Um dos desafios que tive aqui na Argentina foi localizar uma família kichnerista. Contar um pouco da história de um casal e seus filhos que tenham vestido a bandeira do Casal K ao longo dos mandatos de Néstor e Cristina. Contei com a ajuda de três mulheres. Sara (a Bodowsky), Mabel e Romina. Minha amiga Sara estava em férias por aqui na última semana. Quando soube que viria cobrir a eleição pedi ajuda. Sara é amiga de Mabel, uma garçonete com a mesma alegria da Sara que atende no El Nacional, um restaurante simples a poucas quadras da Casa Rosada. Com a indicação da Sara, lá fui eu.
Pode não parecer, mas sou um tanto tímido. Sentei em uma mesa, pedi uma milanesa e almocei. Na hora de pedir a conta perguntei à garçonete:
- É você a Mabel? Não era.

'Locos' por Cristina, os Basile receberam Zero Hora em sua casa
Foto: André Machado
Mas Mabel estava lá ao fundo. E esperando por mim. Vi que a timidez me fez perder tempo, mas fui recompensado. Mabel me deu o telefone de Romina, uma assistente social, que também aguardava por mim. Vibrei. Havia chegado aos personagens que precisava: Romina e sua família. Cheguei ao hotel e liguei. Romina também esperava minha ligação, mas o personagem não era ela. Indicou-me um casal com dois filhos que morava em Parque Patrício, região de Buenos Aires que os turistas brasileiros não costumam frequentar.
E lá fui eu no dia seguinte. Era sexta-feira, oito da noite no Brasil. Faltavam poucas horas para o fechamento da edição de domingo de Zero Hora. Com o auxílio de um taxista que odiava Cristina cheguei à casa da família Basile. Se a Virgem de Luján é a padroeira da Argentina ela certamente me abençoou. Não sei se a matéria que vocês estão lendo em Zero Hora está a altura do que vi neste casa. Há algumas coisas que são recompensadoras no jornalismo. Uma delas é conhecer gente feliz, conviver com uma família que deu certo. E Hugo, Maria Julia, Manuel e Luna são visivelmente felizes.
Na chegada tomei um susto. Nada a ver com o longo corredor que me leva à última entrada da casa que fica aos fundos do terreno. Nem mesmo com o assédio de Amelie, uma cadela preta de nove anos que completa a família. O que me assustou é que Hugo não estava. Pouco antes da minha chegada seu pai passou mal e precisou leva-lo ao hospital. Pensei comigo...paciência. Vamos adiante.

Manuel milita na juventude kichnerista. É torcedor do River Plate
Foto: André Machado
E comecei a conversar com Julia. Uma mulher que nunca foi peronista, mas que passou a gostar dos Kirchner pelas ações dos dois governos. Luna, uma menina mais tímida do que eu, com apenas 14 anos desfilava uma série de razões para torcer por Cristina e todas em defesa dos Direitos Humanos, como o casamento igualitário. Manuel, dois anos mais velhos, tem as unhas longas de quem toca guitarra. E com a mesma garra defende o governo.
O que mudou na vida dos Basile com os governos Kirchner? Quase nada. Seguem vivendo em um bairro de classe média, o casal trabalha em escolas públicas e público também é o colégio dos filhos. Mas entendem que o país está em harmonia. Que há menos miséria na rua, menos gente com fome, mais gente com acesso ao trabalho e uma melhor oportunidade de futuro para Manuel e Luna.

Fã do Red Hot Chilli Peppers, Luna é também fã de Cristina
Foto: André Machado
Procurei uma família kichnerista para tentar entender este fascínio que faz com que os argentinos personalizem tanto as suas convicções políticas.
Estava indo embora e Hugo chegou. Brinco pequeno na orelha esquerdo, trata Néstor e Cristina com devoção. Guarda todos os jornais da semana da morte do ex-presidente. O resultado da conversa com os Basile está publicado na edição de domingo de Zero Hora. Há um video também em zerohora.com. Agradeço à Sara, Mabel, Romina, Maria Julia, Hugo, Manuel e Luna. Venha o que venha nas eleições de amanhã que seja para a construção de um país melhor e com reflexos positivos também no Brasil. O melhor da democracia é vivê-la. E Brasil e Argentina sabem bem o que viver sem ela.
Quando pergunto a Lucia e Hugo o por que do apoio à Cristina, a resposta está vinculada à liberdade. Hugo viu parceiros do futebol da juventude desaparecem no regime militar. O mesmo ocorreu com Maria Julia ao tentar reunir sua turma anos depois da formatura (1975). Muitos haviam desaparecido.
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