Em 2010, na feira literária de Paraty, uma mesa formada pelos escritores Milton Hatoum, Marçal Aquino e o crítico Gregório Dantas, discutiu a repercussão internacional da literatura brasileira. Até aí, nada a estranhar. O estranho foi que, em nenhum momento, o nome do escritor brasileiro mais vendido no mundo, Paulo Coelho, foi mencionado.
Que existe uma muralha entre a literatura de entretenimento e a outra, dita séria, sabemos. Que, em geral, a de entretenimento, ainda que ignorada pela séria, ganha de dez a zero em termos de vendas, também sabemos.
A realidade é que a chamada literatura de entretenimento parece contentar-se com o espaço que ocupa, não pede e nem necessita de exames literários. No entanto, quando se trata de um escritor que, segundo artigo de Fernando Antonio Pinheiro (Folha de São Paulo, de 20/01/2013), seria o mais lido do mundo, entendo que alguma coisa precisa ser dita, nem que seja o corriqueiro: é, nesse caso, o buraco é mais embaixo.
Traduzido em 62 línguas, com 100 milhões de exemplares vendidos em 150 países, a universalidade de Paulo Coelho em contraste com sua absoluta invisibilidade dentro do mundo literário brasileiro ( mesmo numa mesa onde o assunto é a repercussão internacional da literatura brasileira , como visto acima) é fenômeno de difícil compreensão.
A explicação mais comum — Paulo Coelho seria o resultado de um marketing bem feito— não me satisfaz. Já o artigo a que me referi acima, talvez porque seu autor seja sociólogo e não crítico literário, é bem mais esclarecedor. Como eu, Fernando Pinheiro, não se contenta com a explicação de um bom plano de marketing ( embora reconheça a sua importância) .
O silêncio unânime da crítica ( sinal de seu pouco valor na escala dos objetos dignos de interesse intelectual) leva Pinheiro à conclusão de que o fenômeno representado pela produção de Paulo Coelho diz respeito ao mercado e não à literatura, mas, apesar disso, não o impede de tentar entender os dois lados: que “qualidades” tornam Paulo Coelho tão universal, que “defeitos” o tornam tão invisível, literariamente falando.
Primeiro as qualidades: o que faz o pacto ficcional entre Coelho e seus leitores funcionar?
Segundo Pinheiro: ...as referências herméticas que manipula na assertiva decisiva de que ...
Estou brincando ao transcrever essa frase do artigo porque uma das “qualidades” a que Pinheiro se refere é a linguagem fácil, sem sofisticação. Escola à qual o artigo não se alia ( precisei ler umas duas vezes para entender direito).
Vamos lá, traduzindo.
Segundo Pinheiro todos os livros de Paulo Coelho seriam variantes de um mesmo tema: uma jornada pelo extraordinário capaz de reverter o tempo e permitir uma segunda chance.
Ou seja, com palavras simples, o pacto seria: o guia/autor se compromete a facilitar ao aprendiz/leitor uma jornada através do extraordinário com a chance de reverter o tempo e fazer escolhas que, na verdade, deveriam ter sido feitas muito antes, na adolescência.
Desde que o leitor se deixe guiar, segredos esotéricos capazes de reverter o tempo e dar a oportunidade de novas escolhas se tornarão disponíveis pois serão apresentados numa linguagem fácil.
Essa linguagem, ponto chave do pacto, é feita propositadamente de clichês. Algo como: Nunca desista de seus sonhos. Ou então: Quando você deseja uma coisa o universo conspira para realizá-la. Ou ainda: O Extraordinário reside no Caminho das Pessoas Comuns (sic.).
O que explicaria a universalidade de Paulo Coelho, portanto, seria oferta da possibilidade de manipular e mesmo reverter o tempo mediante a leitura de uma jornada apresentada pelo autor/guia de forma perfeitamente compreensível .
Quem não quer levante o dedo! Definitivamente, em termos de pacto, Paulo Coelho tem muitos anos de praia....
Amanhã falarei sobre o outro lado da moeda, ou seja, falarei sobre o que, na opinião de Fernando Pinheiro, torna a literatura de Paulo Coelho algo que pode interessar à sociologia do consumo, mas não aos estudos literários.