o fizeram?). A explicação ( uma delas) seria a de que, uma vez infectados, o medo terminaria e não precisariam mais usar camisinha nas relações.

No congresso a que me referi acima, o pesquisador paulista Alexandre Saadeh, do Hospital de Clínicas de da USP fez uma abordagem científica da questão.

Segundo ele, a prática teria sua origem numa alteração no sistema de recompensa do cérebro, o responsável pelo prazer.

“No cérebro, a região responsável pela sensação de perigo está muito próxima à do prazer. Então existe uma interferência. O mecanismo que leva à roleta-russa sexual é a excitação do perigo. A mesma que leva alguém a fazer sexo na rua ou no avião”,  explica.

Explica? 

Pouco sabemos do nosso corpo, menos ainda da nossa mente.

Psicanálise e neurologia nos dão pistas, suspeitas de nós mesmos. Na verdade, nem elas mesmas se entendem. Já foram inimigas ferrenhas, excludentes, depois, amigas cordiais, agora parece que estariam dispostas a conviverem e a complementarem-se. Tomara.

Nós, pobres seres humanos, precisamos de toda a ajuda que conseguirmos obter.



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E se eu não tiver namorado?

10 de junho de 2011 2


Sabem do que eu não gosto no dia dos namorados? Não gosto da obrigação de ser feliz. Não gosto do que ele tem de parecido com o as festas de final de ano.

Não se pode negar: amor e sedução fazem parte das nossas vidas. Seduzimos todos os dias, o dia todo. Queremos ser amados. Nem sempre conseguimos e aí é que mora o perigo. Que perigo? O de cruzarmos a linha da dignidade, e, por medo da solidão, fazermos qualquer coisa para estarmos acompanhados.

Quem ama cuida, canta o Caetano. Mas, o que é cuidar? Com certeza, não é abafar e nem anular. Amor não é fusão, como alardeiam por aí. Fusão é medo, é mistura. Amar é cuidar, é querer estar junto, mas é também aceitar e até valorizar diferenças. Amor é cumplicidade, frase clichê  mas verdadeira. Só há cumplicidade entre dois iguais em importância, embora diferentes. 

Mas amor não pode ser apenas diferença, vocês dirão, amor é harmonia. Sim, mas a idéia de harmonia traz dentro de si a da diferença, só se harmonizam coisas distintas. Harmonia faz o mundo, ensinava Pitágoras, e faz também o amor.

Infelizmente, às vezes, por mais que duas pessoas sejam atraídas uma pela outra, as diferenças são tão grandes que se tornam irreconciliáveis e o amor, por ausência de harmonia, impossível. Nesses casos, já ensinava Ovídio para evitar sofrimento inútil, o melhor é deixar que se vá.

E, quando isso acontece, tentamos seguir adiante sozinhos, corajosos e independentes, senhores do nosso destino. Quando estamos quase conseguindo, vem o tal dia dos namorados e faz com que nós e todos aqueles que não estão acompanhados ou que, mesmo acompanhados, não estão em harmonia com seu parceiro, sintam-se excluídos.

Dane-se o dia dos namorados. A vida não é propaganda de televisão. Não é manhã de sol com gente magra ( ou nem tanto), jovem (ou nem tanto)  sempre bonita, cercada de sorrisos e cães labradores. As relações humanas são e sempre serão muito complicadas.

Se dependesse de mim, o dia dos namorados festejaria, não os casais mas os indivíduos. Festejaria todos nós que temos a coragem de estarmos sós porque reconhecemos ser o amor algo importante demais para submeter-se.

O dia dos namorados deveria homenagear a força dos que não fingem, a bravura dos que estão sozinhos, a coragem dos que ousam mudar, o entusiasmo dos que acordam todos os dias e querem ser felizes, dos que, mesmo sozinhos, sem nenhuma amargura valorizam o amor ainda que saibam o quanto ele é difícil.  

Se dependesse de mim, o dia dos namorados seria o dia do amor e não dos casais, pois aqueles que não conhecem o segredo de ajustar a própria existência neste tumultuado mar de tolos problemas que chamamos de vida estão em constante estado de miséria  enquanto tentam em vão parecer felizes e contentes. ( Kazuko Okakura,  O Livro do Chá). 


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Dr. Morte

07 de junho de 2011 2

No dia 3 de junho, aos 83 anos, faleceu o médico Jack Kervokian também conhecido como Dr. Morte. Seu apelido veio de sua participação direta no suicídio assistido de mais de 100 doentes terminais.

De 1990 a 1999 ( ano em que foi condenado a 8 anos de prisão pela morte do último de seus pacientes) o dr. Jack foi defensor ferrenho da eutanásia.

Aborto e eutanásia são e sempre serão assuntos polêmicos.

Sou, em princípio, contrária ao aborto  (ainda que respeite quem não o seja) e favorável à eutanásia.

Minhas razões, em ambos os casos, estão ligadas ao egoísmo.

Falta de dinheiro, pouca idade dos pais não são, na minha opinião, nem de longe, razões suficientes para interromper uma gravidez.

Também não estou convencida de que  não se deva dar a um bebê  com problemas de saúde a chance de nascer.  

Já meu coração fica sem rumo quando há risco grave para a saúde da mãe (principalmente se ela tem outros filhos) e, mais ainda, quando a gravidez é decorrente de estupro.

Se, no aborto, acho egoísmo negar o direito à vida, na eutanásia, acho egoísmo negar o direito à morte.

Absurdo prolongar o sofrimento de quem, condenado, quer abreviar o seu  tempo de dor.  

É complicado falar em teoria, cada caso tem suas características próprias, seus ângulos defensáveis. Mas, em tese, é assim que penso.

Por cinco vezes minha mãe foi internada na UTI e lá ficou respirando com a ajuda de aparelhos.

Na correria de lhe salvar a vida quebraram seus dentes, cortaram seus lábios, lhe quebraram uma costela, romperam suas veias, deixaram-na noites e dias intermináveis sozinha, longe de todos nós. As enfermeiras até que eram compreensivas e me deixavam ficar algum tempo além dos 30 minutos regulamentares da visita. Mas eu a via sofrendo. Foi um período muito ruim para nós duas, foi quando comecei a escrever poemas.

Tomar a decisão de que, por mais que a quisesse respirando, por mais que a quisesse ao meu lado, o que ela havia sofrido bastava. Decidir com ela que não a mandaria novamente para a UTI, que providenciaria em todos os recursos possíveis de sobrevivência mas que a deixaria morrer em paz, em casa, rodeada por seus filhos e netos foi uma das decisões mais difíceis que tomei.  Não me arrependo.


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Renato Teixeira e Guimarães Rosa

02 de junho de 2011 2

Por sugestão do meu amigo Álvaro (lembram dele? procurem no blog, tem um poema lindo feito por ele), essa bela parceria.

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O Livro com Du Moscovis e Christiane Jatahy

01 de junho de 2011 0

Desde o princípio, foi como estar dentro de uma metáfora, a do complicado caminho de quem trabalha com a arte. Uma rua deserta do centro, um prédio antigo, um grupo (pequeno) de pessoas. Junto-me a elas. Descemos alguns degraus até o elevador minúsculo e fraco (suporta o peso de quatro por vez). Apesar do nosso destino ser o sexto andar, subimos até o quarto, a altura máxima que o elevador consegue alcançar mesmo com apenas quatro pessoas. De lá, em fila, por uma escada estreita, em caracol, até o sexto andar.
Sala despojada, cortinas pretas, uma cadeira branca, luzes, a jarra com água, um copo, aparelhos para controlar luz e som, duas lanternas e, ao fundo, um rolo enorme de papel.
A presença imponente do rolo de papel escrito com tinta que só torna-se visível com a luz e que depois será desenrolado e cobrirá o “palco”, tem o dom de nos transportar ( mais do que para dentro de um palco) para dentro de um livro.
Não é um livro qualquer, é o símbolo da maldição de uma família: a cegueira ( não há como não pensar em Borges apesar de não haver nenhuma referência direta a ele).
De geração em geração, esse livro será entregue pelo pai ao filho que logo estará cego.
O texto original (extremamente poético) é de Newton Moreno, a interpretação (maravilhosa) de Eduardo Moscovis, a direção (excelente) de Christiane Jatahy.
Baseada em pesquisas feitas com pessoas que ficaram cegas, Christiane interfere direto no texto, cria o estranhamento, a ruptura e ( como já fez em Corte Seco) nos deixa suspensos entre o texto ral, “oficial” e a realidade que, na verdade, não é realidade mas apenas outro texto ( mais uma vez, Borges) .
O cenário, no seu aparente despojamento, tem toques geniais.
O rolo de papel escrito em tinta que apenas a luz ( justo o que o cego não tem) revela vai sendo, pouco a pouco, rasgado para que as palavras tomem forma, sejam moldadas, passando do visual para o táctil. A cortina do fundo que se abre ao final da peça revelando uma janela e a rua além dela inverte o lugar tradicional da “quarta parede” ( a platéia) do teatro ao mesmo tempo em que mostra uma abertura no desespero, uma nova maneira de olhar. São muitas as metáforas.
Tive a oportunidade de conversar um pouco com Christiane ao final do espetáculo. Em setembro, ela está voltando para o Porto Alegre Em Cena e, em julho, estará aqui com o longa A falta que nos move. Vale a pena acompanhar essa moça. Aplausos também para o Du Moscovis que não se limita a textos fáceis, pequenas peças comerciais, mas anima-se a ir adiante.

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