Para sermos criativos, é preciso conservar viva a criança que existe em nós. Os que dizem essa frase — que, de tão repetida, já virou clichê— estão pensando numa criança ideal. Infelizmente, há crianças e crianças. Por diversas razões, nem todas tem olhos criativos. Ter olhos de criança independe da idade. Alguns nascem com eles, outros precisam aprender a merece-los.
Ignácio de Loyolla Brandão conta que foi um adulto, uma professora quem, insistindo para que andassem com uma caderneta no bolso e nela escrevesse os detalhes do que via — o andar de um gato atravessando a rua, o brilho da lua sobre a lagoa, os olhos sonolentos de um velho tomando sol— o ensinou, ainda menino, a ver o mundo.
A Alberto Caeiro foi um menino, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, quem teria ensinado a ver como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas.
Segundo Rubem Alves, a forma de ver depende do onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles serão sempre apenas ferramentas, utensílio que nos ajudam na função prática de ver objetos, sinais, nomes de ruas, ingredientes numa receita. Nesse caso, o ver subordina-se ao fazer, o que, sem dúvida, é necessário, mas muito pobre.
Se, o entanto, os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.
Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos e os que moram na caixa dos brinquedos, das crianças? Nem sempre. Ver independe de idade ou condição social, não é instintivo, precisa ser aprendido.
E, porque acho que a primeira função da educação é ensinar a ver - eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar "olhos vagabundos”. (Rubem Alves)