Há uma loja na Avenida Farrapos, em Porto Alegre, que, há muitos anos, vende louça branca, cristais, panelas.
O dono fica sentado a uma mesa logo na entrada cumprimentando os clientes e recebendo fornecedores. O filho fica nos fundos, no escritório, separado do resto da loja por uma parede de vidro.
É tudo muito simples. O cliente chega, é atendido por uma atendente (todas mulheres). Cada cliente já tem a sua, habitual. A chama pelo primeiro nome e é chamado por ela também pelo primeiro nome.
A mercadoria está toda exposta em prateleiras. Feita a escolha, a tendente anota o pedido num pedaço de papel, que é entregue a um dos rapazes do depósito, que sobe correndo pela escada e que, dos meandros escondidos da loja, traz a mercadoria.
Um outro a confere e é emitida a nota.
O movimento é sempre intenso. Sábados, então, é quase impossível .
Vocês são um case, eu disse um dia ao dono. Somos o que?, ele me respondeu desconfiado. Um caso especial, expliquei. Quando todos estão usando computadores vocês seguem anotando os pedidos num papelzinho, a mercadoria desce do depósito nas mãos do atendente, passa pelo conferente e tudo acontece a contento e parece que cada vez vocês têm mais clientes.
A senhora sabe, ele me respondeu, disfarçando o orgulho, no ramo, somos os maiores do Brasil .
Confesso que fiquei surpresa. Maior do Brasil? Como assim? Onde, a tecnologia, os computadores, a logística?
Eles devem existir, sem dúvida, mas escondido. Assim, preserva-se a impressão de que estamos ( e estamos) num antigo armazém sendo atendidos pelo dono e pelo amigo atendente que sabe quem somos e de quem sabemos, também, o nome.
Será essa proximidade, esse “atender junto” o segredo do sucesso?
Acho que sim. E acho mais, acho que o fenômeno se repete num espetáculo há 26 verões em cartaz aqui em Porto Alegre: Tangos e Tragédias.
As piadas, com poucas diferenças ( nesse ano introduziram a Luiza, que está no Canadá), são sempre as mesmas , as músicas também. Todos já sabem de cor. O ponto alto é quando os atores dirigem o público num coro absolutamente sem sentido feito de sons, ruídos e palmas. Precisam ver que coro! Também, com 26 anos de treino.
O gran finale é na Praça da Matriz, em frente ao teatro, com os atores e o público gritando e brincando com o eco das ruas.
Não sei se alguém já fez uma tese a respeito. Se não fizeram, deviam fazer. Acho que o sucesso, tanto do bazar quanto do espetáculo que é o mesmo há 26 anos, tem a ver com o fato de que todos nos sentimos participantes e, de alguma forma, responsáveis.
Será que essa mesma receita – sentir-se responsável e participante – não podia ser aplicada nas relações povo/governo em assuntos como saúde, educação, trânsito?
Será que aquela velha máxima do Kennedy: não perguntes o que o teu país pode fazer por você, mas o que você pode fazer por seu país não podia realmente funcionar?



