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Porque hoje (não) é sábado

23 de janeiro de 2013 1

Há a sensação angustiante

Porque hoje é sábado

De uma mulher dentro de um homem

Porque hoje é sábado

                                               ( O dia da criação, Vinícius de Moraes)


Leio, numa longa reportagem de Samy Adghirni  ( Folha de São Paulo de 13 do corrente janeiro) que no Irã não existem  homossexuais.

Essa é pelo menos  a situação oficial desde que assim o declarou,  em 2007, o presidente Mahamoud Ahmadinejad.

Não existindo a homossexualidade, é óbvio que assuntos relativos à  vida civil dos homossexuais  (casamento, herança, filhos e tantas outras)  não tem a menor chance de serem previstos em lei.

Já transexuais, esses existem e são legalmente reconhecidos. Essa visão, segundo a reportagem originou-se do fundador da república islâmica Ruhollah Khomeini que se teria solidarizado com a situação de um  devoto xiita  que  o convenceu ser uma mulher presa no corpo de um homem.

Ainda que o assunto seja polêmico sob o ponto de vista da religião, prevaleceu, mesmo aí, a corrente de ser essa a forma de compreender-se a mensagem divina : “  … ninguém  está mudando a o atributo da natureza criada por Deus . O humano continua humano. Trata-se apenas de sintonizar corpo e mente “,  afirma o clérigo Mohammad Karimina.

Na verdade, no Irã,  os transexuais são apenas heterossexuais vítimas de uma doença  curável mediante cirurgia. 

Assim é que, desde inícios dos anos 2000, o Estado passou a pagar o valor total dessas cirurgias ( entre US$ 8.000 e US$ 10.0000) .

Claro que a coisa toda não é feita de qualquer maneira. Cada cirurgia é precedida por meses de sessões com médicos, psicólogos, psiquiatras e médicos legistas.

Mas não pensem que apenas porque lá a operação é mais fácil de ser realizada do que aqui (no Brasil ela pode ser feita pelo SUS, mas são anos e não meses de espera)  o preconceito seja menor.  Após a cirurgia, a rejeição pela sociedade e o sofrimento são os mesmos, tanto lá quanto aqui.

 Acho que já escrevi algo sobre aquele filme Transamérica (Felicity Huffman ,indicada ao Oscar de melhor atriz)  no qual um pai, com cirurgia genital marcada, precisa acompanhar o filho numa viagem. Ótimo filme ( tem completo no youtube) . Quem o assistiu, consegue entender ( pelo menos em parte) que há casos em que realmente a cirurgia se impõe.

Só que não pode apresentar-se como um substituto, não pode vir acompanhada da negação da homossexualidade, do seu reconhecimento e regulamentação.

O triste é que, segundo a reportagem, no Irã,  o sentimento  da maioria dos operados é esse: Eu não teria mutilado meu corpo se a sociedade tivesse me aceitado do jeito que eu nasci.

Triste isso. Triste e angustiante, versos do Vinícius.

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Comentários (1)

  • Angela Warlet diz: 23 de janeiro de 2013

    Ana, sempre escolhes textos, poemas ou músicas que nos levam à reflexão, dá gosto passear por teu blog!
    Fragmento os versos de meu querido Vinícius:
    “Porque hoje é sábado.
    Há uma mulher que apanha e cala
    Porque hoje é sábado.
    Há um grande espírito de porco
    Porque hoje é sábado.
    Há uma mulher que vira homem

    Impossível fugir a essa dura realidade…”

    Todo preconceito é uma forma de violência. Não há possibilidade de graduação para a violência.Violência nascida da falta de informação, da ignorância, das misérias.
    A indignação me fez lembrar uma música com poesia de Arnaldo Antunes:
    “miséria é miséria em qualquer canto…riquezas são diferentes…”

    Um abraço bem abraçado!
    Angela

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