Quando minha neta tinha 3 anos, ganhou, da nossa cozinheira, uma galinha, a Nanica. Era uma galinha garnizé branca que, dia sim, dia não, punha um ovinho, mas cuja qualidade maior era a paciência. A Nanica se deixava levar no colo, descia com minha neta pelo escorregador, andava de balanço: uma companheirona.
Um dia, assim como dizem que Deus fez com Adão, achamos a Nanica solitária e compramos um galinho, o Nanico. Dessa feliz união nasceram 3 pintinhos que não chegaram a ter nomes porque, naquela semana, um gato ou um gambá, um bicho desses, noturnos, matou a família inteira dos Nanicos.
Felizmente a tragédia aconteceu durante um feriado prolongado, minha neta estava viajando e, assim, alguns dias se passaram até que viesse e desse falta da Nanica.
Cadê a Nanica?, ela perguntou, assim que desceu do carro.
Talvez o mais correto tivesse sido eu dizer, a Nanica morreu, mas, confesso, não tive coragem. Não quis aproveitar a Nanica como pretexto para apresentar a morte a minha neta, disse apenas: A Nanica, foi pra casinha dela.
Perdi a oportunidade de ensiná-la a lidar com a frustração? Talvez, só que naquele momento, como ainda agora, quase um ano depois, minha neta não se daria por satisfeita com essas palavras – a Nanica morreu - porque naquela ocasião, como ainda agora, ela não sabe exatamente o que é a morte.
Se eu dissesse - a Nanica morreu – ela certamente perguntaria: o que é morrer? e eu teria que dizer que morrer é sumir, desaparecer para nunca mais.
Então ela perguntaria o que todas as crianças costumam perguntar: por que? E eu teria que explicar que não existe porquês, que é assim mesmo, as plantas morrem, os bichos e as pessoas, por mais que sejam amadas, morrem, que nós todos, inclusive ela, um dia iremos morrer.
Não satisfeita, minha neta perguntaria de novo mas, por que? E eu teria que ir adiante, explicar, talvez que a vida é assim mesmo, que nascemos todos condenados e que até mesmo Deus, que pensávamos imortal, foi recentemente declarado morto.
Escolhendo dizer que a Nanica não estava porque tinha ido para a casinha dela, dei à minha neta a chance de, a partir da ficção, aceitar a ausência aos poucos, sem muitos questionamentos.
Agora, quase um ano depois, embora ainda não entenda com clareza o que é a morte ( alguém entende?), minha neta sabe que a Nanica morreu, morte é quando a gente não está mais, só que agora a figura da Nanica já está diluída e sua ausência não dói tanto.
Por que estou falando sobre isso?
É que durante essa semana foi lançada a campanha institucional de uma rede de farmácias aqui de Porto Alegre. No filme, os pais de uma menina precisam decidir se contam ou não a ela que seu peixinho vermelho, o Lilinho está dormindo de um jeito engraçado dentro do aquário porque está morto.
Semelhante a mim, os pais do comercial resolvem adiar o encontro da criança com a morte só que, ao invés de dizerem que o Lilinho foi, por exemplo, para o mar, optam por substituir o peixe morto por um outro, igual.
Desde que foi lançado, o filme tem gerado polêmica: deve-se ou não adiar o encontro de uma criança de 4 anos com a realidade da morte.
Uma jornalista, a quem não conheço pessoalmente, mas a quem respeito muito como profissional e como escritora, se posicionou francamente contra. Disse que, embora seja, apenas um comercial inocente tentando contar uma história terna, o filme expõe a dificuldade dos pais de hoje de lidar com as frustrações dos filhos e que se trocassem o que chama de a lei do Lilinho pela Lei de Nietzsche - aquilo que não nos mata nos torna mais fortes- eles teriam mais chance de fazer de seus filhos adultos generosos e relativamente equilibrados.
Embora concorde com Nietzsche e também com minha avó que dizia, o que não mata, engorda, discordo cordialmente dessa jornalista. Discordo, primeiro, porque não acho que a dificuldade a que ela se refere seja dos pais de hoje, ela sempre existiu. Segundo, porque, como já contei, agi de forma semelhante, e, por fim, porque não penso que o filme seja apenas um comercial inocente tentando contar uma história terna.
É que, diferente dela, eu conheço a história atrás do comercial. Vi essa rede de farmácias nascer. Sei que uma das razões pelas quais ela progrediu, talvez a principal, foi porque seus criadores entenderam, desde o início que , assim como acontece nos hospitais, a doença e a morte rondam as farmácias. Por isso, numa farmácia, é importante interferir, apoiar, amparar as pessoas, atende-las com paciência e, dentro do possível, preservá-las, não da morte, pois isso é impossível, mas da tristeza infinita que a doença e a morte vestem quando se apresentam.
Não, minha querida jornalista, o comercial não é só um filminho sobre um peixinho vermelho. É um filme sobre um segredo que, na verdade, não é segredo nenhum porque está presente em todas as empresas de sucesso. Tu mesma deves conhece-lo muito bem uma vez que convives diariamente com ele.
A rede de comunicação onde trabalhas (e que, tenho certeza, orgulhosa, consideras como tua) nasceu de uma história, a história da dona Rosinha que se mudou de uma cidade minúscula para outra, um pouco maior, para que seu filho mais velho, o Maurício, pudesse estudar. Progrediu porque esse Maurício e seu irmão mais moço, o Jayme, vieram para a cidade grande e trabalharam duro e a esposa do Maurício também trabalhou duro e hoje seus filhos e netos continuam trabalhando duro, mas mantém-se grande principalmente porque, sem jamais esconder a verdade, sempre se importou ou, dizendo de outra forma, sempre pensou mais nas pessoas do que nos números.
Tragédias existem muitas e há jornais que vivem delas, sem piedade. Não me parece ser o caso da empresa em que trabalhas. Discreta, sem esconder a verdade, ela tem o seu ritmo e permite que as pessoas assimilem, com calma, o mundo e suas mazelas.
A dureza da verdade, as frustrações são importantes para o crescimento pessoal?
Sim, são fundamentais. Sem enfrenta-las, ninguém se torna realmente uma pessoa, mas voltando ao Lilinho, discordo da tua crônica pois penso que existe um tempo para tudo. Tempo de enfrentar, tempo de consolar, tempo até mesmo de ler Nietzsche e tentar compreender o incompreensível. Se esse tempo chegar na hora certa, que bom!, se chegar cedo demais, será mesmo tão prejudicial interferir e adiar a tristeza até o momento em que ela possa ser entendida?