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Posts com a tag "Cronica e poesia"

A nova literatura III

14 de janeiro de 2013 0

 A literatura de Lobo Antunes é atordoante. Digressões, pontuação rara, diálogos interrompidos ou sobrepostos, uma frase dedicada à fala, a seguinte ao pensamento, o tempo correndo livre num ir e vir constante, a mudança brusca do fio da história tudo isso pode deixar um leitor louco. 

É que, como diz a Dra. Inara de Oliveira Rodrigues ( revista Literatura e Autoritarismo), a protagonista recorrente nas obras desse escritor é a linguagem.  

Concordo, e porque a protagonista dos romances de ALA é a linguagem, ouso afirmar que a principal causa da dificuldade de sua prosa é ser excessivamente poética.

Notem que eu não estou dizendo ruim (Deus o livre !) estou dizendo difícil.

Para quem, assim como eu, gosta e escreve poesia afirmar que um autor é difícil porque sua prosa é por demais poética pode parecer absurdo e, no entanto, não o  é.

Poesia é diferente de prosa, é outra linguagem; mais do que isso, é uma outra língua. Tem regras, padrões, significados próprios ( daí dizermos licença poética).  Misturar as normas da poesia ( ou a ausência delas) com a prosa pode tornar essa prosa bastante difícil,  tanto para quem escreve quanto para quem lê.

É que meus livros não são para ser lidos no sentido que usualmente se chama ler, a única forma

parece-me

de abordar os romances que escrevo é apanhá-los do mesmo modo como apanha-se uma doença.  (Receita para me lerem – As coisas da vida )

Pela afirmação acima parece ficar claro que Lobo Antunes deseja que a sua prosa seja lida como se lê a poesia. Ou seja, quer que o leitor vá além do que está escrito, além do sentido literal das palavras.

Para isso, ele usa artifícios poéticos: metáforas, enjambement, digressões. Para isso, transgride a ordem das palavras no papel e as distribui como se fossem versos criando, um sentido próprio, mais forte do que o original, criando, como em poesia, um estranhamento.

Aliás, parece que abolir fronteiras é uma constante na prosa de Lobo Antunes.  Em As coisas da Vida ele mistura, sem nenhum pudor, crônicas, contos, lembranças. Nunca temos certeza absoluta de que aquilo que estamos a ler é realidade ou ficção. (Para os que escrevem contos e crônicas e estão em dúvida quanto a se publicam ou não num mesmo livro, é uma bela dica.)


 O  ponto de união entre esses textos, além do estilo e a quase unânime genialidade,  está no fato de serem curtos e mais fáceis de ler. Talvez por isso Lobo Antunes os chame de piscinas para crianças, têm sempre pé e água a dar pela cintura…  Bobagem, como disse o Mauro, no comentário do post anterior, eles são ótimos.

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Dica de ano novo: a generosidade está na moda!

09 de janeiro de 2013 0

Contam que, há quinze anos, Ted Turner , sem ter  algo interessante para dizer num discurso, decidiu anunciar a doação de um bilhão de dólares para as causas da  Onu de combate à pobreza.

A partir dele, muitos outros. A generosidade está se tornando uma tendência  mundial. E não falo da que  vem de pessoas humildes , essa nunca saiu de moda.   

Falo dos grandes milionários, os grandes filantropos, as doações de alto perfil (como as denomina o livro Philanthropcapitalism  de Matthew Bishop). Falo das doações que foram moda um dia e  a quem devemos, por exemplo, muitas das obras de Michelangelo.  Falo de Bill Gates e de outros que deram início ao movimento da  Promessa de Doação, pelo qual grandes milionários se comprometem a doar ao menos a metade de sua riqueza.

( Fofoca  entre parênteses– dizem que, de todos,  Donald Trump seria o mais pão-duro. Nos últimos 20 anos,  teria doado apenas 3,7 milhões de dólares à fundação que leva seu nome. Ele nega. Fecha parênteses)

Claro que ainda há muito a fazer, mas essas doações e o espírito empresarial dos que as fizeram e administram, ajudaram a criar  números espantosos como o da redução da mortalidade infantil mundial em mais da metade entre  os anos de 1990 e 2010;

É dando que se recebe. Acho que ninguém duvida disso

A questão é  que  queremos receber já, receber  aqui, não num outro mundo de cuja existência não temos certeza e cuja forma  não conhecemos.

Esse outro  mundo, se existir ( e tomara que sim) talvez seja  tão diferente de tudo o que conhecemos que, por  lá,  o receber  não terá a menor importância.

Se a questão é essa,  a de recebermos aqui, acho que  podemos começar a doar : basta olhar à volta para vermos que, direta ou indiretamente, é aqui mesmo que tudo nos é devolvido.

Interessante que num momento em que o comunismo está desacreditado como sistema ( até Ferreira Gullar, comunista convicto, confessou que, apesar de suas boas intenções, não deu certo) as riquezas estão, enfim, sendo partilhadas.  Acho que a minha avó tinha razão e o andar da carroça acomoda mesmo as abóboras.

No Brasil precisávamos de maiores incentivos, mais facilidades. As pessoas estão dispostas a dar. Querem  apenas  algumas certezas. A  de que o que doarem  será bem utilizado é uma delas.

Nos dois anos em que presidi uma entidade beneficente ligada à cultura ( a gente não quer só comida, a gente quer comida diversão e arte… ) ,  consegui carrear para essa área, em bens, serviços e dinheiro mais de R$ 1.000.000,00, dos quais apenas R$ 20.000,00 decorrentes de incentivo fiscal.

O mérito não é meu (só a cara de pau em pedir) . O mérito  é das pessoas e empresas que  me escutaram e a quem agradeço em nome desse mundo ainda tão carente de educação e cultura ( entre tantas outras coisas) .

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Não há nada como o tempo para passar

02 de janeiro de 2012 3

Hoje já é dia dois.

Não há nada como o tempo para passar e, sobre esse um dia depois do outro , nada como o Dia da Criação, do Vinícius.

Até porque, em 2011, dia 31 caiu num sábado.

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Despedida

31 de dezembro de 2011 2

Hoje, minha mãe estaria fazendo 100 anos.
Durante as longas tardes e manhãs na UTI do hospital, a observando “dormir” num coma induzido, eu lembrava de outras tardes, as que passávamos na estância, e, escrevendo no verso das folhas dos processos que me chegavam do escritório, conversava com ela.

Quando cheguei já dormias.
Um sono solto, esquecido,
quem sabe até conformado.
Peguei tua mão com cuidado.
Estava morna,
macia,
talvez um pouco vazia.
Uma tarde de verão.
Tarde como as que embalavam nossas redes de algodão.
O barulho das cigarras,
a limonada gelada,
a água fria do arroio
no banho do entardecer.
Lembras dos lambaris?
Brincavam com nossas pernas,
rápidos riscos dourados que não podias prender.
E rias teu riso jovem.
Lembras do namorado?
Quartas, domingos sem falta,
beijando lá no sofá.
E do outro, que depois veio, sem se fazer convidar?
O que mandou tantas rosas
que tínhamos de esconder.
A tua mão deixo ir, mas as lembranças não largo.
Ficam comigo, não importa.
São meu consolo,
meu colo, o meu verão infinito
para onde vais voltar.

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Lilinho

16 de outubro de 2011 1

Quando minha neta tinha 3 anos, ganhou, da nossa cozinheira, uma galinha, a Nanica. Era uma galinha garnizé branca que, dia sim, dia não, punha um ovinho, mas cuja qualidade maior era a paciência. A Nanica se deixava levar no colo, descia com minha neta pelo escorregador, andava de balanço:  uma companheirona.

Um dia, assim como dizem que Deus fez com Adão, achamos a Nanica solitária e compramos um galinho, o Nanico. Dessa feliz união nasceram 3 pintinhos que não chegaram a ter nomes porque, naquela semana, um gato ou  um gambá, um bicho desses, noturnos, matou a família inteira dos Nanicos.

Felizmente a tragédia aconteceu durante um feriado prolongado, minha neta estava viajando e, assim, alguns dias se passaram até que  viesse e desse falta da Nanica.

Cadê a Nanica?, ela perguntou, assim que desceu do carro.

Talvez o mais correto tivesse sido eu dizer, a Nanica morreu, mas, confesso, não tive coragem. Não quis aproveitar a Nanica como pretexto para  apresentar a morte a minha neta, disse apenas:  A Nanica, foi pra casinha dela.

Perdi a oportunidade de ensiná-la a lidar com a frustração? Talvez, só que naquele momento, como ainda agora, quase um ano depois,  minha neta não se daria por satisfeita  com essas palavras – a Nanica morreu –  porque naquela ocasião, como ainda agora, ela não sabe exatamente o que é a morte.

Se eu dissesse  – a Nanica morreu – ela certamente  perguntaria:  o que é morrer? e eu teria que dizer que morrer é sumir, desaparecer para nunca mais.  

Então ela perguntaria o que todas as crianças costumam perguntar:  por que? E eu teria que explicar que não existe porquês, que é assim mesmo,  as plantas morrem,  os bichos e as pessoas, por mais que sejam amadas, morrem, que nós todos, inclusive ela, um dia iremos morrer.

Não satisfeita, minha neta perguntaria de novo mas, por que? E eu teria que ir adiante, explicar, talvez que a vida é assim mesmo, que nascemos todos condenados e que até mesmo  Deus,  que pensávamos imortal, foi recentemente declarado morto.    

Escolhendo dizer que a Nanica não estava porque tinha ido para a casinha dela, dei à minha neta a chance de, a partir da ficção, aceitar a ausência aos poucos, sem muitos questionamentos.

Agora, quase um ano depois, embora ainda não entenda com clareza o que é a morte ( alguém entende?),  minha neta  sabe que a Nanica morreu, morte é quando a gente não está mais, só que agora  a figura da Nanica já está  diluída e sua ausência não dói tanto.

Por que estou falando sobre isso?

É que durante essa semana foi lançada a campanha institucional de uma rede de farmácias aqui de Porto Alegre. No filme, os pais de uma menina precisam decidir se contam ou não a ela que seu peixinho vermelho,  o Lilinho  está  dormindo de um jeito engraçado  dentro do aquário porque está morto.

Semelhante a mim, os pais do comercial resolvem adiar o encontro da criança  com a morte só que, ao invés de dizerem que o Lilinho foi, por exemplo, para o mar,  optam por substituir o peixe morto por um outro, igual.

Desde que foi lançado, o filme tem gerado polêmica: deve-se ou não adiar o encontro de uma criança de 4 anos com a realidade da morte.

Uma jornalista, a quem não conheço pessoalmente, mas a quem respeito muito como profissional e como escritora, se posicionou francamente contra. Disse que, embora seja, apenas um comercial inocente tentando contar uma história terna, o filme  expõe a dificuldade dos pais de hoje de  lidar com as frustrações dos filhos e que se trocassem o que chama de a lei do Lilinho pela Lei de Nietzsche –  aquilo que não nos mata nos torna mais fortes-  eles teriam mais chance de fazer de seus filhos adultos generosos e relativamente equilibrados.

Embora concorde com Nietzsche e também com minha avó que dizia,  o que não mata, engorda,   discordo cordialmente dessa  jornalista.  Discordo, primeiro, porque  não acho que a dificuldade  a que ela se refere seja dos pais de hoje, ela sempre existiu.  Segundo, porque, como já contei, agi de forma semelhante, e, por fim, porque  não penso que o filme seja apenas um comercial inocente tentando contar  uma história terna.

É que, diferente dela, eu conheço a história atrás do comercial. Vi essa rede de farmácias nascer. Sei que uma das razões pelas quais ela progrediu, talvez a principal, foi porque seus criadores entenderam, desde o início que , assim como acontece nos hospitais, a doença e a morte rondam as farmácias. Por isso, numa farmácia, é importante interferir, apoiar, amparar as pessoas,  atende-las com paciência e, dentro do possível, preservá-las, não da morte, pois isso é impossível, mas da tristeza infinita  que a doença e a morte  vestem quando se apresentam.

Não, minha querida jornalista, o comercial não é só um filminho sobre um peixinho vermelho.  É um filme sobre um segredo que, na verdade, não é segredo nenhum porque está presente em todas as empresas de sucesso. Tu mesma deves conhece-lo muito bem uma vez que  convives  diariamente com ele.

A rede de comunicação onde trabalhas (e que, tenho certeza, orgulhosa, consideras como tua) nasceu de uma história, a história da dona Rosinha que se mudou de uma cidade minúscula para outra, um pouco maior, para que seu filho mais velho, o Maurício, pudesse estudar.  Progrediu porque esse Maurício e seu irmão mais moço, o Jayme, vieram para a cidade grande  e  trabalharam duro e a esposa do Maurício também trabalhou duro e hoje seus filhos e netos continuam trabalhando duro,  mas mantém-se grande principalmente porque, sem jamais esconder a verdade, sempre se importou ou, dizendo de outra forma,  sempre pensou mais nas pessoas do que nos números.

Tragédias existem muitas e há jornais que vivem delas, sem piedade. Não me parece ser o caso da empresa em que trabalhas. Discreta, sem esconder a verdade, ela tem o seu ritmo e permite que as pessoas assimilem, com calma, o mundo e suas mazelas.

A dureza da verdade, as frustrações são importantes para o crescimento pessoal?

Sim, são fundamentais. Sem enfrenta-las, ninguém se torna realmente uma pessoa, mas voltando ao Lilinho, discordo da tua crônica pois penso que existe um tempo para tudo.  Tempo de enfrentar, tempo de consolar, tempo até mesmo de ler Nietzsche e tentar compreender o incompreensível.  Se esse tempo chegar na hora certa, que bom!, se chegar cedo demais,  será mesmo tão prejudicial interferir  e adiar a tristeza até o momento em que ela possa ser entendida?

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Onde você estava quando...

13 de setembro de 2011 2

Vocês já notaram como em datas que marcam os grandes eventos ou grandes tragédias (chegada do homem à lua, morte de Kennedy, ataque à torres gêmeas), as pessoas sempre perguntam onde você estava ?  

Li em algum lugar que os menores delinquentes quebram a lei por ser essa uma forma de se sentirem filhos. Rebeldes, é verdade, mas filhos. Ser filho rebelde da sociedade é melhor do que ser excluído.

Será que ao nos perguntarmos onde estávamos quando fazemos algo semelhante? Será que essa é uma forma de nos incluirmos naquele fato ou tragédia que mudou ou marcou a humanidade?

Quando mataram Kennedy não lembro onde estava.

Quando o homem chegou à lua, eu estava em Ouro Preto, feliz da vida porque viajava pela primeira vez sem a família. Um pequeno passo para a humanidade, um grande passo para mim.

No dia 11 de setembro de 2001, eu estava no quarto da minha mãe esperando o médico chegar. Ela, muito fraca — morreria dois meses depois —  embora lúcida, não demonstrou o menor interesse pelo que a televisão mostrava em detalhes. Para ela, o mundo se havia reduzido ao próprio corpo.

Eu, passado o primeiro instante, o do não entendimento, pois tudo aquilo era irreal demais para doer, fiquei ali, ao lado dela, egoisticamente consolada, pensando que, bem no fim, minha mãe tinha sorte, pois morreria em sua cama e não num inferno de fogo, cimento e vidro; seu último respirar seria cercado de amor e não de ódio. Pensei também em mim, é claro (sempre pensamos em nós mesmos). Pensei que, como diziam os antigos: para morrer, basta estar vivo.

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E o Oscar foi para...

02 de março de 2011 1

Se bem me conheço, não vou conseguir assitir ao 127 Horas. Assim, imagino que  assisti ontem ao que será o meu último filme entre os 10 indicado ao Oscar 2011: O Vencedor.

Detesto luta de box, ver dois homens se soqueando me agonia, passei grande parte do tempo de olhos fechados e dedos nos ouvidos, mesmo assim, valeu a pena.

 A interpretação de Christian Bale (prêmio de melhor ator coadjuvante) é sensacional. Tão sensacional que até desconfiei que não tivesse merecimento, ou seja, desconfiei que ele fosse tão parecido com seu personagem que estivesse, de certa forma, interpretando a si mesmo.

Tenho sempre essas suspeitas. Picasso, por exemplo, só dei a ele o valor que merece quando comprovei que já aos 18 anos ele pintava, e muito bem, da forma tradicional. Aliás, tenho essas desconfianças também quanto alguns poetas, nunca sei se não usam rima ou métrica por opção ou porque não sabem.  

Voltando ao Bale, não me lembrava de tê-lo visto antes.

A internet me informou que desde os 13 anos ele se salienta como ator e  me deu uma longa lista de filmes dos quais participou, incluindo Batman Begins e o Grande Truque ( a esse eu assisti). Em nenhum desses há um personagem sequer parecido com o ex-boxeador viciado em crack a que Bale dá vida em O Vencedor. O cara é bom mesmo!

Muito boa também a interpretação de Jennifer Lawrence em Inverno da Alma. Uma menina! Nasceu em 1990. Isso foi ontem!

Além de Jennifer, para os que gostam de escrever, o filme é uma grande aula sobre como fazê-lo. Mostra como pode ser mais interessante o não dito, o apenas sugerido. Ensina a não explicar demais. O elemento mais luminoso de Inverno da Alma é tudo aquilo que não é dito e que não é visto. Um homem desaparecido, violências silenciadas e personagens que nos são apresentados como restos de uma história que já passou. Vemos então o que vem depois, o posfácio de uma trama cujos segredos e virtudes estão justamente nessa sutil, inteligente e pouco explorada ideia de que todo começo parte de um final. ( Carol Almeida)

Quanto aos demais, ganharam os que eu achava que ganhariam: O Discurso do Rei, Colin Firth e Natalie Portman.

Concordei também com a escolha do melhor diretor embora, pelo ritmo que soube imprimir ao filme (o agoniadamente rápido ritmo de um jovem gênio nos dando a impressão de que, tudo bem, entendemos, mas estamos sempre um pouco atrás) eu torcesse por David Fincher de Rede Social.

Uma fofoca final. Dizem que, depois da festa, Colin Firth teria esquecido a estatueta no banheiro. Belo exemplo da famosa fleuma inglesa.

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Macedonio Fernández

23 de fevereiro de 2011 2

Citado seguidamente por Borges, Macedonio Fernádez é um escritor argentino muito conhecido e pouco lido.  

 Nesta época de populismo literário,  quando as editoras querem apenas “livros que vendam” (leia-se livros fáceis) a editora Cosac Naify ( que pode dar-se ao luxo de publicar apenas o que admira) lançou uma edição experimental  - não me perguntem, não sei o que é uma edição experimental – do romance de Fernández: O Museu do Romance da Eterna.

Esse livro, segundo a resenha de Joca Terron, “ é  composto quase que em sua totalidade de prólogos que terminam por não prologar nada, ou melhor: prefaciam justamente o nada existente além da última página”.

Segundo a resenha publicada na Folha do último dia 19, Jorge Luis Borges citava e imitava Macedonio mas não o admirava como romancista. Apropriava-se da idéia – a obra literária assumindo-se como artifício, ficção, labirinto – e, a partir dessa idéia, escrevia ao seu jeito.

O Museu do Romance da Eterna foi avaliado como ótimo pelo resenhista.

 “ Nele, tudo é imperfeição, da sintaxe labiríntica de voltagem semelhante às idéias, até o incompleto fragmentário e insatisfatório que reside no irresoluto”.  

Querem saber o que eu acho? Acho que  o livro deve ser muito chato, dificílimo de ser lido, mas acho também que não  há como deixar de reconhecer o valor de obras como essa.

Ao escrevê-lo, ao que parece, Fernández, como um cavalheiro do amor cortês da idade média ou como alguém que se masturba, praticou um ato de amor solitário; amor à literatura em si mesma. Ele enrolou e prorrogou tanto a escrita desse livro que não chegou a vê-lo publicado. Não estava preocupado. Divertia-se.

A regra geral é um escritor escrever para ser lido e apreciado. Pouquíssimos amam tanto a literatura a ponto de darem-se por satisfeitos em tê-la por perto, tesouro taslvez valioso demais para ser compartido.  

Ter a coragem de escrever por escrever, de não se importar que o compreendam, e, por isso mesmo, alcançar o feito de tirar o leitor da famosa “zona de conforto”, essa cadeirinha onde, feito uma criança, ele espera que o alimentem com papinhas de fácil digestão, é atitude a ser aplaudida. De preferência, em pé.

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O que faz um bom livro?

23 de janeiro de 2011 0

Terminei de ler Um gosto e seis vinténs de Somerset Maugham ( pronuncia-se Môme, gozado não é?) . Falei sobre esse livro aqui quando visitei a exposição do Gaugin, ele é baseado na história desse pintor. É um bom livro, ao estilo de Maugham. Linguagem direta, sem frescura, contando uma história e com algumas frases que dá vontade de sublinhar. Igual ao Érico, Maugham se dizia “ um contador de histórias”. Baixinho, gago, bissexual, órfão desde muito cedo, ele tinha tudo para dar errado. Deu certo. Encontrou sua vocação, seu estilo, foi dos poucos que conseguiu viver, e bem, da literatura.

Sua maneira de escrever, mesmo vivendo numa época em que despontavam as diferenças de Joyce e Virginia Woolf, manteve-se.Considerando essas diferenças de estilo, tenho pensado muito sobre o que faz um bom livro.

Há tantas formas de escrever como há de fazer bolos. A massa básica é semelhante — farinha, leite, ovos, manteiga, no caso dos bolos; palavras, no dos livros — a partir daí, as variações são infinitas. Há livros, como dizia Kafka, que nos picam e mordem, outros “apenas” nos distraem.

Não significa, muitas vezes, que um tenha dado mais trabalho para escrever do que o outro. Parece ser mais uma questão de capacidade do que realmente de escolha. Não capacidade de escrever bem ou mal, capacidade de escrever de certa forma. Eu adoraria escrever ao estilo de Clarice ou Guimarães Rosa, não consigo, não tenho esse poder. Escrevo como posso.  

Estou lendo Don Quixote. O que fez esse livro permanecer 400 anos? O estilo, o humor, a tragédia? O refletir uma época em que a Espanha havia perdido a esquadra com a qual pretendia voltar a dominar o mundo e era, ela mesma, quixotesca? É um livro trágico ou um livro de humor? Parece que há tantos “Dom Quixotes” quanto há leitores. Cervantes, quando o escreveu, sabia o que estava escrevendo. Escreveu com o propósito de distrair ou quis, de forma organizada, penetrar profundamente na tragédia humana? 

Não esperem respostas, apenas penso alto. Dou-me conta do quanto somos pequenos frente a nós mesmos e às palavras.  Do quanto é pequeno nosso controle.


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O último dia do ano

30 de dezembro de 2010 1

O último dia do ano sempre me angustia. Eu não deveria escrever isso. Não é o que as pessoas querem ler. Lembrando Fernando Pessoa: todos querem ser príncipes; ou, como diziam aqueles álbuns de recordações que eram moda no meu tempo de colégio: ri, que o mundo rirá contigo; chora, que o mundo rirá de ti.  Sábias palavras, ninguém quer saber de tristeza.

Azar, agora eu já disse, ou melhor, escrevi. Essa obrigação de ser feliz dá nos nervos de qualquer um.

Por que fico angustiada? Sei lá. Pensando bem, é só uma convenção: amanhã será o último dia porque se “combinou” que o ano teria 365 dias. Não vou ficar um ano mais velha porque amanhã é 31 de dezembro. Vou ficar um dia mais velha. Tirando o prejuízo dos cheques, que a gente tem que escrever de novo porque sempre erra a data, o dia 1º de janeiro de 2011 é só um dia a mais. É, mas não adianta racionalizar, no último dia do ano todos nós pensamos em tempo: a sua rapidez, nossas escolhas, o que fizemos dele. Nessas horas, o poema que me vem à mente  é o Burnt Norton, de T. S. Eliot. Ele começa assim:

O tempo presente e o tempo passado

Estão ambos presentes no tempo futuro

E o tempo futuro contido no tempo passado.

Se todo tempo é eternamente presente

Todo tempo é irredimível.

Sobre as muitas opções que tivemos e do que deixamos para trás ao escolher uma delas, sobre o grande SE — se eu tivesse escolhido X ao invés de Y talvez hoje eu seria … teria…. estaria — Eliot diz:

O que poderia ter sido é uma abstração

Que permanece, perpétua possibilidade

Num mundo apenas de especulação.

O que poderia ter sido e o que foi

Convergem para um só fim, que é sempre presente.

E aí vem a parte mais bonita do poema

Ecoam passos na memória

Ao longo das galerias que não percorremos

Em direção á porta que jamais abrimos

Para o roseiral. Assim ecoam minha palavras

Em tua lembrança

                                   Mas com que fim

Perturbam elas a poeira sobre uma taça de pétalas.

Não sei.

                                   Outros ecos

Se aninham no jardim. Seguiremos?

Depressa, disse o pássaro, procura-os, procura-os

Na curva do caminho. Pela primeira porta,

Aberta ao nosso mundo primeiro, aceitaremos

A trapaça do tordo?

…..

Vai, disse o pássaro, porque as folhas estão cheias de crianças,

Maliciosamente escondidas, a reprimir o riso.

Vai, vai, vai, disse o pássaro: o gênero humano

Não pode suportar tanta realidade.

Não coloquei o poema inteiro, apenas pedaços, não queria que vocês ficassem com preguiça de ler. Esse poema, mesmo assim, aos pedaços, alivia a minha angústia. Alivia como? Por me dizer que o único tempo possível é o presente e portanto é nele, sem esquecer passado e futuro, que eu preciso viver. Por me ensinar que viver o presente é estar aqui mas é também ir além, para lá do que envelhece e morre porque, não apenas eu, o gênero humano não pode suportar tanta realidade.

Ser consciente é estar fora do tempo

Mas somente no tempo é que o momento no roseiral

O momento sob o caramanchão batido pela chuva,

O momento na igreja cruzada pelos ventos ao cair da bruma

Podem ser lembrados, envoltos em passado e futuro.

Somente através do tempo é o tempo conquistado.


Feliz 2011 (presente, passado e futuro) para todos.

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