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Entrevista de Guimarães Rosa ao jornalista português Arnaldo Saraiva em 24 de novembro de 1966.

05 de janeiro de 2013 2

Mas permita-me ainda uma pergunta: como “enveredou” – e penso que a palavra se ajusta bem ao seu caso – pelo campo da “invenção linguística?

Quando escrevo, não pen­so na literatura: penso em capturar coisas vivas. Foi a necessidade de capturar coisas vivas, junta à minha repulsa física pelo lugar-comum (e o lugar-comum nunca se confunde com a simplicidade), que me levou à outra necessidade íntima de enriquecer e embelezar a língua, tornando-a mais plástica, mais flexível, mais viva. Daí que eu não tenha nenhum processo em relação à criação linguística: eu quero aproveitar tudo o que há de bom na língua portuguesa, seja do Brasil, seja de Portugal, de Angola ou Mo­çambique, e até de outras línguas: pela mesma razão, recorro tanto às esferas populares como às eruditas, tanto à cidade como ao campo. Se certas palavras belíssimas como “gramado”, “aloprar”, pertencem à gíria brasileira, ou como “malga”, “azinhaga”, “azenha” só correm em Por­tugal — será essa razão suficiente para que eu as não empregue, no devido contexto? Porque eu nunca substituo as palavras a esmo. Há muitas palavras que rejeito por inexpressivas, e isso é o que me leva a buscar ou a criar outras. E faço-o sem­pre com o maior respeito, e com alma. Respeito muito a língua. Escrever, para mim, é como um ato religioso. Tenho montes de cadernos com relações de palavras, de expressões. Acompanhei muitas boiadas, a cavalo, e levei sempre um ca­derninho e um lápis preso ao bolso da camisa, para anotar tudo o que de bom fosse ouvido — até o cantar de pássaros. Talvez o meu trabalho seja um pouco arbitrário, mas se pegar, pegou. A verdade é que a tarefa que me impus não pode ser só realizada por mim.

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Comentários (2)

  • Nathalia diz: 13 de janeiro de 2013

    “Contar é muito, muito dificultoso”, disse Riobaldo, o ilustre jagunço-personagem de Guimarães Rosa.
    Ana, parabéns pelo post! Sempre um deleite ímpar conhecer algo mais sobre esse magistral escritor que nunca morrerá por que se tornou “encantado” – como bem sentenciou no seu discurso de posse na ABL: ” As pessoas não morrem, ficam encantadas” – na memória e na admiração de seus leitores pelo seu pensamento e escritos; nas palavras que soube criar, nos ideais que o animaram. Experiências fundas, pessoais, de um amor imenso à sua terra, à sua gente, ao acima dos homens: o Deus da sua fé.
    Abraço.
    Nathalia Nunes

  • Angela Warlet diz: 19 de janeiro de 2013

    Sua obra indiscutivelmente sem precedentes em nosso contexto literário conjuga, na justa medida, o local e o universal, o olhar do médico e diplomata que afirmou que o bem mesmoera ser como o vaqueiro Manuezelão das suas estórias.
    E esse olhar dele ao encontro do homem,dos problemas e questões inerentes à condição humana que me encantam tornando-o meu escritor favorito.
    Agradeço teres compartido !
    Um abraço bem abraçado!

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