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O Livro com Du Moscovis e Christiane Jatahy

01 de junho de 2011 0

Desde o princípio, foi como estar dentro de uma metáfora, a do complicado caminho de quem trabalha com a arte. Uma rua deserta do centro, um prédio antigo, um grupo (pequeno) de pessoas. Junto-me a elas. Descemos alguns degraus até o elevador minúsculo e fraco (suporta o peso de quatro por vez). Apesar do nosso destino ser o sexto andar, subimos até o quarto, a altura máxima que o elevador consegue alcançar mesmo com apenas quatro pessoas. De lá, em fila, por uma escada estreita, em caracol, até o sexto andar.
Sala despojada, cortinas pretas, uma cadeira branca, luzes, a jarra com água, um copo, aparelhos para controlar luz e som, duas lanternas e, ao fundo, um rolo enorme de papel.
A presença imponente do rolo de papel escrito com tinta que só torna-se visível com a luz e que depois será desenrolado e cobrirá o “palco”, tem o dom de nos transportar ( mais do que para dentro de um palco) para dentro de um livro.
Não é um livro qualquer, é o símbolo da maldição de uma família: a cegueira ( não há como não pensar em Borges apesar de não haver nenhuma referência direta a ele).
De geração em geração, esse livro será entregue pelo pai ao filho que logo estará cego.
O texto original (extremamente poético) é de Newton Moreno, a interpretação (maravilhosa) de Eduardo Moscovis, a direção (excelente) de Christiane Jatahy.
Baseada em pesquisas feitas com pessoas que ficaram cegas, Christiane interfere direto no texto, cria o estranhamento, a ruptura e ( como já fez em Corte Seco) nos deixa suspensos entre o texto ral, “oficial” e a realidade que, na verdade, não é realidade mas apenas outro texto ( mais uma vez, Borges) .
O cenário, no seu aparente despojamento, tem toques geniais.
O rolo de papel escrito em tinta que apenas a luz ( justo o que o cego não tem) revela vai sendo, pouco a pouco, rasgado para que as palavras tomem forma, sejam moldadas, passando do visual para o táctil. A cortina do fundo que se abre ao final da peça revelando uma janela e a rua além dela inverte o lugar tradicional da “quarta parede” ( a platéia) do teatro ao mesmo tempo em que mostra uma abertura no desespero, uma nova maneira de olhar. São muitas as metáforas.
Tive a oportunidade de conversar um pouco com Christiane ao final do espetáculo. Em setembro, ela está voltando para o Porto Alegre Em Cena e, em julho, estará aqui com o longa A falta que nos move. Vale a pena acompanhar essa moça. Aplausos também para o Du Moscovis que não se limita a textos fáceis, pequenas peças comerciais, mas anima-se a ir adiante.

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