Baseado num conto de Eça de Queirós, esse filme do cineasta português Manoel de Oliveira me causou, primeiro, um estranhamento, então me dei conta de que o estranhamento acontecia porque, nesse mundo de gritos e correria, o filme é, literalmente, uma pequena e discreta joia.
Como pequena joia, Singularidades precisa ser examinado com cuidado e atenção de lupa, cada cena é cheia de detalhes, como um quadro.
O filme é realmente pequeno, ou curto — 63 minutos.
Manoel de Oliveira já começa brincando com esse fato: dos 63 minutos os primeiros 5 são gastos mostrando o fiscal do trem a perfurar os bilhetes dos passageiros como se, no frigir dos ovos, o tempo realmente não importasse.
Essa é a primeira entre muitas metáforas.
Não apenas o tempo não importa, ao trazer o poema do Caeiro (dos heterônimos do Fernando Pessoa, o mais desprendido de tudo, o mais estóico, digamos assim), Manoel de Oliveira afirma que toda a correria, nossa agonia de viver, nossos desejos são sem sentido, há que deixar a vida fluir com fluem os rios ( ou os trens).
Nossos desejos não tem importância, e, no entanto, o filme trata, basicamente, do desejo.
Não o desejo explícito, comum, ordinário. O filme mostra o desejo mais forte de todos aquele velado por leques, cortinas, proibições, segredos.
E, ainda, como caixinha de veludo onde se insere a joia, há que considerar-se a idade do cineasta: fará 103 anos em dezembro.



