
Cronistas, ilustradores, escritores e jornalistas em Joinville falam de todas as vertentes que fizeram de Millôr Fernandes uma personalidade inesquecível e de várias facetas artísticas.
Millôr tradutor Um dos pontos altos da trajetória de Millôr Fernandes foi sua criação dramatúrgica, com peças como "É..." e "Os órfãos de Jânio". Millôr também é responsável por outra transformação significativa no teatro brasileiro: as profícuas traduções de peças que iam de clássicos gregos, passando por Shakespeare, e vindo até autores modernos como Fassbinder. Nesse ponto, ele se estabeleceu como uma das principais referências da tradução brasileira, impondo aos textos traduzidos seu estilo pessoal, culto, politicamente contundente. Qualquer tradução de Millôr Fernandes era garantia de um trabalho bem feito, cuidadoso, um trabalho que viria impor algum nova transformação à literatura ou ao teatro.
Rubens da Cunha, escritor e cronista do "Anexo"

Millôr frasista Com a morte do Millôr, a ironia perdeu seu maior senador (a vida continua sendo a presidente da República da Ironia). Foi-se nosso maior frasista, uma das mentes mais aguçadas da cultura brasileira, capaz de resumir um dilema dostoivéskiano em poucas palavras, e com precisão cirúrgica. "Todo homem nasce original e morre plágio", já escreveu certa vez Millôr, o melhor, que nasceu original e morreu mais original ainda.
Carlos Henrique Schroeder, escritor e cronista do "Anexo"
Millôr cartunista Falar sobre o Millôr dá logo um complexo de inferioridade desgraçado na gente. Se acerto a mão numa ou outra charge bem bolada, coisa que acontece "sempre" de ano em ano (bissexto), e algum exagerado e me chama de "gênio", eu rio mudo e penso: Eu? Gênio é o Millôr!!! Ele que não gostava de rótulos foi carimbado na testa: gênio. Disse até que preferia ser um "qualquer coisa" do que ser rotulado de jornalista, cartunista, poeta, tradutor, escritor, etc. Ele preferiria ser o etc. Eu comecei a lê-lo cedo no Pasquim. Meu padrasto assinava e pegava carona. Fiquei íntimo de Henfil, Jaguar, Ziraldo, Nani, Ivan Lessa, Paulo Francis, Fortuna, Fausto Wolff e, é claro, Millôr Fernandes. Entender e rir do que eles falavam me tornou meio metido a inteligente, ainda mais com a minha carinha por trás de um óculos que me dava ares de intelectual. Uma fraude. Ver que aqueles desenhos que eles faziam eram tão sem frescura que me fez querer ser chargista também. Ou seja, a culpa é todinha deles. Desenhar toscamente até que é fácil, agora só um detalhe: ser um gênio. Meio Millôr já daria pro gasto. Continuo tentando até hoje.
Frank Maia, cartunista de "AN"

Millôr chargista Para se fazer uma boa charge, informe-se. Leia bons jornais, assista aos telejornais, escute os cronistas, fique atento às atualidades. Quando tiver certeza de que a charge está boa, rasgue, jogue fora e tente imaginar o que o Millôr faria.
Sandro Schmidt, criador da tira Cão Tarado
Millôr twiteiro Nem todos os escritores se adaptam aos 140 caracteres do Twitter. Só os de texto direto, certeiro, que conseguem dizer o que mais importa em poucas palavras. O humor de Millôr era exatamente assim, e por isso seu perfil no microblog era acompanhado por mais de 300 mil pessoas. Era uma delícia acompanhar seus pensamentos de perto, sempre relevantes e atuais. Na descrição do perfil, Millôr se definia apenas como "Guru do Méier". E em meio a tantos elogios póstumos profundos, ouso homenageá-lo usando desta mesma simplicidade: O mundo fica mais triste sem você, guru. #RIPMillôr
Lívia de Souza Vieira, jornalista e professora de novas mídias do Bom Jesus/IELUSC
Millôr cronista Escritor sem estilo – ele próprio se definia. Ácido palanque de todos nós, que amávamos – ou nem tanto – a revolução. O cronista sobrevivia aos trancos e barrancos sob o jornalista, o contador de histórias, o humorista. Mas, ainda assim, o poeta do país sem eira nem beira que abrigou sua juventude e maturidade. A sensibilidade de artista, por vezes, sucumbia à raiva da impotência diante das coisas que não conseguia entender, muito menos, mudar. E, no entanto, nem era preciso ver entrelinhas para perceber a intensidade de seu ser – e a grandiosidade de sua alma, que sempre passeou, faceira, por todos os temas, todos os estilos, todos os ambientes sociopolítico-financeiros... Ateu convicto, que se dizia um crente na arte de não-crer, sua crônica era sempre o avesso. Ironia? Era, mesmo, profundo conhecedor da alma humana - tão familiarizado com ela, que chamava Freud e Jung de "bichas loucas" e conseguia dar pitaco em tudo. Vai, assim, como chegou – e ele próprio se despede, sem dizer adeus: "E lá vou eu, de novo, sem freio nem paraquedas. Saiam da frente, ou debaixo que, se não estou radioativo, muito menos estou radiopassivo".
Ana Ribas Diefenthaeler, jornalista e cronista de "A Notícia".

Millôr crítico Não sei se Millôr escreveu sobre a inveja. Talvez tenha escrito enquanto eu andava distraído. Mas esse sempre foi o sentimento que ele despertou em mim. Não uma daquelas invejas negativas (essas são para os fracos), mas uma inveja de quem olha para o talento superior com respeito. Millôr conseguiu uma proeza invejável no Brasil: viver da escrita. E ainda por cima se divertir com isso. A sua faceta mais instigante era a de crítico-frasista. É fácil fazer crítica usando um chorrilho de argumentos formais ou o palavrório acadêmico. Difícil é resumir a crítica numa única frase. E, no caso de Millôr, não eram frases quaisquer. Eram curtas e incisivas, daquelas que fazem rir ao mesmo tempo em que obrigam a rebobinar o cérebro para refletir. Outra marca autoral de Millôr. O seu estilo corrosivo não fazia concessões: todos eram alvo da sua acidez, inclusive ele próprio. Ele tinha essa a virtude (rara nos dias de hoje) de rir de si mesmo. Ou até, quem sabe, rir da própria morte. Como o próprio Millôr fraseou: "Cadáver é o produto final. Nós somos apenas a matéria-prima".
José António Baço, colunista de "A Notícia"
Millôr do Pasquim Millôr Fernandes foi uma inspiração para milhares de jovens no início da distante década de 70 do século passado. Escritor com fina verve irônica, a captar a essência dos fatos em sua integralidade, auxiliou a tirar da escuridão muita gente que não tinha acesso às verdades escondidas por jornais e revistas atreladas ao poder, à época. Ir toda semana à saudosa Casa das Revistas, na rua Nove de Março, era uma sensação prazerosa e de boa lembrança. Millôr despontava com textos críticos e sempre bem humorados. Os seus cartuns também animavam adolescentes, como eu, antes das provas de matemática e física. Era preciso relaxar. A leitura era essencial. E a releitura, idem. Para isso se faz coleção, que foi desfeita com a mudança para Curitiba em 1974. Onde, lê-lo, na faculdade, continuava imperativo. Pasquim, Opinião e Argumento moldavam nossa visão histórica e política naqueles anos de chumbo.
Claudio Loetz, colunista de economia de "AN"
Millôr pensador A melhor filosofia mora no Millôr. Ele dispôs das grandezas metafísicas, no feijão com arroz, no miudinho do dia a dia, com parcimônia e tempero de cor. Mestre em muitas artes, foi insuperável nas flagrantes de nos pegar pensando no meio de uma risada. Filósofo do cotidiano, desenvolveu o método "risocrático". Um pessimista, como todo pensador, mas sem abrasivos. Millôr transita entre Novalis, Dalton, Cioran, Bashô e Nietzsche, porém, com picardia. Senão, vejamos: "Deus é um desespero que começa onde todos os outros acabam." (Cioran). "O cara só é sinceramente ateu quando está muito bem de saúde." (Millôr). "Na vingança e no amor a mulher é mais bárbara do que o homem." (Nietzsche). "O pior casamento é o que dá certo." (Millôr). Como ele sempre preferiu rir o pranto, esse hai kai é de ocasião: "Há colcha mais dura/ que a lousa/ da sepultura?". Para fechar, fica um último conforto: "O pior não é morrer. É não poder espantar as moscas."
Joel Gehlen, jornalista e cronista do "Anexo"
Millôr amigo Millôr Fernandes foi, para mim, sempre um estado de consciência, do pensamento – ouso dizer – e da cultura do País. Acompanhei-o desde que apareceu nas folhas – "O Cruzeiro", "Pif-Paf", "Jornal do Brasil", "Veja", "Isto É", "Pasquim", além de ler livros, traduções peças de teatro, roteiros de filmes, críticas de artes e de teatro, de sua autoria, quando eu ainda morava em Santa Catarina e continuei a fazê-lo depois que vim para o Rio. E não podia ser diferente. Millôr atuou em todos os meios de expressão e a originalidade, o ceticismo, a irreverência, o inconformismo, a presença de espírito foram sua marca, com a qual definiu sua extraordinária presença na literatura e no humor. Nos anos 50, levei-o a Santa Catarina, junto com Sérgio Porto. Quando chegamos ao Centro de Blumenau, desta vez sem ironia ou humor, mas visivelmente surpreso e admirado, comentou: "Chegamos à Alemanha!"
Ilmar Carvalho é escritor, crítico e foi cronista do "Anexo"
Millôr poeta Millôr vinha já desde os anos 80 virando saudade em mim. É que ele havia entrado na minha vida como o ácido humorista da ditadura, ridicularizando com sua ironia aguda os desmandos, fardados ou não, do período militar. Mais tarde, no que então chamávamos o Estúdio de Artes Cênicas da Casa da Cultura de Joinville, resgatei seus textos e os coloquei nas mãos dos elencos do Matinada de Teatro e do Grupo Não Amassa Esse Pão-de-Ló, que, a convite das escolas, decidiu montar dois recitais de poemas. Aí, além de serem unanimemente selecionados para comporem o repertório principal, os poemas, poeminhas, poemeus, poemetos e hai kais de Millôr Fernandes constituíram material substancial para o treinamento vocal e interpretativo dos atores. Os versos de Millôr, bonitos e bem-humorados, serviam perfeitamente para superar nos intérpretes aquele velho modo escolar de dizer poesia. Claro, os recitais foram sempre um sucesso! "Poesia matemática" era uma glória. Muita saudade...
Borges de Garuva, escritor, ator, cronista de "AN"