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Posts de setembro 2011

Confiar desconfiando

18 de setembro de 2011 2

Saiu na Folha: vítimas do tsunami que atingiu o Japão conseguiram reaver o equivalente a R$ 76 milhões.

Esse dinheiro foi encontrado em cofres nas casas destruídas ou mesmo em bolsas e carteiras abandonadas pelas ruas. Como havia, nessas bolsas, cartões de crédito e documentos seus donos puderam ser  identificados e o dinheiro devolvido. Só a uma pessoa foi devolvido o equivalente a R$ 2 milhões.

Aconteceria o mesmo no Brasil?

Acho difícil. Como dizemos por aqui: achado não é roubado.  

Mas não é isso o que achei mais estranho e interessante.

Interessante é a razão pela qual havia tanto dinheiro nas casas japonesas: eles não confiam nos bancos.

Vai entender…


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Em que creem os que não creem?

15 de setembro de 2011 0

No dia 7 de setembro cem mil pessoas estavam na Bienal do Livro aplaudindo o padre Marcelo Rossi cujo livro Ágape (Globo Livros) já vendeu 6 milhões de exemplares.  Entre os “fãs” do padre ou do que ele escreve estava William P. Young , autor de A Cabana que já vendeu só aqui no Brasil 3 milhões de exemplares.

Há dois anos, na Bienal do Rio de Janeiro, eram 16 as editoras religiosas presentes na exposição. Este ano o número pulou para 25. Dos 4 livros mais vendidos no país três tem conteúdo religioso.

Essa ânsia por espiritualidade numa época onde a corrupção, em todas as suas formas,  é o assunto que ocupa o maior espaço na mídia me fez lembrar de um pequeno livro chamado Em que creem os que não creem? (editora Record).

Formado pelas cartas trocadas entre Humberto Eco e o cardeal Carlo Maria Martini, ele trata de religião e ética ou, em outras palavras, discute as justificativas para o agir moral dos não religiosos (ateus ou agnósticos).

Embora a discussão seja complexa e muito interessante, de forma simplista, reduzindo a montanha a uma montículo, acho que todos nós concordamos que não é necessário ser religioso para ser ético. Minha dúvida aqui e agora é outra.

Para os católicos, um arrependimento de última hora é suficiente para alcançar o perdão pelos pecados de toda uma vida.

Fico pensando se essa facilidade de perdão não aproxima o catolicismos  ( que é, em princípio, a minha religião) do nosso sistema judiciário.

Ambos são repletos de leis e regras mas, na prática,  pouco efetivos no castigo.

O que me leva a outra pergunta: o ser humano precisa da perspectiva do castigo ( humano ou divino) para agir corretamente?  

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Onde você estava quando...

13 de setembro de 2011 2

Vocês já notaram como em datas que marcam os grandes eventos ou grandes tragédias (chegada do homem à lua, morte de Kennedy, ataque à torres gêmeas), as pessoas sempre perguntam onde você estava ?  

Li em algum lugar que os menores delinquentes quebram a lei por ser essa uma forma de se sentirem filhos. Rebeldes, é verdade, mas filhos. Ser filho rebelde da sociedade é melhor do que ser excluído.

Será que ao nos perguntarmos onde estávamos quando fazemos algo semelhante? Será que essa é uma forma de nos incluirmos naquele fato ou tragédia que mudou ou marcou a humanidade?

Quando mataram Kennedy não lembro onde estava.

Quando o homem chegou à lua, eu estava em Ouro Preto, feliz da vida porque viajava pela primeira vez sem a família. Um pequeno passo para a humanidade, um grande passo para mim.

No dia 11 de setembro de 2001, eu estava no quarto da minha mãe esperando o médico chegar. Ela, muito fraca — morreria dois meses depois —  embora lúcida, não demonstrou o menor interesse pelo que a televisão mostrava em detalhes. Para ela, o mundo se havia reduzido ao próprio corpo.

Eu, passado o primeiro instante, o do não entendimento, pois tudo aquilo era irreal demais para doer, fiquei ali, ao lado dela, egoisticamente consolada, pensando que, bem no fim, minha mãe tinha sorte, pois morreria em sua cama e não num inferno de fogo, cimento e vidro; seu último respirar seria cercado de amor e não de ódio. Pensei também em mim, é claro (sempre pensamos em nós mesmos). Pensei que, como diziam os antigos: para morrer, basta estar vivo.

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Uma brincadeira difícil

10 de setembro de 2011 2

Para sermos criativos, é preciso conservar viva a criança que existe em nós. Os que dizem essa frase — que, de tão repetida, já virou clichê— estão pensando numa criança ideal. Infelizmente, há crianças e crianças. Por diversas razões, nem todas tem olhos criativos. Ter olhos de criança independe da idade. Alguns nascem com eles, outros precisam aprender a merece-los.

 

Ignácio de Loyolla Brandão conta que foi um adulto, uma professora quem, insistindo para que andassem com uma caderneta no bolso e nela escrevesse os detalhes do que via — o andar de um gato atravessando a rua, o brilho da lua sobre a lagoa, os olhos sonolentos de um velho tomando sol— o ensinou, ainda menino, a ver o mundo.  

A Alberto Caeiro foi um menino, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, quem teria ensinado a ver como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas.

 

Segundo Rubem Alves, a forma de ver depende do onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles serão sempre apenas ferramentas, utensílio que nos ajudam na função prática de ver objetos, sinais, nomes de ruas, ingredientes numa receita. Nesse caso, o ver subordina-se ao fazer, o que, sem dúvida, é necessário, mas muito pobre.


Se, o entanto, os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.

 

Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos e os que moram na caixa dos brinquedos, das crianças? Nem sempre. Ver independe de idade ou condição social, não é instintivo, precisa ser aprendido.

 

E, porque acho que a primeira função da educação é ensinar a ver – eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar “olhos vagabundos”.  (Rubem Alves)

 

 


 

 

 

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