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Posts de agosto 2012

Primeiro Mate

22 de agosto de 2012 6

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Os invisíveis.

13 de agosto de 2012 2

Ontem assisti à entrevista da Bibi Ferreira no programa do Jô. Lucidez, memória, rapidez de pensamento, entusiasmo. Tudo isso e mais uma coisa que talvez seja, junto com a genética, o seu segredo: ela ri de si mesma. Contou, dando risada, da vez em que subiu ao palco e esqueceu completamente para que estava lá.

Isso acontece a qualquer um? Claro que sim. Quantas vezes a gente fica no oooooo….. e o nome não sai. Aquele que… e aquele não vem. Só que o qualquer um a quem isso acontece conta o fato rindo se tem menos de 50. Depois dessa idade conta preocupado, quando conta. Aos 90, e se depender da memória para trabalhar, definitivamente esconde porque não acha nada  engraçado.

Outra coisa que ela disse ( dessa vez sem rir) é que aos 90 a mulher fica invisível para o outro sexo. Bibi é feliz e não sabe. Grande parte das mulheres ( e dos homens também) ficam invisíveis para o outro , ou o mesmo sexo , se é o mesmo que interessa bem mais cedo.  Ser invisível ou ficar invisível é  problema que ataca a todos, ainda que  doa mais nas mulheres.

Talvez seja por isso que os loucos façam de tudo para chamar a atenção. Já notaram? Os loucos discretos são muito raros. A maioria dos velhinhos senis escolhe ser o mais espalhafatoso possível. Melhor assim do que invisível.

PS– será que alguém avisou aos ingleses que o gari Renato Sorriso não é só pra inglês ver? Outra hora falo nele.

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Nelson Rodrigues: crônicas ou ensaios?

01 de agosto de 2012 3

Durante o festival de Inverno de Porto Alegre, assisti a quatro palestras do professor Luís Augusto Fischer sobre as crônicas de Nelson Rodrigues. Em verdade, as palestras ( parte de sua tese de mestrado) defendiam que o que Nelson escrevia não eram crônicas mas ensaios

Confesso que sempre pensei em ensaio como algo mais acadêmico, mas, se tomarmos o que foi escrito por Montaigne sob esse título, o Fischer tem razão.

Crônica e ensaio tem muito em comum embora sejam diferentes.

Que as crônicas falam da vida, todos sabem. Que falam da forma como o cronista vê  a vida, também. Que a maioria quer pegar o leitor no colo, comover  e consolar, idem.

Já o ensaio, embora  reflita a forma de viver do seu autor, não está nem aí pra nós.  

“ Eis aqui um livro de boa-fé. Só o escrevi para mim mesmo e alguns íntimos, sem me preocupar com o interesse que poderia ter para ti (…) Assim, leitor, sou eu mesmo a matéria desse livro, o que será, talvez, razão suficiente para que não empregues teus lazeres em assunto tão fútil (…) ( Montaigne)

Estranhas, inesperadas, caóticas, iniciando com um assunto e terminando em outro, as crônicas (ou ensaios) de Nelson, fazem tudo, menos acariciar, menos dar lição de moral, menos dizer: − façam assim que tudo vai dar certo…  

“ Vistas em conjunto, de modo a  constituírem mais do que um apanhado de palpites e excentricidades, suas crônicas, para fazer uma imagem, são uma espécie de narrativa, o romance de agonia de um indivíduo “ – diz Fischer.

Agonia, essa é a palavra!

Talvez seja   o que mais me atrai em Nelson Rodrigues: sua constante, insaciável, sarcástica  agonia . De uma forma ou outra, não a sentimos todos nós?

Uma agonia tão viva, real e onipresente como a sua úlcera (do Nelson, não sua), personagem tão viva e presente  que, de quando em quando, como a um bichinho de estimação, ele nos informa que vai fazer uma pausa para a alimentar. 

Para que entendam melhor, vou postar aqui uma crônica do Nelson. Notem, aqueles que gostam de escrever, como utilizando de forma constante o recurso dos dois pontos e travessão, ele cria dois personagens, duas metades dele mesmo conversando.

“Começo assim a “longa história” : – “ Eu sou um ex-covarde”.

O ex-covarde

Nélson Rodrigues

 
 
   
       
 

Entro na redação e o Marcelo Soares de Moura me chama. Começa: – “Escuta aqui, Nélson. Explica esse mistério.” Como havia um mistério, sentei-me. Ele começa: – “Você, que não escrevia sobre política, por que é que agora só escreve sobre política?” Puxo um cigarro, sem pressa de responder. Insiste: – “Nas suas peças não há uma palavra sobre política. Nos seus romances, nos seus contos, nas suas crônicas, não há uma palavra sobre política. E, de repente, você começa suas “confissões”. É um violino de uma corda só. Seu assunto é só política. Explica: – Por quê?”

Antes de falar, procuro cinzeiro. Não tem. Marcelo foi apanhar um duas mesas adiante. Agradeço. Calco a brasa do cigarro no fundo do cinzeiro. Digo: – “É uma longa história.” O interessante é que outro amigo, o Francisco Pedro do Couto, e um outro, Permínio Ásfora, me fizeram a mesma pergunta. E, agora, o Marcelo me fustigava: – “Por quê?” Quero saber: – “Você tem tempo ou está com pressa?” Fiz tanto suspense que a curiosidade do Marcelo já estava insuportável.

Começo assim a “longa história”: – “Eu sou um ex-covarde.” O Marcelo ouvia só e eu não parei mais de falar. Disse-lhe que, hoje, é muito difícil não ser canalha. Por toda a parte, só vemos pulhas. E nem se diga que são pobres seres anônimos, obscuros, perdidos na massa. Não. Reitores, professores, sociólogos, intelectuais de todos os tipos, jovens e velhos, mocinhas e senhoras. E também os jornais e as revistas, o rádio e a tv. Quase tudo e quase todos exalam abjeção.

Marcelo interrompe: – “Somos todos abjetos?” Acendo outro cigarro: – “Nem todos, claro.” Expliquei-lhe o óbvio, isto é, que sempre há uma meia dúzia que se salve e só Deus sabe como. “Todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo.” E por que essa massa de pulhas invade a vida brasileira? Claro que não é de graça nem por acaso.

O que existe, por trás de tamanha degradação, é o medo. Por medo, os reitores, os professores, os intelectuais são montados, fisicamente montados, pelos jovens. Diria Marcelo que estou fazendo uma caricatura até grosseira. Nem tanto, nem tanto. Mas o medo começa nos lares, e dos lares passa para a igreja, e da igreja passa para as universidades, e destas para as redações, e daí para o romance, para o teatro, para o cinema. Fomos nós que fabricamos a “Razão da Idade”. Somos autores da impostura e, por medo adquirido, aceitamos a impostura como a verdade total.

Sim, os pais têm medo dos filhos, os mestres dos alunos. o medo é tão criminoso que, outro dia, seis ou sete universitários curraram uma colega. A menina saiu de lá de maca, quase de rabecão. No hospital, sofreu um tratamento que foi quase outro estupro. Sobreviveu por milagre. E ninguém disse nada. Nem reitores, nem professores, nem jornalistas, nem sacerdotes, ninguém exalou um modestíssimo pio. Caiu sobre o jovem estupro todo o silêncio da nossa pusilanimidade.

Mas preciso pluralizar. Não há um medo só. São vários medos, alguns pueris, idiotas. O medo de ser reacionário ou de parecer reacionário. Por medo das esquerdas, grã-finas e milionários fazem poses socialistas. Hoje, o sujeito prefere que lhe xinguem a mãe e não o chamem de reacionário. É o medo que faz o Dr. Alceu renegar os dois mil anos da Igreja e pôr nas nuvens a “Grande Revolução” russa. Cuba é uma Paquetá. Pois essa Paquetá dá ordens a milhares de jovens brasileiros. E, de repente, somos ocupados por vietcongs, cubanos, chineses. Ninguém acusa os jovens e ninguém os julga, por medo. Ninguém quer fazer a “Revolução Brasileira”. Não se trata de Brasil. Numa das passeatas, propunha-se que se fizesse do Brasil o Vietnã. Por que não fazer do Brasil o próprio Brasil? Ah, o Brasil não é uma pátria, não é uma nação, não é um povo, mas uma paisagem. Há também os que o negam até como valor plástico.

Eu falava e o Marcelo não dizia nada. Súbito, ele interrompe: – “E você? Por que, de repente, você mergulhou na política?” Eu já fumara, nesse meio-tempo, quatro cigarros. Apanhei mais um: – “Eu fui, por muito tempo, um pusilânime como os reitores, os professores, os intelectuais, os grã-finos etc, etc. Na guerra, ouvi um comunista dizer, antes da invasão da Rússia: – “Hitler é muito mais revolucionário do que a Inglaterra.” E eu, por covardia, não disse nada. Sempre achei que a história da “Grande Revolução”, que o Dr. Alceu chama de “o maior acontecimento do século XX”, sempre achei que essa história era um gigantesco mural de sangue e excremento. Em vida de Stalin, jamais ousei um suspiro contra ele. Por medo, aceitei o pacto germano-soviético. Eu sabia que a Rússia era a antipessoa, o anti-homem. Achava que o Capitalismo, com todos os seus crimes, ainda é melhor do que o Socialismo e sublinho: – do que a experiência concreta do Socialismo,

Tive medo, ou vários medos, e já não os tenho. Sofri muito na carne e na alma. Primeiro, foi em 1929, no dia seguinte ao Natal. Às duas horas da tarde, ou menos um pouco, vi meu irmão Roberto ser assassinado. Era um pintor de gênio, espécie de Rimbaud plástico, e de uma qualidade humana sem igual. Morreu errado ou, por outra, morreu porque era “filho de Mário Rodrigues”. E, no velório, sempre que alguém vinha abraçar meu pai, meu pai soluçava: – “Essa bala era para mim.” Um mês depois, meu pai morria de pura paixão. Mais alguns anos e meu irmão Joffre morre. Éramos unidos como dois gêmeos. Durante 15 dias, no Sanatório de Correias, ouvi a sua dispnéia. E minha irmã Dorinha. Sua agonia foi leve como a euforia de um anjo. E, depois, foi meu irmão Mário Filho. Eu dizia sempre: – “Ninguém no Brasil escreve como meu irmão Mário.” Teve um enfarte fulminante. Bem sei que, hoje, o morto começa a ser esquecido no velório. Por desgraça minha, não sou assim. E, por fim, houve o desabamento de Laranjeiras. Morreu meu irmão Paulinho e, com ele, sua esposa Maria Natália, seus dois filhos, Ana Maria e Paulo Roberto, a sua sogra, D. Marina. Todos morreram, todos, até o último vestígio.

Falei do meu pai, dos meus irmãos e vou falar também de mim. Aos 51 anos, tive uma filhinha que, por vontade materna, chama-se Daniela. Nasceu linda. Dois meses depois, a avó teve uma intuição. Chamou o Dr. Sílvio Abreu Fialho. Este veio, fez todos os exames. Depois, desceu comigo. Conversamos na calçada do meu edifício. Ele foi muito delicado, teve muito tato. Mas disse tudo. Minha filha era cega.

Eis o que eu queria explicar a Marcelo: – depois de tudo que contei, o meu medo deixou de ter sentido. Posso subir numa mesa e anunciar de fronte alta: – “Sou um ex-covarde.” É maravilhoso dizer tudo. Para mim, é de um ridículo abjeto ter medo das Esquerdas, ou do Poder Jovem, ou do Poder Velho ou de Mao Tsé-tung, ou de Guevara. Não trapaceio comigo, nem com os outros. Para ter coragem, precisei sofrer muito. Mas a tenho. E se há rapazes que, nas passeatas, carregam cartazes com a palavra “Muerte”, já traindo a própria língua; e se outros seguem as instruções de Cuba; e se outros mais querem odiar, matar ou morrer em espanhol – posso chamá-los, sem nenhum medo, de “jovens canalhas”.

RODRIGUES, Nélson. In A cabra vadia (novas confissões), Livraria Eldorado Editora S.A., Rio de Janeiro, s/data, págs. 7-10.

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