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Posts com a tag "crônica"

A face oculta do preconceito

28 de março de 2013 2

Em 1967, decisão emitida no processo envolvendo o  casal Richard e Mildred Loving (ele branco, ela negra)  pôs fim as restrições legais ao casamento inter-racial.

No caso Loving, o primeiro argumento contra o casamento entre pessoas de raças diferentes era jurídico – formal – tinha a ver com a 14ª. Emenda e leis contra a miscigenação. Não nos interessa.

O segundo alegava que os casamentos inter-raciais eram mais sujeitos ao divórcio e esse divorcio causaria danos irreversíveis nas crianças, filhos dessas uniões. Tais casamentos, diziam, eram uma ameaça às promessas de um futuro claro e feliz para a humanidade.

Hoje, somos todos politicamente corretos. Não usamos mais termos como mongoloide ou negro. No entanto, continuamos a julgar pessoas e a projetar desgraças baseados em nada além do preconceito.

Continuamos a esconder esse nada  sob o verniz de uma frase falsa: afinal, alguém tem que pensar nas crianças!

Hoje, na Califórnia, os que se opõem ao reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo usam como argumento um estudo de Mark Regnerus, sociólogo da Universidade do Texas, que, em 2012, concluiu que crianças provenientes de relações homoafetivas têm pior desempenho psicológico, social e econômico. ( Muitos outros estudos se opõem a esse).

Sem usar palavras politicamente incorretas, cá estamos nós de novo tentando esconder o preconceito sob o precisamos-pensar-nas-crianças…  

Esse nós não é apenas linguagem. Não pensem que estou me inocentando totalmente do preconceito.

Sempre existe um ponto sobre o qual ainda não pensamos direito e que, quando vamos ver, está lá, dentro de nós, carregado de preconceitos.

Só me dei conta disso quando falando sobre o assunto com um amigo ele disse:  Depois do gênero, discute-se número. Quais argumentos vamos usar sobre a bigamia ou o harém?

Silenciosa, persistente e mortal, a onipotência faz lembrar o câncer.  

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Obrigada, Bibi

18 de março de 2013 1

Ano passado foi místico: vida depois da morte, mediunidade, essas coisas. Esse ano, o cinema retratou a velhice. Só para citar alguns: Amor, E se morássemos todos juntos, O quarteto.

Gostei de todos, não chorei em nenhum. Na verdade, o final do Amor me comoveu, mas sem choro. A velhice é normal e, como diz a Cissy do O Quarteto citando Bette Davis – old age is not for sissis. Quando chegar a minha vez gostaria de ter alguém que entendesse meu limite ( como o marido do filme entendeu) .

Além das coisas que fazem todos ou quase todos chorar, cada um de nós tem algo em especial, um detalhe que sempre o faz chorar.

A beleza, a morte, a dor de uma criança.

Claro que tudo isso me comove, mas o que me comove até as lágrimas, estou começando a entender, é a luta, a resistência, a persistência. Algo a ver com meus valores, ou com minhas perdas ou tentativas de não perdas, não sei.

Ontem fui assistir ao show da Bibi Ferreira. Lotadíssimo. Aplaudidíssimo.

Lá pelas tantas, no meio do povo, me peguei chorando.  Não de pena, Bibi não inspira pena. Chorei porque me comoveu a persistência daquela mulher de mais de 90 que decidiu não se entregar (no próximo mês cantará no Lincoln Center em Nova York).  

Quando penso no livro que quero escrever, no trabalho insano que sei que vou ter ( um livro não me vem fácil) quando quero desistir, pessoas como ela me incentivam a seguir tentando.

Obrigada, Bibi.

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As esperanças da renúncia

03 de março de 2013 0

Como a todos, a renúncia de Bento XIV  me pegou de surpresa. Como a maioria, gostei da decisão,  achei que foi um sopro refrescante numa Igreja pesada demais, proibitiva demais, culpada demais.  A renúncia do Papa, por ser algo inusitado,   trouxe a todos, ou a quase todos, uma  esperança de renovação.

“Ele”  não é tão poderoso, afinal de contas. E, se não é tão poderoso, talvez entenda melhor a nós,  leigos, sacerdortes, religiosas, todos nós que vivemos num mundo real onde a Guarda Suíça com seus calções engraçados e suas lanças não pode proteger.

Infelizmente, acredito que  ficaremos apenas na esperança.

Não creio que decisões,  que para todos nós são aparentemente simples, ditadas pelo bom senso, como a permissão do uso da camisinha, o controle da natalidade, o fim do celibato dos padres, a ordenação de mulheres,  decisões que, por levarem em consideração necessidades humanas, poderiam evitar muitos males, sejam tomadas.

Há muito caminho ainda a percorrer. Muita estrada até sermos autorizados a obedecer não ao que os homens decidiram num dos muitos concílios, mas aos ensinamentos realmente ditados por Deus ou por Jesus.

Para os cristão é Ele  o verdadeiro chefe. E esse chefe jamais determinou que os padres fossem obrigados a permanecerem solteiros, sempre respeitou a igualdade feminina, perdoou constantemente os que muito amaram.

A maior parte do que hoje se é obrigado a aceitar sem questionamentos, desde o milagre da Imaculada Conceição de Nossa Senhora, a única a não ter nascido com o pecado original, até a divindade de Jesus ou o mistério da Santíssima Trindade são interpretações humanas do que imaginamos tenha sido a palavra de  Deus.  

Por que não podemos ficar apenas com o que Ele nos pediu de forma clara? Por que complicar se o ser humano já é, por si mesmo, tão complicado?

Tomara que a renúncia de Bento XVI mostre que as coisas podem ser feitas de outra forma sem que isso represente o fim da Igreja. Tomara. 

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Ídolos de pés de barro

16 de fevereiro de 2013 0

Em fevereiro de 2005 citei neste blog Lance Armstrong. A citação foi feita através de uma frase sua.

“ A dor é temporária, pode durar um minuto, uma hora, um dia, um ano, mas eventualmente passará e outra sensação tomará o seu lugar. Se desisto, a dor durará para sempre.”  

Lance Armstrong, como todos sabem, é aquele ciclista americano que venceu sete vezes o Tour de France, lutou contra um câncer de testículos, com metástases no pulmão e cérebro e assim mesmo conseguiu não apenas vencer a doença, mas voltar a competir.Um herói, um ídolo.

O mesmo que, em janeiro desse ano, admitiu, no programa da Oprah, serem verdadeiras as acusações de que estava dopado nas sete vezes em que venceu o Tour de France.

Ao admitir o uso do doping ele declarou que, à época, não sentia que estivesse fazendo a coisa errada – isso foi  o pior, concluiu.  

Volto ao assunto, é evidente, em razão da queda de outro ídolo: Oscar Pistorius, o Blade Runner.  Um corredor sul-africano biamputado, considerado um dos maiores astros do esporte olímpico e paralímpico,  acusado de matar a namorada com quatro tiros no dia dos namorados.

Li numa reportagem que Pistorius nasceu sem o perônio e seus pais decidiram pela amputação de suas pernas abaixo dos joelhos aos onze meses. Durante muito tempo jogou rugby, antes de se lesionar gravemente e passar a se dedicar ao atletismo. Um herói, um ídolo.

Repito as palavras de propósito, pois, a meu ver, os dois casos tem  um ponto em comum: envolvem pessoas que conseguiram vencer barreiras aparentemente instransponíveis e, talvez por isso mesmo, por se acharem eles mesmos semideuses, agiram como se o fossem e  estivessem acima do bem e do mal.

Dois ídolos com pés de barro, como diria a Bíblia. Como, por mais fortes que possamos ser, sempre somos fracos.

Saudades do tempo em que o escândalo era a separação de Garrincha, que abandonou  esposa e não sei quantos filhos para ficar com Elza Soares.

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A intrusa

14 de fevereiro de 2013 0

No El País aqui do Uruguai, uma história me fez lembrar o conto A Intrusa, de Jorge Luís Borges.   

Hoje, Edith, de 22 anos, casa-se com Victor Cingolani, de 35,  condenado a 13 anos de prisão pelo assassinato de Johana, irmã gêmea de sua noiva.  

A mãe das gêmeas, tentando impedir o casamento, entrou com pedido oficial de que fosse feito em Edith um teste psicológico. O teste foi realizado. Edith foi considerada apta a casar-se.

As bodas serão realizadas hoje, 14 de fevereiro, dia de São Valentim, ou Dia dos Namorados aqui no Uruguai e no resto do mundo, creio eu, menos no Brasil.

Victor, embora condenado e cumprindo pena, se diz inocente.  “ A mãe ( das gêmeas) sabe quem é o verdadeiro assassino”, ele afirma. Edith acredita no noivo.

Os motivos do crime não foram desvendados. Fala-se que a morta teria relações com Victor e outro homem, Diaz, amigo de Victor. Ela teria terminado sua relação com Victor e passado a viver com Diaz. Uma semana depois, foi morta.  Uma bagana de cigarro na qual foi feito exame de DNA atesta que Diaz estava presente no local do crime. Parece ter sido ele o autor dos disparos. Ambos foram acusados e presos.

 No jornal há uma foto de Edith usando uma camiseta com o rosto da irmã impresso.  A foto é do tempo em que participava de manifestações públicas exigindo que o crime fosse esclarecido. Nessa mesma época passou a visitar na prisão um dos supostos assassinos, Victor,  e a manter com ele encontros íntimos.

No conto de Borges a que me referi, dois irmãos dividem a mesma mulher. Enquanto ela era apenas um objeto de uso comum, o triangulo pôde acontecer. Quando aparecem indícios de paixão, o que antes era possível passa a ser impossível e um dos irmãos decide matá-la para que os dois possam seguir vivendo.

Na vida real, os dois homens não são irmãos.  Tirando isso, o resto é muito parecido. Se Victor é acusado de matar por ciúmes, por que Diaz efetuou os disparos?  Ao fazer de Johana um corpo sem vida o dois a estavam obrigando a permanecer objeto? Ao casar-se com o suposto assassino, ao trair, segundo a mãe de ambas, a memória da irmã, seria Edith agora a intrusa?

Nelson Rodrigues ia adorar essa história! 

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Fenômeno II

10 de fevereiro de 2013 0

Agora proponho examinar a razão do total silêncio e desinteresse dos críticos literários brasileiros pela obra de Paulo Coelho. Um desinteresse tão grande que a única resenha séria existente ( lembre, o mais vendido do mundo)  seria aquela feita por João Alexandre Barbosa sobre o livro Onze Minutos e publicada na revista Cult sob o título Dentro da academia, fora da literatura.

Notem que, ao mesmo tempo em que rompe o silêncio sobre a obra de Paulo Coelho, essa única apreciação crítica entende que o tal  silêncio é merecido .

A principal razão:  o lugar-comum.

O uso do lugar-comum é referido por Barbosa como qualidade em autores clássicos como Flaubert  e Baudelaire e como defeito em Paulo Coelho .

Os dois primeiros o usariam de forma criativa e consciente capaz de reconfigurar o  lugar-comum tirando-o  da banalidade  e trazendo-o  para o mundo da originalidade.

Já em Paulo Coelho haveria uma rendição total ao lugar comum.

Embora sábio e astuto no uso daquilo que,  lugar-comum, já é esperado pelo leitor Paulo Coelho nada reconfigura em termos narrativos que pudesse justificar a publicação de um romance.

A nos basearmos em Barbosa, portanto, só mereceriam publicação livros que se assemelhassem à obra de Baudelaire e Flaubert,  juízo seletivo que não é usado para o exame de outras obras da literatura brasileira.

Há ainda outro aspecto a ser examinado  – a melhor aceitação dos livros de Paulo Coelho no exterior.  Já ouvi pessoas dizerem que a tradução melhoraria a obra. 

A razão mais plausível, no entanto, talvez seja a de que, Paulo Coelho, como já falamos, escreve uma literatura de entretenimento. Gênero reconhecido e aceito fora do Brasil.

Numa cultura de literatos como a nossa, todos sonham ser Flaubert e James Joyce , ninguém se contentaria em ser Alexandre Dumas ou Agatha Christie , diz Fernando Pinheiro, o que, segundo ele, seria  um erro de perspectiva uma vez que é da massa dos leitores dos últimos que surge a elite dos leitores dos primeiros

Porque pra burro ele não serve, no seu discurso de posse na Academia, Coelho fez uma homenagem a dois autores dessa literatura de entretenimento:  José Mauro de Vasconcellos ( lembram ? Meu pé de laranja lima) e Malba Tahan ( o pai adorava nos propor as charadas dele) escritores que, como ele disse, desconheceram a glória — …não necessariamente a  de pertencer à ABL mas a de ser aceito no clube seleto da Literatura Brasileira , como lembra Fernando  .

A conclusão  a que chega o artigo no qual estou me baseando  é interessante, a transcrevo em parte.

Creio que a rejeição de que a obra foi objeto tem menos a ver com sua qualidade estética do que com a configuração de um sistema literário que precisa estreitar seus mecanismos de acesso para consolidar-se, recusando tudo o que ameace a definição locar de literatura.

Se assim for, explica-se a recepção mais favorável de Coelho nos países em que o campo literário é mais maduro….

… ganharia novo sentido o “não li e não gostei” com que o crítico Davi Arrigucci Jr.  respondeu à revista “Veja”  sobre  Coelho

Corajoso esse tal Fernando Antonio Pinheiro! 

E nós, como ficamos? 

Vocês, não sei. Eu tiro meu cavalinho da chuva.

Eles que são brancos que se entendam…

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O fenômeno Paulo Coelho

08 de fevereiro de 2013 2

Em 2010, na feira literária de Paraty, uma mesa formada pelos escritores Milton Hatoum, Marçal Aquino e o crítico Gregório Dantas, discutiu a repercussão internacional da literatura brasileira. Até aí, nada a estranhar. O estranho foi que, em nenhum momento, o nome do escritor brasileiro mais vendido no mundo, Paulo Coelho, foi mencionado.

Que existe uma muralha entre a  literatura de entretenimento e a outra, dita séria, sabemos. Que, em geral, a de entretenimento, ainda que ignorada pela séria, ganha de dez a zero em termos de vendas, também sabemos.

A realidade é que  a chamada literatura de entretenimento parece contentar-se com o espaço que ocupa, não pede e nem necessita de exames literários. No entanto, quando se trata de  um escritor que, segundo artigo de Fernando Antonio Pinheiro (Folha de São Paulo, de 20/01/2013), seria o mais lido do mundo,   entendo que alguma coisa precisa ser dita, nem que seja o corriqueiro: é, nesse caso, o buraco é  mais embaixo.

Traduzido em 62 línguas, com 100 milhões de exemplares vendidos em 150 países, a universalidade de Paulo Coelho em contraste com sua absoluta invisibilidade dentro do mundo literário brasileiro ( mesmo numa mesa onde o assunto é a repercussão internacional da literatura brasileira , como visto acima) é fenômeno de difícil compreensão.

A explicação mais comum — Paulo Coelho seria o resultado de um marketing bem feito— não me satisfaz. Já o artigo a que me referi acima, talvez porque seu autor seja sociólogo e não crítico literário, é bem mais esclarecedor. Como eu, Fernando Pinheiro, não se contenta com a explicação de um bom plano de marketing ( embora reconheça a sua importância) .

O silêncio unânime da crítica ( sinal de seu pouco valor na escala dos objetos dignos de interesse intelectual)  leva Pinheiro à conclusão de que o fenômeno representado pela produção de Paulo Coelho diz respeito ao mercado e não à literatura, mas, apesar disso, não o impede de tentar entender os dois lados: que “qualidades” tornam Paulo Coelho tão universal,  que “defeitos” o tornam tão invisível, literariamente falando.

Primeiro as qualidades:  o que faz o pacto ficcional entre Coelho e seus leitores funcionar?

Segundo Pinheiro: …as referências herméticas que manipula na assertiva decisiva de que …

Estou brincando ao transcrever essa frase do artigo porque uma das “qualidades” a que Pinheiro se refere é a linguagem fácil, sem sofisticação. Escola à qual o artigo não se alia ( precisei ler umas duas vezes  para entender direito).

Vamos lá, traduzindo.

Segundo Pinheiro todos os livros de Paulo Coelho seriam variantes de um mesmo tema: uma jornada pelo extraordinário capaz de reverter o tempo e permitir uma segunda chance.   

Ou seja, com palavras simples, o pacto seria: o guia/autor se compromete a facilitar ao aprendiz/leitor uma jornada através do extraordinário com a chance de reverter o tempo e fazer escolhas que, na verdade, deveriam ter sido feitas muito antes, na adolescência.

 Desde que o leitor se deixe guiar,  segredos esotéricos capazes de reverter o tempo e dar a oportunidade de novas escolhas se tornarão disponíveis pois serão apresentados numa linguagem fácil.

Essa linguagem, ponto chave do pacto, é feita propositadamente de clichês. Algo como: Nunca desista de seus sonhos. Ou então:  Quando você deseja uma coisa o universo conspira para realizá-la. Ou ainda: O Extraordinário reside no Caminho das Pessoas Comuns (sic.).

O que explicaria  a universalidade de Paulo Coelho, portanto, seria oferta da possibilidade de manipular e mesmo reverter o tempo mediante a leitura de uma jornada apresentada pelo autor/guia de forma perfeitamente compreensível .

Quem não quer levante o dedo!  Definitivamente, em termos de pacto, Paulo Coelho tem muitos anos de praia….  

Amanhã falarei sobre o outro lado da moeda, ou seja, falarei sobre o que, na opinião de Fernando Pinheiro, torna a literatura de Paulo Coelho algo que pode interessar à sociologia do consumo, mas não aos estudos literários.

 

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Paixão

05 de fevereiro de 2013 0

CAMISA-BRASILEIRA-Foto-Gilberto-Perin-5

PERIN-CHORO


“ O sujeito pode mudar de tudo. De cara, de casa, de família, de namorada, de religião, de Deus. Mas há uma coisa da qual não pode mudar. Não pode mudar de paixão”

Essa frase , chave para o mistério do filme O segredo de seus olhos ( melhor filme estrangeiro no Oscar 2010), me soou a princípio um pouco estranha.

Como assim , pensei, se não é amor, religião ou Deus,  que paixão é essa da qual não se pode mudar?  

Confesso que ( sendo eu brasileira e sendo o filme argentino)   desconfiei   que poderia ser o futebol, mas depois pensei que futebol era pouco, que essa paixão capaz de marcar um  indivíduo e torná-lo sua presa para toda a vida precisava ser algo bem maior.  

Embora eu não estivesse certa, também não estava errada.  

Eduardo Sacheri  (escritor argentino autor do livro que inspirou  o filme ) falava, sim, em futebol, ou melhor, falava também em futebol.  Usava o futebol para mostrar que cada um de nós é refém de uma paixão particular.  No filme, a paixão, chave do mistério, envolve uma  mulher e uma convicção contrária à pena de morte .

“ Não gosto de ser rotulado como escritor de futebol  ( diz Eduardo) .  Na verdade, eu o vejo como instrumento para tratar do aspecto trágico da vida que se entrevê a partir das histórias dessa linguagem e desses heróis em escala humana.”

Por que pensei nisso como tema de conversa no blog agora, depois de 3 anos? 

É que numa dessas festas de empresa, sentei ao lado de um torcedor do Brasil de Pelotas e imediatamente me lembrei de uma das mais bonitas, delicadas e tocantes exposições de fotografia a que tive a sorte de comparecer:  Camisa Brasileira de Gilberto Perin.

 Essa exposição, que começou de forma singela em Porto Alegre, percorreu todo o Brasil, esteve, se não estou enganada, em  Paris e  virou livro com texto de Aldyr Garcia Schlee ( sim, o que desenhou a camisa da seleção, sim, o que escreveu o conto que (embora não lhe tenha sido dado o crédito) inspirou o filme O banheiro do Papa), pois essa exposição  mostra futebol mas fala de paixão.

Durante quatro meses ( por coincidência, também em 2010), Perin foi uma presença “invisível”   nos vestiários de um pequeno time gaúcho da segunda divisão, o Brasil de Pelotas.  Tirou mais de 3000 fotos, selecionou 110.  O resultado vai muito, mas muito além do vestiário.   Com curadoria impecável de Alfredo Aquino  o que nela se expõe  é a paixão da qual não se pode mudar. A  que nasce do humano e revela o trágico .

Ninguém lê texto muito longo em blog, por isso paro por aqui. Quem quiser saber exatamente  a que eu me refiro pode acessar o site do Perin e ver por si mesmo.

Ps. O nome da primeira foto é Paixão, a segunda é O choro.

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Porque hoje (não) é sábado

23 de janeiro de 2013 1

Há a sensação angustiante

Porque hoje é sábado

De uma mulher dentro de um homem

Porque hoje é sábado

                                               ( O dia da criação, Vinícius de Moraes)


Leio, numa longa reportagem de Samy Adghirni  ( Folha de São Paulo de 13 do corrente janeiro) que no Irã não existem  homossexuais.

Essa é pelo menos  a situação oficial desde que assim o declarou,  em 2007, o presidente Mahamoud Ahmadinejad.

Não existindo a homossexualidade, é óbvio que assuntos relativos à  vida civil dos homossexuais  (casamento, herança, filhos e tantas outras)  não tem a menor chance de serem previstos em lei.

Já transexuais, esses existem e são legalmente reconhecidos. Essa visão, segundo a reportagem originou-se do fundador da república islâmica Ruhollah Khomeini que se teria solidarizado com a situação de um  devoto xiita  que  o convenceu ser uma mulher presa no corpo de um homem.

Ainda que o assunto seja polêmico sob o ponto de vista da religião, prevaleceu, mesmo aí, a corrente de ser essa a forma de compreender-se a mensagem divina : “  … ninguém  está mudando a o atributo da natureza criada por Deus . O humano continua humano. Trata-se apenas de sintonizar corpo e mente “,  afirma o clérigo Mohammad Karimina.

Na verdade, no Irã,  os transexuais são apenas heterossexuais vítimas de uma doença  curável mediante cirurgia. 

Assim é que, desde inícios dos anos 2000, o Estado passou a pagar o valor total dessas cirurgias ( entre US$ 8.000 e US$ 10.0000) .

Claro que a coisa toda não é feita de qualquer maneira. Cada cirurgia é precedida por meses de sessões com médicos, psicólogos, psiquiatras e médicos legistas.

Mas não pensem que apenas porque lá a operação é mais fácil de ser realizada do que aqui (no Brasil ela pode ser feita pelo SUS, mas são anos e não meses de espera)  o preconceito seja menor.  Após a cirurgia, a rejeição pela sociedade e o sofrimento são os mesmos, tanto lá quanto aqui.

 Acho que já escrevi algo sobre aquele filme Transamérica (Felicity Huffman ,indicada ao Oscar de melhor atriz)  no qual um pai, com cirurgia genital marcada, precisa acompanhar o filho numa viagem. Ótimo filme ( tem completo no youtube) . Quem o assistiu, consegue entender ( pelo menos em parte) que há casos em que realmente a cirurgia se impõe.

Só que não pode apresentar-se como um substituto, não pode vir acompanhada da negação da homossexualidade, do seu reconhecimento e regulamentação.

O triste é que, segundo a reportagem, no Irã,  o sentimento  da maioria dos operados é esse: Eu não teria mutilado meu corpo se a sociedade tivesse me aceitado do jeito que eu nasci.

Triste isso. Triste e angustiante, versos do Vinícius.

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Nós, as frágeis.

17 de janeiro de 2013 2

Não adianta negar.  Claro que somos frágeis.  Já se esqueceram da estudante de 23 anos estuprada por seis num ônibus e atirada pela janela?  E da outra, de 29 anos, atacada um mês depois. Daquela, agarrada ao descer de um trem, violentada, assassinada e deixada pendente de uma árvore? Da que tinha apenas  17 e  suicidou-se porque, imaginem só, não quis dar fim ao assunto casando-se com um dos estupradores. Sim, somos frágeis lá na Índia, mas somos frágeis aqui também onde  acabaram de matar a Marcia, a quem chamavam de Marcia do Gil. Foi degolada pelo próprio, pois se era do Gil, não pertencia a ele? Essa não foi estuprada, só morta, certo, mas temos estupradas também e não é de agora. Desde menina soube das crianças violentadas em suas casas, vezes sem conta, pelos pais, pelos tios e pelos avôs.  Soube pelas conversas das empregadas quando pensavam que eu não ouvia. Somos frágeis sim, e no mundo todo.  Somos frágeis até na África, de onde contam  que a mãe de todas nós saiu conduzindo sua tribo há muitos e muitos anos. Dizem que lá, na África,  nem as senhoras acima dos 80 escapam e dizem que os estupradpores sequer se preocupam em fugir, ficam  tomando cerveja, porque, justiça seja feita,  violentar  uma menina de 17, que incidente mais trivial! Somos definitivamente frágeis. Precisamos fazer alguma coisa, tomar uma atitude. Frágeis assim, como podemos ter alguma chance? Vamos ser realistas e iniciar um movimento exigindo quotas para entrar nas faculdades? Sem isso, como podemos  ir adiante, termos melhores salários, chegarmos à presidência de algum país, ou sermos CEOS de uma empresa melhorzinha? Esse, o das quotas, seria um movimento realista.  Mais do que isso, seria pedir demasiado.  

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