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Porque hoje é carnaval e eu gosto

12 de fevereiro de 2013 0

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Classificados

11 de fevereiro de 2013 0

Ando buscando um amor,

Daqueles doces, melados, envoltos em palha de milho,

puxa-puxa esfiapado das antigas carrocinhas.

Não quero amor complicado.

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Fenômeno II

10 de fevereiro de 2013 0

Agora proponho examinar a razão do total silêncio e desinteresse dos críticos literários brasileiros pela obra de Paulo Coelho. Um desinteresse tão grande que a única resenha séria existente ( lembre, o mais vendido do mundo)  seria aquela feita por João Alexandre Barbosa sobre o livro Onze Minutos e publicada na revista Cult sob o título Dentro da academia, fora da literatura.

Notem que, ao mesmo tempo em que rompe o silêncio sobre a obra de Paulo Coelho, essa única apreciação crítica entende que o tal  silêncio é merecido .

A principal razão:  o lugar-comum.

O uso do lugar-comum é referido por Barbosa como qualidade em autores clássicos como Flaubert  e Baudelaire e como defeito em Paulo Coelho .

Os dois primeiros o usariam de forma criativa e consciente capaz de reconfigurar o  lugar-comum tirando-o  da banalidade  e trazendo-o  para o mundo da originalidade.

Já em Paulo Coelho haveria uma rendição total ao lugar comum.

Embora sábio e astuto no uso daquilo que,  lugar-comum, já é esperado pelo leitor Paulo Coelho nada reconfigura em termos narrativos que pudesse justificar a publicação de um romance.

A nos basearmos em Barbosa, portanto, só mereceriam publicação livros que se assemelhassem à obra de Baudelaire e Flaubert,  juízo seletivo que não é usado para o exame de outras obras da literatura brasileira.

Há ainda outro aspecto a ser examinado  – a melhor aceitação dos livros de Paulo Coelho no exterior.  Já ouvi pessoas dizerem que a tradução melhoraria a obra. 

A razão mais plausível, no entanto, talvez seja a de que, Paulo Coelho, como já falamos, escreve uma literatura de entretenimento. Gênero reconhecido e aceito fora do Brasil.

Numa cultura de literatos como a nossa, todos sonham ser Flaubert e James Joyce , ninguém se contentaria em ser Alexandre Dumas ou Agatha Christie , diz Fernando Pinheiro, o que, segundo ele, seria  um erro de perspectiva uma vez que é da massa dos leitores dos últimos que surge a elite dos leitores dos primeiros

Porque pra burro ele não serve, no seu discurso de posse na Academia, Coelho fez uma homenagem a dois autores dessa literatura de entretenimento:  José Mauro de Vasconcellos ( lembram ? Meu pé de laranja lima) e Malba Tahan ( o pai adorava nos propor as charadas dele) escritores que, como ele disse, desconheceram a glória — …não necessariamente a  de pertencer à ABL mas a de ser aceito no clube seleto da Literatura Brasileira , como lembra Fernando  .

A conclusão  a que chega o artigo no qual estou me baseando  é interessante, a transcrevo em parte.

Creio que a rejeição de que a obra foi objeto tem menos a ver com sua qualidade estética do que com a configuração de um sistema literário que precisa estreitar seus mecanismos de acesso para consolidar-se, recusando tudo o que ameace a definição locar de literatura.

Se assim for, explica-se a recepção mais favorável de Coelho nos países em que o campo literário é mais maduro….

… ganharia novo sentido o “não li e não gostei” com que o crítico Davi Arrigucci Jr.  respondeu à revista “Veja”  sobre  Coelho

Corajoso esse tal Fernando Antonio Pinheiro! 

E nós, como ficamos? 

Vocês, não sei. Eu tiro meu cavalinho da chuva.

Eles que são brancos que se entendam…

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O fenômeno Paulo Coelho

08 de fevereiro de 2013 2

Em 2010, na feira literária de Paraty, uma mesa formada pelos escritores Milton Hatoum, Marçal Aquino e o crítico Gregório Dantas, discutiu a repercussão internacional da literatura brasileira. Até aí, nada a estranhar. O estranho foi que, em nenhum momento, o nome do escritor brasileiro mais vendido no mundo, Paulo Coelho, foi mencionado.

Que existe uma muralha entre a  literatura de entretenimento e a outra, dita séria, sabemos. Que, em geral, a de entretenimento, ainda que ignorada pela séria, ganha de dez a zero em termos de vendas, também sabemos.

A realidade é que  a chamada literatura de entretenimento parece contentar-se com o espaço que ocupa, não pede e nem necessita de exames literários. No entanto, quando se trata de  um escritor que, segundo artigo de Fernando Antonio Pinheiro (Folha de São Paulo, de 20/01/2013), seria o mais lido do mundo,   entendo que alguma coisa precisa ser dita, nem que seja o corriqueiro: é, nesse caso, o buraco é  mais embaixo.

Traduzido em 62 línguas, com 100 milhões de exemplares vendidos em 150 países, a universalidade de Paulo Coelho em contraste com sua absoluta invisibilidade dentro do mundo literário brasileiro ( mesmo numa mesa onde o assunto é a repercussão internacional da literatura brasileira , como visto acima) é fenômeno de difícil compreensão.

A explicação mais comum — Paulo Coelho seria o resultado de um marketing bem feito— não me satisfaz. Já o artigo a que me referi acima, talvez porque seu autor seja sociólogo e não crítico literário, é bem mais esclarecedor. Como eu, Fernando Pinheiro, não se contenta com a explicação de um bom plano de marketing ( embora reconheça a sua importância) .

O silêncio unânime da crítica ( sinal de seu pouco valor na escala dos objetos dignos de interesse intelectual)  leva Pinheiro à conclusão de que o fenômeno representado pela produção de Paulo Coelho diz respeito ao mercado e não à literatura, mas, apesar disso, não o impede de tentar entender os dois lados: que “qualidades” tornam Paulo Coelho tão universal,  que “defeitos” o tornam tão invisível, literariamente falando.

Primeiro as qualidades:  o que faz o pacto ficcional entre Coelho e seus leitores funcionar?

Segundo Pinheiro: …as referências herméticas que manipula na assertiva decisiva de que …

Estou brincando ao transcrever essa frase do artigo porque uma das “qualidades” a que Pinheiro se refere é a linguagem fácil, sem sofisticação. Escola à qual o artigo não se alia ( precisei ler umas duas vezes  para entender direito).

Vamos lá, traduzindo.

Segundo Pinheiro todos os livros de Paulo Coelho seriam variantes de um mesmo tema: uma jornada pelo extraordinário capaz de reverter o tempo e permitir uma segunda chance.   

Ou seja, com palavras simples, o pacto seria: o guia/autor se compromete a facilitar ao aprendiz/leitor uma jornada através do extraordinário com a chance de reverter o tempo e fazer escolhas que, na verdade, deveriam ter sido feitas muito antes, na adolescência.

 Desde que o leitor se deixe guiar,  segredos esotéricos capazes de reverter o tempo e dar a oportunidade de novas escolhas se tornarão disponíveis pois serão apresentados numa linguagem fácil.

Essa linguagem, ponto chave do pacto, é feita propositadamente de clichês. Algo como: Nunca desista de seus sonhos. Ou então:  Quando você deseja uma coisa o universo conspira para realizá-la. Ou ainda: O Extraordinário reside no Caminho das Pessoas Comuns (sic.).

O que explicaria  a universalidade de Paulo Coelho, portanto, seria oferta da possibilidade de manipular e mesmo reverter o tempo mediante a leitura de uma jornada apresentada pelo autor/guia de forma perfeitamente compreensível .

Quem não quer levante o dedo!  Definitivamente, em termos de pacto, Paulo Coelho tem muitos anos de praia….  

Amanhã falarei sobre o outro lado da moeda, ou seja, falarei sobre o que, na opinião de Fernando Pinheiro, torna a literatura de Paulo Coelho algo que pode interessar à sociologia do consumo, mas não aos estudos literários.

 

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Paixão

05 de fevereiro de 2013 0

CAMISA-BRASILEIRA-Foto-Gilberto-Perin-5

PERIN-CHORO


“ O sujeito pode mudar de tudo. De cara, de casa, de família, de namorada, de religião, de Deus. Mas há uma coisa da qual não pode mudar. Não pode mudar de paixão”

Essa frase , chave para o mistério do filme O segredo de seus olhos ( melhor filme estrangeiro no Oscar 2010), me soou a princípio um pouco estranha.

Como assim , pensei, se não é amor, religião ou Deus,  que paixão é essa da qual não se pode mudar?  

Confesso que ( sendo eu brasileira e sendo o filme argentino)   desconfiei   que poderia ser o futebol, mas depois pensei que futebol era pouco, que essa paixão capaz de marcar um  indivíduo e torná-lo sua presa para toda a vida precisava ser algo bem maior.  

Embora eu não estivesse certa, também não estava errada.  

Eduardo Sacheri  (escritor argentino autor do livro que inspirou  o filme ) falava, sim, em futebol, ou melhor, falava também em futebol.  Usava o futebol para mostrar que cada um de nós é refém de uma paixão particular.  No filme, a paixão, chave do mistério, envolve uma  mulher e uma convicção contrária à pena de morte .

“ Não gosto de ser rotulado como escritor de futebol  ( diz Eduardo) .  Na verdade, eu o vejo como instrumento para tratar do aspecto trágico da vida que se entrevê a partir das histórias dessa linguagem e desses heróis em escala humana.”

Por que pensei nisso como tema de conversa no blog agora, depois de 3 anos? 

É que numa dessas festas de empresa, sentei ao lado de um torcedor do Brasil de Pelotas e imediatamente me lembrei de uma das mais bonitas, delicadas e tocantes exposições de fotografia a que tive a sorte de comparecer:  Camisa Brasileira de Gilberto Perin.

 Essa exposição, que começou de forma singela em Porto Alegre, percorreu todo o Brasil, esteve, se não estou enganada, em  Paris e  virou livro com texto de Aldyr Garcia Schlee ( sim, o que desenhou a camisa da seleção, sim, o que escreveu o conto que (embora não lhe tenha sido dado o crédito) inspirou o filme O banheiro do Papa), pois essa exposição  mostra futebol mas fala de paixão.

Durante quatro meses ( por coincidência, também em 2010), Perin foi uma presença “invisível”   nos vestiários de um pequeno time gaúcho da segunda divisão, o Brasil de Pelotas.  Tirou mais de 3000 fotos, selecionou 110.  O resultado vai muito, mas muito além do vestiário.   Com curadoria impecável de Alfredo Aquino  o que nela se expõe  é a paixão da qual não se pode mudar. A  que nasce do humano e revela o trágico .

Ninguém lê texto muito longo em blog, por isso paro por aqui. Quem quiser saber exatamente  a que eu me refiro pode acessar o site do Perin e ver por si mesmo.

Ps. O nome da primeira foto é Paixão, a segunda é O choro.

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Porque hoje (não) é sábado

23 de janeiro de 2013 1

Há a sensação angustiante

Porque hoje é sábado

De uma mulher dentro de um homem

Porque hoje é sábado

                                               ( O dia da criação, Vinícius de Moraes)


Leio, numa longa reportagem de Samy Adghirni  ( Folha de São Paulo de 13 do corrente janeiro) que no Irã não existem  homossexuais.

Essa é pelo menos  a situação oficial desde que assim o declarou,  em 2007, o presidente Mahamoud Ahmadinejad.

Não existindo a homossexualidade, é óbvio que assuntos relativos à  vida civil dos homossexuais  (casamento, herança, filhos e tantas outras)  não tem a menor chance de serem previstos em lei.

Já transexuais, esses existem e são legalmente reconhecidos. Essa visão, segundo a reportagem originou-se do fundador da república islâmica Ruhollah Khomeini que se teria solidarizado com a situação de um  devoto xiita  que  o convenceu ser uma mulher presa no corpo de um homem.

Ainda que o assunto seja polêmico sob o ponto de vista da religião, prevaleceu, mesmo aí, a corrente de ser essa a forma de compreender-se a mensagem divina : “  … ninguém  está mudando a o atributo da natureza criada por Deus . O humano continua humano. Trata-se apenas de sintonizar corpo e mente “,  afirma o clérigo Mohammad Karimina.

Na verdade, no Irã,  os transexuais são apenas heterossexuais vítimas de uma doença  curável mediante cirurgia. 

Assim é que, desde inícios dos anos 2000, o Estado passou a pagar o valor total dessas cirurgias ( entre US$ 8.000 e US$ 10.0000) .

Claro que a coisa toda não é feita de qualquer maneira. Cada cirurgia é precedida por meses de sessões com médicos, psicólogos, psiquiatras e médicos legistas.

Mas não pensem que apenas porque lá a operação é mais fácil de ser realizada do que aqui (no Brasil ela pode ser feita pelo SUS, mas são anos e não meses de espera)  o preconceito seja menor.  Após a cirurgia, a rejeição pela sociedade e o sofrimento são os mesmos, tanto lá quanto aqui.

 Acho que já escrevi algo sobre aquele filme Transamérica (Felicity Huffman ,indicada ao Oscar de melhor atriz)  no qual um pai, com cirurgia genital marcada, precisa acompanhar o filho numa viagem. Ótimo filme ( tem completo no youtube) . Quem o assistiu, consegue entender ( pelo menos em parte) que há casos em que realmente a cirurgia se impõe.

Só que não pode apresentar-se como um substituto, não pode vir acompanhada da negação da homossexualidade, do seu reconhecimento e regulamentação.

O triste é que, segundo a reportagem, no Irã,  o sentimento  da maioria dos operados é esse: Eu não teria mutilado meu corpo se a sociedade tivesse me aceitado do jeito que eu nasci.

Triste isso. Triste e angustiante, versos do Vinícius.

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Nós, as frágeis.

17 de janeiro de 2013 2

Não adianta negar.  Claro que somos frágeis.  Já se esqueceram da estudante de 23 anos estuprada por seis num ônibus e atirada pela janela?  E da outra, de 29 anos, atacada um mês depois. Daquela, agarrada ao descer de um trem, violentada, assassinada e deixada pendente de uma árvore? Da que tinha apenas  17 e  suicidou-se porque, imaginem só, não quis dar fim ao assunto casando-se com um dos estupradores. Sim, somos frágeis lá na Índia, mas somos frágeis aqui também onde  acabaram de matar a Marcia, a quem chamavam de Marcia do Gil. Foi degolada pelo próprio, pois se era do Gil, não pertencia a ele? Essa não foi estuprada, só morta, certo, mas temos estupradas também e não é de agora. Desde menina soube das crianças violentadas em suas casas, vezes sem conta, pelos pais, pelos tios e pelos avôs.  Soube pelas conversas das empregadas quando pensavam que eu não ouvia. Somos frágeis sim, e no mundo todo.  Somos frágeis até na África, de onde contam  que a mãe de todas nós saiu conduzindo sua tribo há muitos e muitos anos. Dizem que lá, na África,  nem as senhoras acima dos 80 escapam e dizem que os estupradpores sequer se preocupam em fugir, ficam  tomando cerveja, porque, justiça seja feita,  violentar  uma menina de 17, que incidente mais trivial! Somos definitivamente frágeis. Precisamos fazer alguma coisa, tomar uma atitude. Frágeis assim, como podemos ter alguma chance? Vamos ser realistas e iniciar um movimento exigindo quotas para entrar nas faculdades? Sem isso, como podemos  ir adiante, termos melhores salários, chegarmos à presidência de algum país, ou sermos CEOS de uma empresa melhorzinha? Esse, o das quotas, seria um movimento realista.  Mais do que isso, seria pedir demasiado.  

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A nova literatura III

14 de janeiro de 2013 0

 A literatura de Lobo Antunes é atordoante. Digressões, pontuação rara, diálogos interrompidos ou sobrepostos, uma frase dedicada à fala, a seguinte ao pensamento, o tempo correndo livre num ir e vir constante, a mudança brusca do fio da história tudo isso pode deixar um leitor louco. 

É que, como diz a Dra. Inara de Oliveira Rodrigues ( revista Literatura e Autoritarismo), a protagonista recorrente nas obras desse escritor é a linguagem.  

Concordo, e porque a protagonista dos romances de ALA é a linguagem, ouso afirmar que a principal causa da dificuldade de sua prosa é ser excessivamente poética.

Notem que eu não estou dizendo ruim (Deus o livre !) estou dizendo difícil.

Para quem, assim como eu, gosta e escreve poesia afirmar que um autor é difícil porque sua prosa é por demais poética pode parecer absurdo e, no entanto, não o  é.

Poesia é diferente de prosa, é outra linguagem; mais do que isso, é uma outra língua. Tem regras, padrões, significados próprios ( daí dizermos licença poética).  Misturar as normas da poesia ( ou a ausência delas) com a prosa pode tornar essa prosa bastante difícil,  tanto para quem escreve quanto para quem lê.

É que meus livros não são para ser lidos no sentido que usualmente se chama ler, a única forma

parece-me

de abordar os romances que escrevo é apanhá-los do mesmo modo como apanha-se uma doença.  (Receita para me lerem – As coisas da vida )

Pela afirmação acima parece ficar claro que Lobo Antunes deseja que a sua prosa seja lida como se lê a poesia. Ou seja, quer que o leitor vá além do que está escrito, além do sentido literal das palavras.

Para isso, ele usa artifícios poéticos: metáforas, enjambement, digressões. Para isso, transgride a ordem das palavras no papel e as distribui como se fossem versos criando, um sentido próprio, mais forte do que o original, criando, como em poesia, um estranhamento.

Aliás, parece que abolir fronteiras é uma constante na prosa de Lobo Antunes.  Em As coisas da Vida ele mistura, sem nenhum pudor, crônicas, contos, lembranças. Nunca temos certeza absoluta de que aquilo que estamos a ler é realidade ou ficção. (Para os que escrevem contos e crônicas e estão em dúvida quanto a se publicam ou não num mesmo livro, é uma bela dica.)


 O  ponto de união entre esses textos, além do estilo e a quase unânime genialidade,  está no fato de serem curtos e mais fáceis de ler. Talvez por isso Lobo Antunes os chame de piscinas para crianças, têm sempre pé e água a dar pela cintura…  Bobagem, como disse o Mauro, no comentário do post anterior, eles são ótimos.

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A nova literatura II

13 de janeiro de 2013 3

António Lobo Antunes tem, como todos, qualidades e defeitos. A diferença é que nele tudo (ou quase tudo, pois não lhe conheço as intimidades…) é superlativo.

Um dos grandes defeitos desse escritor de enormes qualidades é o de não ser fácil. 

Coloco a palavra defeitos, assim, em itálico porque ser difícil nem sempre é defeito.  Será, em minha opinião, se a dificuldade for gratuita, o que, ás vezes acontece mesmo em Lobo Antunes.  Nesse caso, o difícil perde a força, torna-se um truque , e, como afirmava Borges e todos os demais  ilusionistas, truques desvendados perdem a magia. 

Talvez Lobo Antunes seja difícil porque, e isso não é nenhum segredo, está pouco se lixando para o leitor. Não escreve para agradar, para passar a mão na cabeça ou dar tapinha nas costas. Não toma ninguém pela mão. Com ele é : entendeu, entendeu, não entendeu, azar do Irineu…

Mas olhem bem, o estar pouco se lixando para com o leitor, em princípio, não é sinônimo de desprezo, mas de respeito. Lobo Antunes tem grandes expectativas em relação aos que o leem.  Exijo que o leitor tenha uma voz entre as vozes do romance, ele diz.  Esse respeito ao leitor o faz trabalhar alucinadamente cada parágrafo, dar o melhor de si em cada frase, procurar as melhores palavras, as mais expressivas metáforas.

No entanto, (e explico agora porque disse antes que em princípio não é sinônimo de  desprezo) ele tem a absoluta certeza de que a maioria não o entende, que os longos cortejos de elogios e prêmios literários que chovem sobre ele  ( os  empilho na casa de banho… ) chegam pelos  motivos errados, são entregues pelas mãos de quem leu e não entendeu .

Sim, como eu disse no princípio, quase tudo em Lobo Antunes é tamanho XG, inclusive o ego.

Logo mais vou tentar dar a minha explicação sobre as “dificuldades” em Lobo Antunes.

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NO

11 de janeiro de 2013 1

No colégio, fazíamos circular álbuns de capa dura nos quais as colegas deixavam mensagens tipo sê como o sândalo que perfuma o machado que o fere  sobre desenhos coloridos com lápis de cera. Flores de “raça” indefinida, coelhinhos com uma das orelhas dobradas eram muito populares. Ursinhos também.

Lembro que uma dessas mensagens dizia: ri que o mundo rirá contigo, chora que o mundo rirá de ti…

Li isso há cinquenta anos e não aprendi completamente.

Invejo essas pessoas que falam com todo mundo, acham que tudo vai dar certo, riem por qualquer coisa porque todos respondem a elas, tudo ou quase tudo dá certo com elas e  qualquer coisa sempre lhes sorri de volta.

Não devia confessar, a tristeza não é bom marketing, mas não sei mentir: a maior parte do tempo, sou um caracol enrolado em minha casca a conversar com minhas gosmas.  Dizem que às vezes deixo um rastro perolado.  Nunca vi.  

Pois cansei de ser caracol. Vou comprar uma cópia desse filme chileno No e assistir todos os dias. Será minha terapia comportamental. Pode ser que eu aprenda o que deixei de aprender com aquela mensagem escrita no meu álbum sobre um desenho de papoulas: ri que o mundo rirá contigo, chora que  o mundo rirá de ti.

Não assistiram ao filme? Assistam.  

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