Recebi nesta manhã uma mensagem de uma médica que atua no Programa Saúde da Família em Porto Alegre. Fica claro que há um desconforto da categoria em relação ao debate que vendo sendo feito vinculando a criação de uma fundação (IMESF) e o trabalho dos postos de saúde na capital. As equipes que atuam no PSF hoje são ligadas ao Instituto de Cardiologia (antes eram ao Sollus e antes à Faurgs), contratada pelo município para implementar as ações de ESF na cidade. E neste vínculo de trabalho todos batem ponto.
A instituição do ponto eletrônico em Porto Alegre irá afetar todos os funcionários dos municípios e não está vinculada à criação do IMESF. Quando o prefeito José Fortunati fala que alguns médicos não cumprem sua jornada e não batem pontos refere-se aos que atuam nos postos (UBS). Depois de implantado o ponto no município, todos passarão a bater cartão ou ter que colocar suas digitais no controle eletrônico. Com o IMESF, os funcionários da nova fundação também serão contratados por concurso, de acordo com o projeto, em uma transição que irá de seis meses a dois anos.
Publico abaixo a integra da mensagem que recebi como comentário em post anterior. Em razão da relevância dou a ela este destaque para que não se misture mais maçãs com laranjas.
Há vários dias está sendo divulgado que os médicos dos postos de saúde de Porto Alegre não querem a fundação pública de direito privado para a contratação dos profissionais do PSF, porque não querem cumprir horário, recebem pouco e, portanto, trabalham em vários empregos.
No posto de saúde realiza-se educação em saúde, prevenção em todos os seus níveis, diagnóstico precoce e tratamento de doenças agudas e crônicas, muitas das quais se prevenidas e/ou tratadas de forma efetiva e a tempo na atenção primária evitariam hospitalizações desnecessárias, e, consequentemente, diminuiriam visitas às emergências e evitariam superlotação de hospitais.
Porém, é preciso fazer uma distinção entre os postos de saúde de Porto Alegre. As Unidades Básicas de Saúde, unidades tradicionais da prefeitura, atendem com um clínico geral, um pediatra, um ginecologista, demais especialidades e profissionais da saúde, auxiliar administrativo e serviço de segurança, com exceção dos profissionais da segurança, são todos concursados da prefeitura da capital e não estão submetidos a ponto eletrônico. As unidades do Programa Saúde da Família (PSF), entretanto, atendem comunidades sob sua responsabilidade em áreas geograficamente delimitadas e contam com uma equipe mínima: um médico de família e comunidade, um enfermeiro, dois técnicos de enfermagem e quatro agentes comunitários de saúde, todos com contrato de 40h semanais e ponto eletrônico há 2 anos.
Desde a sua criação, em 1994, o PSF é considerado uma estratégia nacional para reorientação do modelo assistencial, com caráter substitutivo das práticas convencionais e que pode resolver cerca de 85% dos problemas de saúde da população de que é responsável. A expansão do PSF tem demonstrado melhora nos indicadores de saúde da população brasileira, com redução da mortalidade infantil e diminuição do número de internações hospitalares.
Mas o que esperar de uma cidade que tem apenas 86 equipes de PSF, com uma cobertura de cerca de 20%, que contrata os profissionais através de um intermediador que demite seus funcionários a cada dois anos, readmitidos posteriormente por outra empresa (ninguém mais se lembra do escândalo do Instituto Sollus e do desvio de alguns milhões), que não realiza concurso público que daria a estabilidade necessária para o vínculo do profissional do PSF com a comunidade, que não investe em qualificação, que não tem nenhum plano para conversão da rede de atenção primária e que não cumpriu a promessa de campanha de 200 equipes? Insatisfação da população atendida, insatisfação dos profissionais, rodízio frequente de médicos nos postos e evasão para outras cidades, dificuldades no acesso aos serviços de saúde, qualidade do cuidado insuficiente e emergências lotadas.
Não bastasse tudo isso, existem várias equipes da cidade sem médicos e sem enfermeiros. Assim, profissionais que deveriam atender à população sob sua responsabilidade são deslocados para (en)cobrir a falta de profissionais em outras unidades.
A discussão sobre a forma de prestar uma atenção primária de qualidade na capital deveria envolver a fragmentação do sistema, as restrições ao acesso, a falta de coordenação entre os pontos de atenção, a qualificação e valorização dos profissionais, o vínculo e a continuidade das equipes, a criação de condições adequadas de trabalho e o enfrentamento das doenças crônicas e das multimorbidades; e não ser determinado por agressões entre as partes, que estão misturando o debate sobre o cumprimento de horário nas Unidades Básicas de Saúde com a forma de contratação dos profissionais do Programa Saúde da Família.
Elise Botteselle de Oliveira
Médica de Família e Comunidade
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