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Posts de outubro 2011

Não esperem que os filhos cresçam

31 de outubro de 2011 1

Não sei se a preocupação ainda existe. Na verdade, nem sei se, mesmo no meu tempo, ela era verdadeira ou servia apenas para esconder o medo de recomeçar. Estou falando do “costume”, muito comum quando eu era jovem, dos pais esperarem os filhos crescerem para tomarem a decisão de se separarem.

Naqueles tempos pensava-se que, se os filhos fossem mais velhos, o sofrimento de uma separação seria abrandado. Com isso, o que se conseguia, na maior parte das vezes era apenas adiar a possibilidade de refazer a vida com novos parceiros.

Leio numa revista portuguesa um artigo a respeito e a conclusão que os especialistas chegam é de que não há uma idade ideal: o fato de os filhos serem maiores não lhes abranda o sofrimento, ao contrário. Não pela separação em si, mas porque, por serem jovens adultos, os pais tendem a tratá-los com iguais e não escondem informações, mesmo as mais sórdidas.

Pior do que as acusações, esse pedido mesmo que inconsciente de “gostem mais de mim do que dele ( ou dela)” só o acúmulo da culpa:  esperei tanto tempo para tomar a decisão por tua causa.

Segundo Sofia Nunes da Silva, psicóloga infantil citada no artigo: No fundo, e por muito duro que possa parecer, é uma decisão deles, não tem nada a ver com os filhos.

Ou não entendi bem a afirmação ou penso que aí há um exagero. Claro que a decisão é dos pais, mas tem, sim, a ver com os filhos, irá, com certeza afetá-los nem que seja apenas do ponto de vista econômico.

A maneira como a  separação será apresentada, como tudo na vida, é questão de bom senso, vai depender da idade e do grau de maturidade dos filhos. O mais importante, creio, é dar-se conta de que, mesmo quando adultos, eles são filhos não amigos e, portanto, estarão sempre emocionalmente envolvidos, divididos entre pai e mãe. O importante, creio eu, é reduzir a culpa por essa divisão.

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Afinal, do que rimos nós?

24 de outubro de 2011 2

Um dia, minha mãe entrou no que pensava ser o velório de um senhor que a atendia no banco. Compungida, fez o sinal da cruz, rezou um pouco, deu os pêsames à família. Quando chegou perto do caixão viu que o defunto era outro, aliás sequer era defunto, era defunta. Disfarçando o acesso de riso num “choro” convulsivo, minha mãe fugiu covardemente do velório e das explicações.

A situação era engraçada? Sob algum aspecto, que não o da morta ou da família, sim. Mas, como diria minha neta de três anos: por quê?

Sempre me pergunto por que rimos. Morte no funeral é um filme muito engraçado que se passa inteiramente durante um velório. A cena do anão gay (sim, tem um anão gay ) é hilária.

Por que precisamos segurar o riso quando alguém cai ou leva uma pancada, por exemplo? Essa situação de tombos e pancadas é tão clássica que os palhaços a exploram à exaustão. O riso é, numa definição rasa, aproximação, simpatia. Mas não apenas. Se fosse, minha mãe não riria no velório e nós não riríamos vendo alguém quebrar a perna no programa do Faustão.

Li em algum lugar que, nesses casos, o riso, ao invés de ser aproximação é afastamento. Ao rirmos, estamos afirmando:  eu não sou ele, comigo não vai acontecer dessa forma.

Segundo Jô Soares (aliás, por que o Jô sempre foi mais engraçado gordo do que magro?), segundo Jô Soares: não há limites no humor mas há uma linha tênue entre humor e grossura. Se tem graça, é humor. Se não tem, vira grossura.  

Disse mas não esclareceu, ou, como diria mais uma vez a minha neta que quer tudo bem explicadinho: mas, por quê?

Leio na Folha que a “moda” agora são blogs, sites, livros e programas que fazem piadas sobre o câncer. Um dos blogs,  o da cartunista Amy Marash, autora do livro Cancer is so funny, retrata, através de desenhos, os medos, angústias e alegrias de sua luta contra um câncer colorretal  avançado com metástase no fígado.

A coisa toda não se resume apenas em livros e blogs. Há filmes, como a comédia 50/50, seriados de TV, como The Bic C, reportagens.

A sociedade de oncologia apoia (é claro) a iniciativa. Diz que o bom humor é fundamental, que boas risadas liberam endorfina o que incentiva o sistema imunológico.  

Sydney Love, portador de um câncer de próstata, conta que no início sentia-se incomodado com as piadas sobre câncer mas, depois de três meses já participando de um grupo de apoio a pacientes oncológicos, percebi que mais ríamos do que chorávamos.

Se além de aproximação, o riso é um afastamento, estariam essas pessoas se afastando da doença? Ou, a encarando e rindo dela?

Até pouco tempo atrás, sequer diziam a palavra, agora fazem piada?  O ser humano é mesmo surpreendente.

Mas, afinal, do que rimos nós?

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O Rei e minha prima

19 de outubro de 2011 2

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Respeito é bom e elas merecem

19 de outubro de 2011 1

Por várias razões: porque fui gentilmente convidada, porque eu o assisti há alguns anos quando dividiu o palco com o  Pavarotti e achei que se saiu muito bem, porque gosto das letras das músicas que faz (principalmente quando cantadas por outros), porque é, sem dúvida,  um fenômeno de carisma,  fui assistir ao show do Roberto Carlos.

Gigantinho lotado, cartazes, expectativa, senhoras suspirantes ( sou também, apenas não especificamente em relação ao Roberto), tudo exatamente como eu pensava que estaria. Atendimento da organização e da empresa que me convidou: nota 10! Preparada para me divertir, entrei no clima das rosas vermelha e aí veio o inesperado estragar tudo:  um atraso de uma hora e dez minutos!!

Quando o Rei chegou, uma hora e dez minutos após o horário, o maestro ainda pretendeu  ( e conseguiu) fazer o público cantar  Eu te amo. Ora bolas, tenham a santa paciência!,  como diria o meu pai.

É o Rei, me explicaram, há que esperar .  Desculpem, mas justamente porque é o Rei, não pode fazer uma coisa dessas: o galpão tem direitos não apenas deveres, diria a dona Luzia do meu Atado de Ervas. Indignadas, eu e minhas amigas ficamos apenas o tempo suficiente para que nossa carona chegasse  e fomos embora.

Confesso que saí triste. Quem ( ou o que) acostumou nosso povo a ideia  de que  não precisa ser respeitado?

Em qualquer teatro do mundo –  Metropolitan, em Nova York, as duas Óperas de Paris, Ópera de Sydnei, Austrália – o espetáculo começa no horário ou explica bem explicadinho porque não começou. Uma questão de respeito.

Lembro de uma história que minha mãe contava, não sei se é verdadeira ou só uma fábula.

Contam que uma senhora (uma rainha?) muito elegante recebeu para o jantar pessoas mais simples. Uma delas, não sabendo que aquela tigelinha com água e uma rodela de limão que colocaram à sua frente depois de retirarem o prato das perdizes servia para lavar os dedos ( uma lavanda), bebeu seu conteúdo como se fosse um chá. Os outros convidados se entreolharam e sorriram, superiores. A anfitriã, como se nada tivesse acontecido, pegou sua tigelinha e dela também bebeu. Respeito e cortesia, isso caracteriza uma rainha. O resto é figuração.


Ps – numa sintonia fina, recebo, nesse instante,  de uma prima a quem contei a história, a foto que vou postar aqui e um pedido:  Não fala mal do Roberto!   Desculpa, Rejane, mas agora já falei…

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Lilinho

16 de outubro de 2011 1

Quando minha neta tinha 3 anos, ganhou, da nossa cozinheira, uma galinha, a Nanica. Era uma galinha garnizé branca que, dia sim, dia não, punha um ovinho, mas cuja qualidade maior era a paciência. A Nanica se deixava levar no colo, descia com minha neta pelo escorregador, andava de balanço:  uma companheirona.

Um dia, assim como dizem que Deus fez com Adão, achamos a Nanica solitária e compramos um galinho, o Nanico. Dessa feliz união nasceram 3 pintinhos que não chegaram a ter nomes porque, naquela semana, um gato ou  um gambá, um bicho desses, noturnos, matou a família inteira dos Nanicos.

Felizmente a tragédia aconteceu durante um feriado prolongado, minha neta estava viajando e, assim, alguns dias se passaram até que  viesse e desse falta da Nanica.

Cadê a Nanica?, ela perguntou, assim que desceu do carro.

Talvez o mais correto tivesse sido eu dizer, a Nanica morreu, mas, confesso, não tive coragem. Não quis aproveitar a Nanica como pretexto para  apresentar a morte a minha neta, disse apenas:  A Nanica, foi pra casinha dela.

Perdi a oportunidade de ensiná-la a lidar com a frustração? Talvez, só que naquele momento, como ainda agora, quase um ano depois,  minha neta não se daria por satisfeita  com essas palavras – a Nanica morreu –  porque naquela ocasião, como ainda agora, ela não sabe exatamente o que é a morte.

Se eu dissesse  – a Nanica morreu – ela certamente  perguntaria:  o que é morrer? e eu teria que dizer que morrer é sumir, desaparecer para nunca mais.  

Então ela perguntaria o que todas as crianças costumam perguntar:  por que? E eu teria que explicar que não existe porquês, que é assim mesmo,  as plantas morrem,  os bichos e as pessoas, por mais que sejam amadas, morrem, que nós todos, inclusive ela, um dia iremos morrer.

Não satisfeita, minha neta perguntaria de novo mas, por que? E eu teria que ir adiante, explicar, talvez que a vida é assim mesmo, que nascemos todos condenados e que até mesmo  Deus,  que pensávamos imortal, foi recentemente declarado morto.    

Escolhendo dizer que a Nanica não estava porque tinha ido para a casinha dela, dei à minha neta a chance de, a partir da ficção, aceitar a ausência aos poucos, sem muitos questionamentos.

Agora, quase um ano depois, embora ainda não entenda com clareza o que é a morte ( alguém entende?),  minha neta  sabe que a Nanica morreu, morte é quando a gente não está mais, só que agora  a figura da Nanica já está  diluída e sua ausência não dói tanto.

Por que estou falando sobre isso?

É que durante essa semana foi lançada a campanha institucional de uma rede de farmácias aqui de Porto Alegre. No filme, os pais de uma menina precisam decidir se contam ou não a ela que seu peixinho vermelho,  o Lilinho  está  dormindo de um jeito engraçado  dentro do aquário porque está morto.

Semelhante a mim, os pais do comercial resolvem adiar o encontro da criança  com a morte só que, ao invés de dizerem que o Lilinho foi, por exemplo, para o mar,  optam por substituir o peixe morto por um outro, igual.

Desde que foi lançado, o filme tem gerado polêmica: deve-se ou não adiar o encontro de uma criança de 4 anos com a realidade da morte.

Uma jornalista, a quem não conheço pessoalmente, mas a quem respeito muito como profissional e como escritora, se posicionou francamente contra. Disse que, embora seja, apenas um comercial inocente tentando contar uma história terna, o filme  expõe a dificuldade dos pais de hoje de  lidar com as frustrações dos filhos e que se trocassem o que chama de a lei do Lilinho pela Lei de Nietzsche –  aquilo que não nos mata nos torna mais fortes-  eles teriam mais chance de fazer de seus filhos adultos generosos e relativamente equilibrados.

Embora concorde com Nietzsche e também com minha avó que dizia,  o que não mata, engorda,   discordo cordialmente dessa  jornalista.  Discordo, primeiro, porque  não acho que a dificuldade  a que ela se refere seja dos pais de hoje, ela sempre existiu.  Segundo, porque, como já contei, agi de forma semelhante, e, por fim, porque  não penso que o filme seja apenas um comercial inocente tentando contar  uma história terna.

É que, diferente dela, eu conheço a história atrás do comercial. Vi essa rede de farmácias nascer. Sei que uma das razões pelas quais ela progrediu, talvez a principal, foi porque seus criadores entenderam, desde o início que , assim como acontece nos hospitais, a doença e a morte rondam as farmácias. Por isso, numa farmácia, é importante interferir, apoiar, amparar as pessoas,  atende-las com paciência e, dentro do possível, preservá-las, não da morte, pois isso é impossível, mas da tristeza infinita  que a doença e a morte  vestem quando se apresentam.

Não, minha querida jornalista, o comercial não é só um filminho sobre um peixinho vermelho.  É um filme sobre um segredo que, na verdade, não é segredo nenhum porque está presente em todas as empresas de sucesso. Tu mesma deves conhece-lo muito bem uma vez que  convives  diariamente com ele.

A rede de comunicação onde trabalhas (e que, tenho certeza, orgulhosa, consideras como tua) nasceu de uma história, a história da dona Rosinha que se mudou de uma cidade minúscula para outra, um pouco maior, para que seu filho mais velho, o Maurício, pudesse estudar.  Progrediu porque esse Maurício e seu irmão mais moço, o Jayme, vieram para a cidade grande  e  trabalharam duro e a esposa do Maurício também trabalhou duro e hoje seus filhos e netos continuam trabalhando duro,  mas mantém-se grande principalmente porque, sem jamais esconder a verdade, sempre se importou ou, dizendo de outra forma,  sempre pensou mais nas pessoas do que nos números.

Tragédias existem muitas e há jornais que vivem delas, sem piedade. Não me parece ser o caso da empresa em que trabalhas. Discreta, sem esconder a verdade, ela tem o seu ritmo e permite que as pessoas assimilem, com calma, o mundo e suas mazelas.

A dureza da verdade, as frustrações são importantes para o crescimento pessoal?

Sim, são fundamentais. Sem enfrenta-las, ninguém se torna realmente uma pessoa, mas voltando ao Lilinho, discordo da tua crônica pois penso que existe um tempo para tudo.  Tempo de enfrentar, tempo de consolar, tempo até mesmo de ler Nietzsche e tentar compreender o incompreensível.  Se esse tempo chegar na hora certa, que bom!, se chegar cedo demais,  será mesmo tão prejudicial interferir  e adiar a tristeza até o momento em que ela possa ser entendida?

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Agruras de uma CDF

13 de outubro de 2011 0

Nesse último mês, fiz um pouco de tudo.  Ajudei, através da Associação Ligia Averbuck, a  promover  uma campanha em favor do IEL  (entrem no blog do Instituto Estadual do Livro www.ielblogspot.com  para ver como está legal) , fiz o lançamento do meu romance Atado de Ervas ( disponível nas melhores casas do ramo) , recebi o pessoal do Porto Alegre em Cena para um almoço muito divertido, organizei o “encontro dos primos”,  estou, junto com o pessoal da Ligia, planejando um montão de eventos para 2012 visando promover a criatividade e o habito da leitura, organizei,  em comemoração ao  mês da criança e em parceria com o SESC, sessões de teatro e cinema para crianças de escolas do bairro Restinga… É, nos últimos dias, fiz de tudo, menos escrever  aqui.

Não sei se alguém me lê, não sei se uma única pessoa fica esperando ( ansiosamente? exageradamente? )  por meus comentários. Há tanta informação de qualidade rolando que certamente isso não acontece, mas não importa, deixar de escrever no blog me deixa angustiada. Mesmo que não faça a menor diferença, tenho a sensação de que estou desapontando alguém, deixando de cumprir o que esperam de mim.

Invejo sinceramente os que têm alguma coisa a fazer e deixam para depois com a maior tranquilidade. Essas pessoas talvez não sejam boas para o país ou para a comunidade,  mas, com certeza, são boas para si mesmas.

Claro que não se pode exagerar nem para um lado nem para o outro, mas vou confessar uma coisa: eu, do jeito que sou, tenho muitas vezes a impressão de que a vida é um constante ter que, um eterno cumprimento de tarefas. Vocês já tiveram essa sensação? Pois tentem não ter, deve ser muito gostoso.

Assim como é gostoso poder enfim escrever aqui, ainda que ninguém leia…

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