Foi forte o manifesto lido há instantes na reunião-almoço dos 110 anos do CIC de Caxias do Sul. A primeira leitura pode ser apenas de que Astor Schmitt deixa a disputa e Heitor Muller será eleito o novo presidente da Fiergs. Foi aplaudido pelos cerca de 180 convidados presentes ao ato. Mas o processo não se dá sem feridas, como queria o atual presidente Paulo Tigre. Schmitt não participará do seu grupo da chapa única e já inicia campanha para a sucessão de Muller, daqui a três anos.

Foto: Julio Soares / Objetiva
Abaixo o manifesto. Os grifos são meus.
EM NOME DE UM PROJETO MAIOR
Há um ano e meio, por disposição pessoal e em nome de uma aspiração regional, decidimos sondar a receptividade que teríamos para concorrer à Presidência da FIERGS/CIERGS. Com o conhecimento prévio do atual Presidente, percorremos o Estado, nos deparamos com diferentes realidades, ampliamos nossa visão da indústria gaúcha e, mais do que um nome e uma aspiração regional, chegamos a um projeto e uma proposta de ação para o Sistema. Esta proposta surgiu do diálogo com as bases empresariais que, ousamos dizer, pela primeira vez foram consultadas com esta amplitude.
Tal projeto de gestão, que propõe ações objetivas voltadas ao desenvolvimento harmônico e sustentado do Estado, contempla as principais áreas de atividade, as diferentes regiões gaúchas e todos os portes de empresas, especialmente as micro e pequenas, que gravitam ao redor das maiores e que, um dia, também serão grandes.
Como fruto de uma equilibrada e ampla articulação com quem produz e gera empregos, conquistamos uma enorme receptividade ao nosso projeto. Colhemos apoio e incentivo de um grupo diversificado de companheiros, que esteve aberto a nos receber nesta jornada, desde o primeiro momento em que a presidência do Sistema FIERGS/CIERGS se tornou um projeto a ser construído com base em parcerias fortes e verdadeiras.
O Sistema FIERGS/CIERGS, entretanto, foi exposto ao risco iminente de divisão entre os Industriais e os Sindicatos, dada a sinalização clara de quebra do discurso público de neutralidade e conciliação por parte da liderança maior da Casa e que conduziu o processo para um caminho pouco transparente, desigual, desleal, obscuro e polarizado.
Embora o apoio construído, sentimo-nos na obrigação de nos abstermos deste processo eleitoral, em respeito à unidade da classe industrial gaúcha, nominadamente dos Sindicatos e Empresários por elas representados. Mais do que um nome, uma região que responde por parcela importante da produção industrial gaúcha, um polo de desenvolvimento que engrandece as estatísticas estaduais dentro do contexto brasileiro se considera vetado.
Arriscamo-nos a dizer, com convicção, que mais do que um nome e mais do que uma região, o veto oficial foi dado também a um projeto de gestão plural, renovadora e de posicionamento da mais importante entidade industrial gaúcha e que está entre as maiores do Brasil.
Abstemo-nos deste processo juntamente com os colegas que se engajaram nesta caminhada, porque não queremos ser protagonistas de uma possível cisão do Sistema FIERGS/CIERGS. Mesmo assim, não estamos desistindo de um projeto que construímos a muitas mãos para a Entidade e, acima de tudo, para contribuirmos com o desenvolvimento do nosso Rio Grande do Sul, que perde espaço no cenário nacional, da mesma forma que a indústria gaúcha se enfraquece frente ao PIB do Estado. Três anos passam rápido demais para quem tem projetos e legítima aspiração regional.
Aos companheiros que estiveram conosco durante todo o período de busca de conhecimento e de apoio, fica o profundo agradecimento pela honra da convivência produtiva e da confiança depositada. Fica também o registro de que, nem sempre, vencer significa participar diretamente de uma disputa eleitoral. A vitória também está no que se construiu. E nós construímos uma proposta de gestão a ser continuadamente aperfeiçoada, para aplicação num futuro bem próximo, além de abrir o debate sucessório para um processo de escolha transparente e democrática, em sintonia com os novos tempos.
À Entidade e aos Companheiros com os quais convivemos ao longo de duas décadas de atuação associativista, nosso sentimento de amizade e do dever cumprido, na certeza de que FIERGS/CIERGS, com sua longa e invejável história, está acima das atitudes que ora vivenciamos e de um pontual processo eleitoral. Este é apenas um recuo estratégico, em nome da unidade da Entidade de Classe em que militamos há tanto tempo.
Contemplada esta etapa, eu, particularmente, permaneço em minha atividade executiva e empresarial junto às nossas empresas, de reconhecida relevância no cenário regional gaúcho e global, sem deixar de contribuir para o debate de ideias e o aperfeiçoamento da instituição que integramos, embora abdiquemos de qualquer cargo.
A todos, o meu agradecimento pelo tanto de experiência e aprendizado que estou acumulando.
Muito obrigado e até logo.
Astor Milton Schmitt
Diretor corporativo e de relações com investidores das Empresas Randon
Vice-Presidente da FIERGS/CIERGS
Comentários