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Posts de dezembro 2011

Despedida

31 de dezembro de 2011 2

Hoje, minha mãe estaria fazendo 100 anos.
Durante as longas tardes e manhãs na UTI do hospital, a observando “dormir” num coma induzido, eu lembrava de outras tardes, as que passávamos na estância, e, escrevendo no verso das folhas dos processos que me chegavam do escritório, conversava com ela.

Quando cheguei já dormias.
Um sono solto, esquecido,
quem sabe até conformado.
Peguei tua mão com cuidado.
Estava morna,
macia,
talvez um pouco vazia.
Uma tarde de verão.
Tarde como as que embalavam nossas redes de algodão.
O barulho das cigarras,
a limonada gelada,
a água fria do arroio
no banho do entardecer.
Lembras dos lambaris?
Brincavam com nossas pernas,
rápidos riscos dourados que não podias prender.
E rias teu riso jovem.
Lembras do namorado?
Quartas, domingos sem falta,
beijando lá no sofá.
E do outro, que depois veio, sem se fazer convidar?
O que mandou tantas rosas
que tínhamos de esconder.
A tua mão deixo ir, mas as lembranças não largo.
Ficam comigo, não importa.
São meu consolo,
meu colo, o meu verão infinito
para onde vais voltar.

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Um Chico russo

30 de dezembro de 2011 3

Se escrever é, com dizia o Caio Fernando, enfiar o dedo na garganta e vomitar entranhas, quem, como eu, pretende começar um terceiro livro, há que encher a barriga de coisas boas.

Mesmo com a casa cheia de hóspedes, uma leitura sempre se pode levar para a praia ou para a sesta. Escolhi Ana Karênina. Segundo alguns, o melhor romance jamais escrito.

Sei que saiu uma tradução nova, direto do russo. A que estou lendo é antiga e deve ter sido feita a partir do francês.

Além da  Morte de Ivan Ilitch, não havia lido nada de Tolstói.

Confesso que estou impressionada.  

Não sei se Ana Karênina é o melhor romance de todos os tempos, mas é inegável que tem uma qualidade narrativa fantástica.

Embora escrito entre 1873 e 1877 o livro flui com a modernidade dos imortais.

Flui leve, mas não no sentido de leviano.

É ágil, forte, rápido. Um rio subterrâneo cheio de corredeiras.

Como se escavasse apenas areia, vai fazendo uma descrição agradável e minuciosa de pessoas e ambientes, mas vai também afastando o entulho e até deixar expostas as raízes mais profundas dos sentimentos.

Os muito entendidos que me perdoem , mas, como se fosse um Chico Buarque ( não o dos livros, o das músicas) o Tolstói de Ana Karênina tem alma feminina.

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A plasticidade do cérebro

28 de dezembro de 2011 1

Conversa e gado gordo a gente não apura.

Não sei de onde tirei essa frase. Talvez eu a tenha ouvido, talvez a tenha inventado ou talvez eu a tenha forjado aqui, no Uruguai, observando o que acontece no atendimento ao cliente da Antel .

Todos os infelizes que, como eu, precisaram da telefônica ( no meu caso foi para comprar um sistema de banda larga), tiveram que amargar hora e meia observando os 4 atendentes conversando, sem nenhum apuro, com cada cliente.

Serviço gentil, atenção personalizada? Talvez, mas um suplício para quem aguarda. Um senhor de uns 80 anos escolhia entre 10 tipos de celulares. Acho que podem imaginar…

Enquanto esperava, resgatei do lixo um pedaço do jornal argentino La Nacion o qual me contou ter sido comprovado que, em 1952, Evita Perón sofreu uma lobotomia para reduzir a dor decorrente do câncer.

Na década de 50, a lobotomia era considerado o procedimento mais apropriado para tratar a dor do câncer metastático.

Hoje se sabe (ainda segundo o jornal) que a lobotomia não tirava a dor, apenas reduzia a reação emocional à dor: os pacientes ficavam mais apáticos, infantis, não pediam remédio.

Já pensaram a tristeza? Sentir dor e não poder expressá-la?

Liguei esse artigo de La Nacion a um outro, uma reportagem sobre “plasticidade cerebral” publicada da Veja. A dor, segundo esse artigo, ocorreria quando neurônios cujo papel é inibir e retardar a transmissão da dor diminuem em número ou mudam de função.

É que o cérebro, ao contrário do que se pensava, não é rígido, pode regenerar-se, uma nova zona  assumindo o papel da que foi prejudicada. O efeito regenerativo aconteceria, conforme exames feitos, inclusive através do uso “apenas” da psicoterapia, sem medicação.

Se o cérebro está em constante mudança, preenchendo vazios, me parece que a lobotomia de Evita, que tanta angústia deve ter-lhe causado, foi, desde o início, inútil.

O problema é que, ao contrário de gado gordo e conversa, a dor é sempre apurada e, no desespero, tenta-se de tudo.

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Escrever é dizer de um outro jeito

24 de dezembro de 2011 2

Ao escrever, a gente não inventa nada. Só repete de uma outra forma.
O canto deses dois mostra isso muito bem.
Feliz Natal a todos.

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Sob suspeita

23 de dezembro de 2011 3

Ontem, na praia, tive companhia. A princípio, não dei muita importância embora o tenha achado simpático e um pouco triste. Mas, quando, ao final da caminhada, ele entrou no mar e nadou comigo, definitivamente pintou um clima .     

Assim que saímos da água, uma guarda veio falar comigo:

— Señora, el perrito é seu ?

Eu sabia que cachorro na praia é proibido.

—  Não, eu respondi, —está me seguindo, mas não é meu.

— No é seu? — me perguntou pela segunda vez, desconfiada.

Neguei mais uma vez.

Embora não estivesse mentindo, senti remorso.

O cachorrinho levantava para mim seus olhos tristes. Ele me adotara e eu o negava?

Só não me senti mais culpada porque não estava magro e tinha uma coleira verde periquito. Devia ter um dono, que embora também morando nas ruas, o alimentava.

Mas talvez beba e então o surra, conjecturei, alguma razão há para estar procurando  adoção.  

Assim como a guarda colocava a mim, eu coloquei o dono do cachorro sob suspeita.

Viramos réus os dois, acusados, eu, de estar mentindo, ele, de ser bêbado e bater no animal.

O meu caso se resolve fácil, pensei, vou para casa e o cachorro vai ficar na praia e tudo se esclarece.  

Ledo engano.

O cãozinho atravessou a rua comigo, e, quando eu fechei o portão para que ele não entrasse, achou um portão lateral e veio até a porta de vidro do edifício, queria subir.

A guarda, que o viu entrar no pátio do edifício, deve estar pensando até agora que sou culpada.  

Se houvesse um processo contra mim, ela daria seu depoimento absolutamente convencida de que eu mentira quanto a não ser dona do cachorro. Afirmaria convicta que o cachorro era meu, pois entrou no edifício comigo.  

Subi para o meu apartamento pensando na fragilidade das provas.

Quantas vezes, baseados em evidências que nos parecem irrefutáveis, tomamos decisões equivocadas e acusamos pessoas de serem o que não são.

Aí já pensei em Otelo e Iago, no famoso lencinho e por aí afora porque, quando dou para pensar, ninguém me segura.

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Do se afastar de si mesma para poder se ver

22 de dezembro de 2011 0

Natal é família reunida, ceia deliciosa, presentes perfeitos e pessoas felizes.

Ano novo então, pura alegria…

Propaganda enganosa, a gente sabe, e, no entanto, feito apaixonados, caímos sempre na mesma armadilha.

O pior não é a correria. Dessa, a gente descansa num dia ou dois.

O pior é que, quanto mais pensamos na nossa solidão, mais solitários ficamos.

Ou, dizendo de outra forma, quanto mais pensamos nos nossos problemas, menos pensamos em nós.

Acho que estou dizendo o óbvio e, no entanto, confesso que só hoje me caiu a ficha de verdade.

Tem gente que amadurece cedo, eu sou das demoradas.

Os entendidos recomendam a meditação.

Ela nos afasta de nós mesmos e permite que nos vejamos e sejamos realmente.

Não aprendi ainda a meditar. Tenho um amigo que consegue. Chega a ter a sensação de sair de si mesmo. Diz que é quando fica mais criativo ( ele é fotógrafo).

Sou agitada demais para meditar, mas o distanciamento de mim mesma, esse deixar de pensar do em mim para me ver melhor, vai ser minha resolução de ano novo.

No final de 2012, eu conto o que consegui.  

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Kevin Johansen

11 de dezembro de 2011 2

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Pentimentos

10 de dezembro de 2011 2

Muito sobre o que pensar.  A vida é uma constante necessidade de escolhas o que ( já disse um filósofo) é fonte primeira de todas as angústias. Como saber se escolhemos bem. Se vale a pena voltar atrás? Acho que não tem como, só escolhendo novamente e aí,  como saber se escolhemos bem, se vale a pena voltar atrás? Não tem como, só escolhendo novamente e aí ………..

Folha SP – 8 dezembro 2011

Contardo Calligaris

Pentimentos

“Pentimento” é a palavra italiana para arrependimento, mas designa (em muitas línguas) uma pintura, um desenho ou um esboço encoberto pela versão final de um quadro.

Às vezes, com o passar do tempo, a tinta deixa transparecer uma composição em cima da qual o artista pintou uma nova versão.

Outras vezes, os raios-x dos restauradores desvendam opções anteriores, que permaneceram debaixo da obra final. Esses esboços ou pinturas, que o artista rejeitou e encobriu, são os pentimentos, que foram descartados sem ser propriamente apagados.

Visível ou não, o pentimento faz parte do quadro, assim como fazem parte da nossa vida muitas tentações e muitos projetos dos quais desistimos. São restos do passado que, escondidos e não apagados, transparecem no presente, como potencialidades que não foram realizadas, mas que, mesmo assim, integram a nossa história.

Pensei nisso assistindo a “Um Dia”, de Lone Scherfig, que estreou na sexta passada. O filme é a adaptação do romance homônimo de David Nicholls (Intrínseca), que foi uma das leituras que mais me tocaram neste ano e que já comentei brevemente na coluna de 21 de julho.

O livro e o filme (cujo roteiro é do próprio Nicholls) contam a história de Emma e Dexter, que são unidos pelo pentimento: cada um deles é o grande pentimento do outro -ou seja, ao longo dos anos, cada um é, para o outro, a lembrança de que um outro destino teria sido possível.

Reflexões, saindo do cinema:

1) Nossas vidas são abarrotadas de caminhos que deixamos de pegar; são todos pentimentos, mais ou menos encobertos: histórias que não se realizaram. Por que não se realizaram? Em geral, pensamos que nos faltou a coragem: não soubemos renunciar às coisas das quais era necessário abdicar para que outras escolhas tivessem uma chance. E é verdade que, quase sempre, desistimos de desejos, paixões e sonhos porque custamos a aceitar que nada se realiza sem perdas: por não querermos perder nada, acabamos perdendo tudo.

Emma e Dexter, por exemplo, ficam cada um como pentimento do outro porque nenhum dos dois consegue renunciar à sua insegurança (que é, aliás, o que os torna tão tocantes e parecidos com a gente): ela morrendo de medo de ser rejeitada, e ele, sedento de aprovação, fama e sucesso.

2) O problema dos pentimentos é que eles esvaziam a vida que temos. O passado que não se realizou funciona como a miragem da felicidade que teria sido possível se tivéssemos feito a escolha “certa”. Diante disso, de que adianta qualquer experiência presente? Emma e Dexter, por exemplo, são condenados a fracassos amorosos pela própria importância de seu pentimento.

3) Nem sempre os pentimentos são bons conselheiros -até porque, às vezes, eles são falsos (esse, obviamente, não é o caso de Emma e Dexter). Hoje, é fácil esbarrar em espectros do passado: as redes sociais proporcionam reencontros improváveis e, com isso, criam pentimentos artificiais. Graças às redes, uma história que foi realmente apagada da memória (não apenas encoberta) pode renascer como se representasse uma grande potencialidade à qual teríamos renunciado.

No reencontro, um namorico da adolescência, insignificante e esquecido, transforma-se em (falso) pentimento, ou seja, numa aventura que poderia ter aberto para nós as portas do paraíso (onde ainda estaríamos agora, se tivéssemos ousado trilhar esse caminho).

Quando examino as fotos de minhas turmas do colégio, sempre fico com a impressão de que deixei amizades e amores inacabados ou nem começados, mas que teriam revolucionado meu futuro. É como se me perguntasse “Quem era minha Emma? Para quem eu era o Dexter?”, fantasiando pentimentos de relações que nunca existiram.

Somos perigosamente nostálgicos de escolhas passadas alternativas, que teriam nos levado a um presente diferente. Se essas escolhas não existiram, somos capazes de inventá-las -e de vivê-las como pentimentos.

Avisos: os pentimentos não são necessariamente recíprocos, e os falsos pentimentos, revisitados, são pequenas receitas para o desastre.


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Feira do livro de Uruguaiana

04 de dezembro de 2011 4

A feira do livro de Uruguaiana é… encantadora. A palavra pode estar meio fora de moda, ser antiga, mas não importa, é a palavra justa e os poetas amam a palavra justa.

Sem dizer encantadora, não há como descrever uma feira onde todos os sorrisos te incentivam a folhear sem pressa os livros expostos, não há como contar sobre o Café na praça sombreada ou falar sobre os enormes potes de vidro repletos de deliciosas galletitas de allá…

Na feira de Uruguaiana, a magia se revela nos olhos doces do Benhur, no charme da Alessandra, no sorriso atento do “Gato” César e suas sedutoras camisas negras. Lá, na praça, à sombra das árvores, florescem livros e leitores, muitos leitores, atentos, carinhosos, interessados. Não sei o nome de todos, agradeço a cada um por me escutar com gentileza ( a mim e às minhas bobagens).

Talvez porque são muitos os leitores, são também muitos os escritores. Para citar alguns: Marina e os poemas de luz e sombra recitados pela Laura, Ricardo e sua esposa meio bruxa, que aos 15 anos soube, de vereda, quem era o príncipe encantado, José Antonio Severo, um dos senhores da guerra, e, entre umas e outras, o sorriso aberto e sabedor do Rônei Rocha.

Na Feira do Livro de Uruguaiana, tudo funciona de forma impecável porque assim todos querem que seja e porque, se assim não fosse, o Sanchotene era até capaz de ficar brabo…. Obrigada, prefeito, pela acolhida.

Uruguaiana, cidade de ruas largas, de casarões que fazem sonhar, de almoços deliciosos ( obrigada Rafa e Maria Luiza). Uruguaiana com seu pedaço de rio que eu nunca havia visto, mas que logo reconheci como sendo parte do meu Uruguai.

Uruguaiana onde, sobre os clubes, os museus, as igrejas ( a gótica e a de Sant’Ana), paira, senhoril senhora, a figura imponente do Ivo com seus chambres, sua carruagem, seus olhos de beladona, seu cabaré.

Fiz questão de ir até o cemitério visitar o  túmulo do Ivo. Pedi várias graças, entre elas, a de, um dia, voltar à Uruguaiana.

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