Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

O fenômeno Paulo Coelho

08 de fevereiro de 2013 2

Em 2010, na feira literária de Paraty, uma mesa formada pelos escritores Milton Hatoum, Marçal Aquino e o crítico Gregório Dantas, discutiu a repercussão internacional da literatura brasileira. Até aí, nada a estranhar. O estranho foi que, em nenhum momento, o nome do escritor brasileiro mais vendido no mundo, Paulo Coelho, foi mencionado.

Que existe uma muralha entre a  literatura de entretenimento e a outra, dita séria, sabemos. Que, em geral, a de entretenimento, ainda que ignorada pela séria, ganha de dez a zero em termos de vendas, também sabemos.

A realidade é que  a chamada literatura de entretenimento parece contentar-se com o espaço que ocupa, não pede e nem necessita de exames literários. No entanto, quando se trata de  um escritor que, segundo artigo de Fernando Antonio Pinheiro (Folha de São Paulo, de 20/01/2013), seria o mais lido do mundo,   entendo que alguma coisa precisa ser dita, nem que seja o corriqueiro: é, nesse caso, o buraco é  mais embaixo.

Traduzido em 62 línguas, com 100 milhões de exemplares vendidos em 150 países, a universalidade de Paulo Coelho em contraste com sua absoluta invisibilidade dentro do mundo literário brasileiro ( mesmo numa mesa onde o assunto é a repercussão internacional da literatura brasileira , como visto acima) é fenômeno de difícil compreensão.

A explicação mais comum — Paulo Coelho seria o resultado de um marketing bem feito— não me satisfaz. Já o artigo a que me referi acima, talvez porque seu autor seja sociólogo e não crítico literário, é bem mais esclarecedor. Como eu, Fernando Pinheiro, não se contenta com a explicação de um bom plano de marketing ( embora reconheça a sua importância) .

O silêncio unânime da crítica ( sinal de seu pouco valor na escala dos objetos dignos de interesse intelectual)  leva Pinheiro à conclusão de que o fenômeno representado pela produção de Paulo Coelho diz respeito ao mercado e não à literatura, mas, apesar disso, não o impede de tentar entender os dois lados: que “qualidades” tornam Paulo Coelho tão universal,  que “defeitos” o tornam tão invisível, literariamente falando.

Primeiro as qualidades:  o que faz o pacto ficcional entre Coelho e seus leitores funcionar?

Segundo Pinheiro: …as referências herméticas que manipula na assertiva decisiva de que …

Estou brincando ao transcrever essa frase do artigo porque uma das “qualidades” a que Pinheiro se refere é a linguagem fácil, sem sofisticação. Escola à qual o artigo não se alia ( precisei ler umas duas vezes  para entender direito).

Vamos lá, traduzindo.

Segundo Pinheiro todos os livros de Paulo Coelho seriam variantes de um mesmo tema: uma jornada pelo extraordinário capaz de reverter o tempo e permitir uma segunda chance.   

Ou seja, com palavras simples, o pacto seria: o guia/autor se compromete a facilitar ao aprendiz/leitor uma jornada através do extraordinário com a chance de reverter o tempo e fazer escolhas que, na verdade, deveriam ter sido feitas muito antes, na adolescência.

 Desde que o leitor se deixe guiar,  segredos esotéricos capazes de reverter o tempo e dar a oportunidade de novas escolhas se tornarão disponíveis pois serão apresentados numa linguagem fácil.

Essa linguagem, ponto chave do pacto, é feita propositadamente de clichês. Algo como: Nunca desista de seus sonhos. Ou então:  Quando você deseja uma coisa o universo conspira para realizá-la. Ou ainda: O Extraordinário reside no Caminho das Pessoas Comuns (sic.).

O que explicaria  a universalidade de Paulo Coelho, portanto, seria oferta da possibilidade de manipular e mesmo reverter o tempo mediante a leitura de uma jornada apresentada pelo autor/guia de forma perfeitamente compreensível .

Quem não quer levante o dedo!  Definitivamente, em termos de pacto, Paulo Coelho tem muitos anos de praia….  

Amanhã falarei sobre o outro lado da moeda, ou seja, falarei sobre o que, na opinião de Fernando Pinheiro, torna a literatura de Paulo Coelho algo que pode interessar à sociologia do consumo, mas não aos estudos literários.

 

Bookmark and Share

Comentários (2)

  • alvaro barcellos diz: 3 de março de 2013

    querida Ana. há algum tempo, vens demonstrando nitidamente contrariedade com relação ao silêncio da crítica acerca de Coelho. tento entender tua aflição. creio que Coelho não está nem aí pra crítica – até porque ganha rios de dinheiro com sua obra mundo afora. quanto ao lugar-comum, que seria supostamente elogioso em relação a um Baudelaire, por exemplo, penso que não se trataria exatamente de lugar-comum, no caso do poeta francês, e sim da incorporação do cotidiano com matéria literária, livrando-nos de divagações etéreas. no caso de Coelho, parece-me, fica claro que não se trata de alguém sequer minimamente preocupado com o fazer literário, com a tessitura, e sim com a conclusão, para colocá-la à venda, sabendo so sucesso imediato por conta de leitores em regra nada exigentes, a ponto de consumir – muitas vezes sem ler, uma vez que Coelho não escreve pra quem gosta efetivamente de literatura – suas incansáveis pequenas variações de auto-ajuda. beijo

Envie seu Comentário