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A nova literatura III

14 de janeiro de 2013 0

 A literatura de Lobo Antunes é atordoante. Digressões, pontuação rara, diálogos interrompidos ou sobrepostos, uma frase dedicada à fala, a seguinte ao pensamento, o tempo correndo livre num ir e vir constante, a mudança brusca do fio da história tudo isso pode deixar um leitor louco. 

É que, como diz a Dra. Inara de Oliveira Rodrigues ( revista Literatura e Autoritarismo), a protagonista recorrente nas obras desse escritor é a linguagem.  

Concordo, e porque a protagonista dos romances de ALA é a linguagem, ouso afirmar que a principal causa da dificuldade de sua prosa é ser excessivamente poética.

Notem que eu não estou dizendo ruim (Deus o livre !) estou dizendo difícil.

Para quem, assim como eu, gosta e escreve poesia afirmar que um autor é difícil porque sua prosa é por demais poética pode parecer absurdo e, no entanto, não o  é.

Poesia é diferente de prosa, é outra linguagem; mais do que isso, é uma outra língua. Tem regras, padrões, significados próprios ( daí dizermos licença poética).  Misturar as normas da poesia ( ou a ausência delas) com a prosa pode tornar essa prosa bastante difícil,  tanto para quem escreve quanto para quem lê.

É que meus livros não são para ser lidos no sentido que usualmente se chama ler, a única forma

parece-me

de abordar os romances que escrevo é apanhá-los do mesmo modo como apanha-se uma doença.  (Receita para me lerem – As coisas da vida )

Pela afirmação acima parece ficar claro que Lobo Antunes deseja que a sua prosa seja lida como se lê a poesia. Ou seja, quer que o leitor vá além do que está escrito, além do sentido literal das palavras.

Para isso, ele usa artifícios poéticos: metáforas, enjambement, digressões. Para isso, transgride a ordem das palavras no papel e as distribui como se fossem versos criando, um sentido próprio, mais forte do que o original, criando, como em poesia, um estranhamento.

Aliás, parece que abolir fronteiras é uma constante na prosa de Lobo Antunes.  Em As coisas da Vida ele mistura, sem nenhum pudor, crônicas, contos, lembranças. Nunca temos certeza absoluta de que aquilo que estamos a ler é realidade ou ficção. (Para os que escrevem contos e crônicas e estão em dúvida quanto a se publicam ou não num mesmo livro, é uma bela dica.)


 O  ponto de união entre esses textos, além do estilo e a quase unânime genialidade,  está no fato de serem curtos e mais fáceis de ler. Talvez por isso Lobo Antunes os chame de piscinas para crianças, têm sempre pé e água a dar pela cintura…  Bobagem, como disse o Mauro, no comentário do post anterior, eles são ótimos.

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