Em março, nas praias do Uruguai (como na maioria das praias brasileiras que não são também grandes cidades) reinam os velhos e as crianças em idade pré-escolar. O tempo é lindo, a água é calma e, porque estão livres de compromissos, esses dois extremos da vida a podem aproveitar juntos.
Eu os observo ( ainda que me recuse a crer, estou tecnicamente dentro do primeiro grupo) e vejo o quanto têm em comum: o mesmo cuidado ao caminhar, o mesmo interesse pela comida, o mesmo alegria porque a água está quentinha e limpa, o mesmo olhar de susto. Não, corrijo, o olhar é apenas semelhante. O da criança não é um olhar de susto, é de espanto e o espanto, ao contrário do susto, não contém necessariamente o medo.
Não importa, detalhes a parte (susto e espanto são muito parecidos) assim como as duas classes sociais ( muito alta e muito baixa) se tocam no convencimento de que, por terem demasiado ou muito pouco, podem fazer o que quiserem, gozar de todos os privilégios, os velhos e as crianças se encontram em março.
É o mesmo olhar travesso ao cruzar a rua sozinhos, a mesma alegria lambuzada ao comer um picolé que se derrete todo.
Se alguém perguntar, falarão durante horas sobre seus medos, suas necessidades, suas fomes, seus intestinos, se precisam ou não usar fralda, o que fizeram no dia anterior, o que planejam fazer amanhã.
Um percentual pequeno, apesar dos olhos de susto, irá falar em livros, filmes, na última brincadeira. Deus permita que me aceitem nesse segundo grupo. Já divido com eles o medo de escuro, de escada alta sem corrimão e de piso molhado.



