O segundo dia da missão do Rio Grande do Sul na Coreia teve anúncio de novas parcerias do Governo do Estado, como o entendimento com a Sansung sobre a instalação de um centro de pesquisa em uma universidade no Estado. No final do dia, um novo interesse da Hyundai: agora pela administração de parte de um novo terminal de contêineres no Porto de Rio Grande. O Governo do Estado se dividiu nesta terça-feira: o governador Tarso Genro foi tratar de ciência e inovação, e outra parte do grupo, de educação. O secretário da Educação, José Clóvis Azevedo, liderou um grupo que foi visitar algumas escolas.

Foto: Itamar Aguiar/ Palácio Piratini
Esquina Democrática: Ontem foi visitada uma escola particular. O senhor brincou, dizendo que conheceria a Restinga, e acabou conhecendo o Anchieta. Hoje, o senhor conheceu a Restinga, não é, secretário?
José Clóvis Azevedo: Aqui não tem a Restinga. Na realidade, as escolas públicas aqui têm uma alta qualidade técnica, física e profissional. Tive a satisfação de conhecer uma escola de ciência naval, de ensino médio, que forma técnicos para operar na indústria de pesca naval. É uma escola pública, gratuita, com 900 alunos. Possui uma estrutura de laboratórios, com simuladores de navios. Trabalham a questão do manejo de navios, da mecânica dos navios e do processo de industrialização e de comercialização da pesca.
ED: Como é que isso inspira para o trabalho que deve ser feito no Rio Grande do Sul?
JA: A visita me estimulou a perceber um nicho educacional que ainda não tínhamos nos dado conta. O Sul do Brasil é intensamente atingido pela atividade pesqueira, desde Santos até Rio Grande. E essa atividade é desenvolvida como se fosse uma profissão, de pai para filho.
ED: O senhor pensa realmente nesse mesmo modelo, da pesca?
JA: Estamos com um pólo de desenvolvimento naval em Rio Grande, temos uma atividade de pesca muito grande, e deveríamos estar pensando estrategicamente em formar técnicos para essa área. A visita trouxe essa constatação, que devemos trabalhar junto ao Governo Federal para fazermos uma escola técnica com esse perfil no Estado e com a possibilidade de cooperação com a experiência da Coreia.
ED: É possível notar, no Brasil, especialmente no Rio Grande do Sul, um grande desnível em termo de estrutura física, de possibilidade de atendimento dos alunos, entre a escola pública e a privada. Esse degrau é tão grande quanto nós temos no Brasil?
JA: Não. A escola pública é muito bem equipada, tem recursos humanos muito bem preparados, e salários muito bons. O salário de um professor da rede pública está em torno de US$ 60 mil ao ano. Está ao nível de qualquer técnico, ou engenheiro, na atual conjuntura, no mercado de trabalho no Rio Grande do Sul.
ED: O senhor tem restrições ao ensino voltado ao mercado; a base mercadológica do ensino. Aqui na Coreia, existe uma parceria muito grande entre a necessidade da indústria e aquilo que a escola produz. É esse o modelo que o senhor não gosta, ou como funciona aqui serve também para a gente?
JA: O sistema educacional da Coreia tem que estar em conexão com o mercado. Como o nosso trabalho educacional também tem que estar em conexão com o mercado. Temos de formar as pessoas para a nossa vocação econômica. O que discutimos é a redução da educação à questão mercadológica.
ED: Não pode ser só isso.
JA: Exatamente. Inclusive, aqui eles estão revendo esse processo. Ontem, o ministro da Educação me disse que o país está passando por um processo de mudança. A educação voltada apenas para testes, visando vestibular, avaliar produtos, retirou a criatividade. A grande carência da educação coreana e da atividade econômica é a criatividade. Não precisamos perder esse tempo de passar por uma experiência que eles já estão inovando. Devemos entrar em um novo patamar da educação coreana, que é essa visão de articular a formação humanista, com a formação para o trabalho.
ED: Chegar para onde eles estão indo, e não para onde eles vieram.
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