Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

Posts de julho 2011

Caça à raposa

30 de julho de 2011 2

Vocês às vezes não se sentem assim?, sem saída?
Um amigo fez referência a essa música num conto, eu não a conhecia.
Achei linda a letra.

Bookmark and Share

Luiz Felipe Pondé

17 de julho de 2011 1

O médico, professor e filósofo Luiz Felipe Pondé me parece um cínico.

Não, não estou falando mal dele. Cínico e cinismo são palavras que chegaram aos nossos tempos com sentido muito diverso do que tinham originalmente.

O cinismo era uma corrente filosófica que lá por 400 a. C. pregava o desapego aos bens materiais e uma crítica constante à sociedade.

A palavra — cínico— teria, segundo alguns, como origem o termo grego para cachorro; era quase como um cachorro que seu mais conhecido seguidor, Diógenes, vivia nas ruas de Atenas.

Inteligentíssimo, dizem que Diógenes morava num barril, fazia suas necessidades fisiológicas em praça pública e ali também se masturbava para, com esses atos, demonstrar seu desprezo às convenções sociais.

Ainda que não seja especialista nem em Pondé nem em Diógenes, impossível deixar de compará-los

Não sei se Pondé tem desapego aos bens materiais ( não me conste que more num barril e os seus óculos e o cachimbo me parecem bastante “vaidosos”) mas sei que, semelhante a Diógenes, ele não tem medo de nos agredir e de chamar a todos nós de idiotas.

Pondé fala mal da previsibilidade, do cinismo (agora no sentido moderno) e do artificialismo dos “jantares inteligentes” ainda que, ao que me conste, os freqüente. Acha o pessimismo muito mais produtivo que o otimismo. “…não faço filosofia para melhorar o mundo. O que nos humaniza é o fracasso.“ Acredita em Deus, entende que a vida não tem sentido. Chama a si mesmo de escritor para poucos, embora saiba que seus livros estão entre os mais vendidos e tenha aceitado ser colunista da Folha de São Paulo.

Não concordo com tudo o que Pondé diz ou faz, por isso mesmo gosto dele.

De forma contraditória, pois em geral exijo coerência, gosto que seja conflitante, multifacetado. Ou seja, gosto de Pondé porque, semelhante a Diógenes, ele irrita e, irritando, obriga a pensar.

Bookmark and Share

Por que as fêmeas traem ?

11 de julho de 2011 1

 Na estância sem televisão dos anos sessenta, conversávamos.

Em noites de pouco assunto, meu pai deixava de lado o mate e lançava uma provocação –  não sei de nada, o que sei é que homem é diferente: ele  pode, a mulher não pode…

O assunto voltava na mesma hora e com vigor.

Dedo em riste, mão esquerda na cintura ( uma característica familiar) minhas tias pulavam das cadeiras e a discussão, mais briga do que discussão, durava até a hora de se apagar o motor a diesel e ficarmos a mercê do sono e das velas.

Passaram-se cinquenta anos e a questão ainda é atual e mal resolvida.

Há um consenso antigo (combatido pelas feministas, deusas gregas, jovens liberadas e mulheres em geral) de que aos machos é permitido pular a cerca. Sabe-se até o porquê: macho que trai espalha sua semente, produz mais filhotes, dedica-se à nobre missão de garantir a continuidade da raça.

Fêmeas traidoras, no entanto, apenas traem.

Para elas, não há justificativa uma vez que, mesmo traindo, têm o mesmo número de filhotes e ainda se expõem (e aos filhos) a doenças sexualmente transmissíveis e ao escândalo.

Em resumo: como dizia meu pai sem dizer – homem que trai é benfeitor da raça, mulher que trai é puta.

Na prática,  pode-se constatar que há nessa afirmação jocosa fortes traços de verdade.

As “façanhas mulherengas” dos avôs são contadas pelos filhos e netos com risinhos condescendentes, diria até orgulhosos: meu avô era um grande safado… 

Por outro lado, as sempre negadas traições das “santas avós”  são empurradas para o fundo dos baús junto com outras vergonhas familiares. 

Se é assim, se há apenas desvantagens, por que as fêmeas traem?

As fêmeas humanas ainda podem ter a “desculpa” da paixão, mas e os animais?

Para tentar dar uma resposta, cientistas alemães estudaram, por oito anos, 1.500 “indivíduos” de uma espécie basicamente monogâmica de passarinhos mas com uma quota de infiéis— os mandarins ( Taeniopygia guttata). As conclusões do estudo foram publicadas na revista científica americana PNAS: as fêmeas traidoras provinham dos “haréns” de machos traidores, ou seja,  traiam porque tinham genes de traição herdados de seus pais promíscuos.

Aplicando o resultado aos seres humanos, Wolfgang Fortsmeier, chefe da pesquisa, declarou: Nós não sabemos quais genes estão envolvidos, e deve haver centenas deles. Infidelidade é um traço muito complexo que depende de uma coleção de traços de personalidade como extroversão, timidez e excitação sexual, e em seres humanos também de genes para atitudes morais.

Duas conclusões importantes eu e meus  botões tiramos. 

A primeira: parece que dessa vez,  só para variar, a culpa é do pai e não da mãe. 

A segunda: somos muito mais influenciados pelos  genes do que sonha a “vã psicanálise”.

 Em ambas estou, é claro, brincando um pouco. Mas há uma parte que não é brincadeira: parece que o casamento da neurologia com a psicanálise está cada vez mais tornando-se união indissolúvel, sem traições importantes.

Bookmark and Share

Invasões

01 de julho de 2011 1

Além do mate (andam por todo o lado com a cuia e a garrafa térmica), uma das peculiaridades do uruguaio é o beijo entre os homens. Usam o beijo (na bochecha, claro) como nós usamos o aperto de mão.

Para quem, como eu, vem de um país onde, por vezes, nem mesmo os pais têm coragem de beijar os filhos homens, esse hábito me parece muito simpático.

A naturalidade do gesto é tanta que, quando chegamos de viagem, os garagistas do prédio cumprimentam a  todos nós, inclusive ao meu marido, com um beijo no rosto.

Para a minha surpresa, ontem, uma das notícias de capa do El País foi – Policial punido por beijo: saudou a colega, mas na corporação só se admite “venia ( continência) o dar la mano”.

Como explicação o chefe Garcia ( tinha que ser Garcia…) , da corporação de Durazno, pequena cidade onde aconteceu o feito, alega que a punição ocorreu com base no regulamento que exige cabelo curto, para os homens, ou preso, para as mulheres, barba raspada, uniforme limpo e bem passado, etc, etc, etc….

Tudo bem, regras são regras, mas quando algo que é absolutamente natural num pais é restringido por preconceitos, digamos, “alienígenas”, é como se esse país tivesse sido invadido.

Para explicar melhor o que quero dizer, transcrevo um trecho do  Gonçalo M. Tavares ( Um Homem: Klaus Klump, editora Caminho). As imagens são diferentes, a ideia me parece a mesma.


“Um dia, Johana regressava da mercearia com três maçãs caríssimas, e escutou uma orquestra no meio da rua interrompida, e quase vazia de pessoas, tocava musicas que ela não conhecia. Não havia palavras, mas a música não era do seu país. Esta música não é daqui, pensou Johana, e começou  a correr muito, em direcção a casa, e enquanto corria, chorou.

A música é um sinal forte da humilhação. Se quem  chegou impõe a sua música é porque o mundo mudou, e amanhã serás estrangeiro no sítio que antes era a tua casa. Ocupam a tua casa quando põem outra música.”  

Bookmark and Share