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Posts de agosto 2011

Arthur Bispo do Rosário

21 de agosto de 2011 2

Canecas

Roda da Fortuna

roda

O que faz com que um objeto do quotidiano se transforme em objeto de arte. A intenção? A beleza?

As duas primeiras obras acima são de Arthur Bispo do Rosário. A terceira é de Duchamp.

Arthur era negro e pobre. Criado por uma família tradicional do Rio de Janeiro, foi marinheiro e funcionário da Light. Ainda jovem, teria tido uma visão na qual Deus lhe confiava a tarefa de preservar os objetos existentes no mundo para que não se perdessem no dia do juízo final.

Procurou um mosteiro para informar o ocorrido, foi diagnosticado como esquizofrênico e internado na Colônia Juliano Moreira em Jacarepaguá. Entre 1940 e 1960 alterna estadias no hospício e trabalhos provisórios em residências cariocas. Em 1964 retorna à Colônia.

Trancado num quarto, passou a reunir as coisas do quotidiano em pequenas coleções, ou a enrolá-las, feito múmias, em fios, que retirava de seu uniforme.

De todas, a obra talvez mais espetacular e conhecida é o manto que preparou para apresentar-se a Deus no dia do juízo final.

Sua qualidade estética é tão grande que se tornou famoso dentro e fora do Brasil, sua vida e obra foram tema de filmes, peças de teatro, livros, seus trabalhos percorreram o mundo.

Vivo ainda, ficou famoso. Dava entrevistas sob a condição de que o entrevistador adivinhasse a cor que via nele naquele momento.

Talvez por me perguntar sempre sobre os limites entre loucura e criação, sou fascinada pelo Arthur Bispo do Rosário.

Numa crônica recente (Ilustrada, 14 de agosto, 2011), Ferreira Gullar, embora reconhecendo seu inegável valor estético, não aceita que seja atribuída a Arthur a intenção de artista de vanguarda.

Conhecido opositor da arte conceitual (a que precisa de explicação para ser apreciada) e das Bienais, Gullar dissocia a obra do Bispo da arte contemporânea uma vez que as intenções de uma e de outra seriam totalmente diversas.

“… a natureza artesanal do que realizou – que lhe exigiu não só talento como maestria e dedicação – nada tem a ver com a arte contemporânea, que nasceu da negação do trabalho artesanal do artista, o que está evidente no nome “ready-made” – que significa já feito. “

Não faço essas coisas para as pessoas, mas para Deus, Arthur dizia, o que me leva a perguntar: afinal, o que faz a arte? A intenção de fazê-la?

No caso de Duchamp, (A roda de bicicleta ) parece que sim. É a intenção de fazer arte que transforma um objeto existente e de uso utilitário em objeto artístico.

No caso de Bispo do Rosário ( a Roda da Fortuna) é ao contrário.

Embora partindo também de objetos do quotidiano (colheres, chapéus, canecas) a arte acontece, é reconhecida e admirada, sem que tenha havido, por parte do artista, a intenção de fazê-la.

Arte parece ser o que nos leva além.

Por outro lado, não tendo a intenção de fazer arte, o que diferenciaria as “coleções”de Arthur de uma simples coleção como existem tantas por aí ? A beleza? O que é a beleza. No que nos baseamos para considera algo belo. Em nosso gosto pessoal, no da maioria, no dos europeus, no dos africanos?

Não sei exatamente, nunca estudei Estética na Filosofia. Aceito sugestões.

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Spousonomics

16 de agosto de 2011 0

Afirmar que amor e dinheiro andam juntos vai contra tudo o que pensa a minha metade mais verdadeira e teimosa, a que não se rende. No entanto, já vi demais nesse mundo para me animar a dizer que casamento e dinheiro não são parentes próximos.

A relação entre os dois, aliás, parece cada vez mais estreita. O casamento (amor?) está rendendo-se às leis econômicas ou, pelo menos, se expressando nessa língua específica, o economês.

Por quê? Não sei. Talvez porque a situação financeira venha subindo no ranking de coisas importantes na vida, talvez porque as pessoas passem muito tempo envolvidas com o trabalho, o jargão negocial vazou causando o aparecimento de livros falando do casamento, e (supostamente) do amor, numa linguagem antes usada apenas em economia.

Casais inteligentes enriquecem juntos, de Gustavo Cerbasi, foi um dos primeiros.

A novidade agora é “Spousonomics”, escrito por Paula Szuchman, editora do “Wall Street Journal” e Jenny Anderson, repórter do “New York Times”. Pelo que entendi da resenha, o livro promete decifrar até as “bolhas” que possam existir na vida conjugal.

A lei da oferta e procura, por exemplo, é aplicada à vida sexual. “Quando o custo do sexo se torna muito alto (em relação a tempo e energia gastos), você vai optar por uma tediosa noite de televisão e biscoitos”, dizem as autoras.

Para que não se transforme em produto “raro” ( e caro) a receita proposta  é ajustar o “custo” do sexo àquele que o casal pode “pagar”.

Quanto às “bolhas” (essas que acontecem quando as coisas sobem muito além do seu valor verdadeiro) as autoras recomendam não deixar que o romantismo e o sonho de perfeição levem o casal a alturas em que não se sustentem. 

“Eis como uma bolha de casamento arrebenta: os estressores começam a cobrar seu preço. Um de vocês perde o emprego e sua casa enorme, de repente, começa a sugar todo o seu dinheiro. Vocês brigam por dinheiro.”

 A linguagem pode ser estranha, mas faz sentido.


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Singularidades de uma rapariga loura

02 de agosto de 2011 3

Baseado num conto de Eça de Queirós, esse filme do cineasta português Manoel de Oliveira me causou, primeiro, um estranhamento, então me dei conta de que o estranhamento acontecia porque, nesse mundo de gritos e correria, o filme é, literalmente, uma pequena e discreta joia.

Como pequena joia, Singularidades precisa ser examinado com cuidado e atenção de lupa, cada cena é cheia de detalhes, como um quadro.      

O filme é realmente pequeno, ou curto — 63 minutos.

Manoel de Oliveira já começa brincando com esse fato: dos 63 minutos os primeiros 5 são gastos mostrando o fiscal do trem a perfurar os bilhetes dos passageiros como se, no frigir dos ovos, o tempo realmente não importasse.

Essa é a primeira entre muitas metáforas.

Não apenas o tempo não importa, ao trazer o poema do Caeiro (dos heterônimos do Fernando Pessoa, o mais desprendido de tudo, o mais estóico, digamos assim), Manoel de Oliveira afirma que toda a correria, nossa agonia de viver, nossos desejos são sem sentido, há que deixar a vida fluir com fluem os rios ( ou os trens).

Nossos desejos não tem importância, e, no entanto, o filme trata, basicamente, do desejo.

Não o desejo explícito, comum, ordinário. O filme mostra o desejo mais forte de todos aquele velado por leques, cortinas, proibições, segredos.

E, ainda, como caixinha de veludo onde se insere a joia, há que considerar-se a idade do cineasta: fará 103 anos em dezembro.


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