
Perdeu, São Pedro!
Rubens Herbst | rubens.herbst@an.com.br
Sinto muito, dileto leitor, mas não vou recorrer a um clichê tão surrado quanto “Paul fez chover em Floripa”. Pelo contrário. Digamos que São Pedro, gozador e estraga-prazeres, resolveu dificultar as coisas pra McCartney na quarta-feira, no Estádio da Ressacada: “Vamos ver se esse velhinho é bom mesmo...”. Apostou e se deu mal. Paul não é bom, é excepcional, e se não usou a chuva a seu favor, contornou-a com a reconhecida excelência em um espetáculo certeiro.
Ok, a água deu uma “brochada” no público, que precisou dividir-se entre o que acontecia no palco, capas de chuva e roupas molhadas, mas, no final, Paul consolidou um jogo ganho um mês atrás.
Pontual como se espera de um lorde inglês, Macca tratou de sublinhar com música o devaneio nostálgico, repleto de imagens dos anos 60 e 70, exibidas nos telões nos minutos anteriores: “Magical Mistery Tour”, o primeiro clássico beatle da apresentação, indicaria o caminho a seguir. “Boa noite, manezinhos” inaugurou as simpáticas interações de Paul em português torto e, vez por outra, ilhéu típico. “Que bom estar de volta ao Brasil. Very nice! Tô muito feliz de estar em Santa Catarina pela primeira vez”.
“The Night Before”, pouco tocada na atual turnê, foi a primeira semissurpresa, mas também o início da chuva, que não cedeu mais. Aí, Paul reagiu: com “Let me Roll it”, mostrou habilidade na guitarra e liderou uma coda barulhenta, emendada em “Paperback Writer”. Diante da empolgação, parece que São Pedro se enfureceu e acirrou a chuva em “The Long and Winding Road”, que inaugurou uma longa sequência de baladas, com Macca ora ao piano, ora ao violão. Ao tocar “My Valentine”, única do novo álbum no repertório, assinalou uma frase da música: “Não damos bola pra chuva”. É, mas o palco é sequinho.
Sorte que veio a ótima “Hope of Deliverance”, tocada pela primeira vez no País na atual turnê. Generosidade de Paul, que engatou um trecho de “Yellow Submarine” em “Something”, homenageando George e Ringo numa patada só (mais tarde, Lennon ganharia o seu tributo em “Give
Peace a Chance”). Animada como poucas, “Ob-la-di ob-la-da” esquentou os pés molhados dos fãs, que permaneceram “pilhados” graças a “Back in the URSS” e “I Got a Feeling”. E aqui vale um parêntese pra banda que acompanha o beatle já há dez anos: impecável é pouco.
A trinca matadora “Let it be/Live and Let Die/Hey Jude” tem de tudo: casais se beijando, explosões de fogos e coros de chorar. Agora, pegue esse resumo e multiplique por 30 mil pessoas boquiabertas e delirantes com momentos que não podem ser descritos de outro modo que não épicos. Nada superou isso, nem portentos roqueiros como “Daytripper” e “Get Back”, nem o intimismo tocante de “Yesterday” ou o treme-pista “I Saw Her Standing There”. Faltou “Helter Skelter”, sir Paul, mas não dá nada.
E quem garante que beatlemaníacos não sentiram falta dessa ou daquela? Macca, é verdade, muda poucas peças de seu tabuleiro, incluindo gestos, frases e expressões bem ensaiados. É um entertainment de primeira que tem o povo na mão, escudado por uma história, uma obra e um carisma imbatíveis. Mostrou tudo isso na Capital, mas seria injusto dizer que não sua a camisa. Paul se esforça pra agradar, mesmo que já seja idolatrado. Mas gênio que é gênio é assim mesmo: dá carrinho em campo molhado (literalmente) até quando o placar lhe favorece.
E o meu beatle favorito é o George
Cristiane Schmitz | cristiane.schmitz@an.com.br
Sou uma beatlemaníaca discreta. Não tenho camiseta, CDs remasterizados e caixas especiais. Tenho os óbvios pôsters de Sgt Pepper’s e de Abbey Road, os CDs básicos, e nada mais. E meu beatle favorito é George.
Mas Paul, bem, é um conquistador. Fora de contexto, um homem beirando os 70 anos rebolando no palco, fazendo sons engraçadinhos e tentanto falar “coisa mais quirida” com sotaque inglês estaria, na melhor das hipóteses, gagá.
Mas Paul é um beatle, não tem medo do ridículo – não precisa – tem a energia de um adolescente e a simpatia de uma criança.
Paul não esquece que o que faz dele um beatle são outros três elementos – George, Ringo e John. Todos homenageados no palco com direito a coro geral em “Give Peace a Chance”. Foi na hora de “Something”, de George, que não deu pra segurar: chuva era lágrima e lágrima era chuva.
A chuva sem trégua foi um batismo do rock para uma noite de um público o mais heterogêneo possível – fãs na casa dos 60, adolescentes, trintões e crianças. Paul é tão showman que, a certa altura, não precisaria mais cantar. O seu esforço – correspondido – de dialogar com o público mostra o quanto ele é um astro (desde os anos 60!). E tanto esforço em tornar as três horas de show em um momento mágico para os fãs só mostra a consciência que tem do legado que representa.
“A Day in the Life”, triste e linda, entrou como um milagre no set list do show em Floripa, um presente que quase me fez trocar meu
beatle favorito. Obrigada, Paul, mas não se transfere o amor de um beatle a outro. Mas nada nos impede de amar mais um.
Reencontro com Paul
Cláudia Morriesen | claudia.morriesen@an.com.br
Em 22 de novembro de 2010, Paul McCartney falou “até logo, São Paulo!”. Eu, moça obediente, porém moradora de Santa Catarina, acenei com a cabeça positivamente para o ex-beatle. Ele, a muitos metros de distância lá no palco, não viu – mas isso não importa. Desde que o show da turnê “On the Run” foi anunciado em Florianópolis, estava certo que eu iria reencontrar o garoto de Liverpool. E não digo garoto para me referir à expressão clichê com que Paul era chamado no início da carreira ao lado de John, Ringo e George, mas porque aos 70 anos ele continua fazendo aquelas performances impressionantes no palco, como se ainda tivesse 20 anos e estivesse se apresentando em um bar da cidade natal: só que ali ele estava na frente de 32 mil pessoas catatônicas de surpresa com a animação e bom humor do cara. Foram quase três horas de Paul fazendo piadinhas, rebolando, pulando e fazendo malabarismos com a guitarra.
Aí vocês podem imaginar como eu, que o assisti há menos de dois anos, não me surpreendia com aquele espetáculo que Paul McCartney é sendo apenas ele mesmo (sem contar com a banda que o acompanha, os fogos de artifício e efeitos especiais). E vão entender também se eu disser que estão enganados e a cada nova canção que Macca começava, eu exercitava a capacidade de perder a voz e adorar ainda mais aquele senhor de suspensórios – tipo aquelas paixões que se renovam a cada dia. Então, quando Paul gritou “até logo, Floripa”, vocês já sabem qual foi o sinal que fiz para ele.
Uma divindade da música bem diante dos meus olhos
Michelle Castro | michelle.castro@an.com.br
Floripa transpirava Paul McCartney na quarta-feira. As placas e camisas espalhadas pela Capital saudavam o beatle. Nos ônibus, “Let it Be” e outros clássicos dos fab four embalavam os passageiros ansiosos. Muuuuuuuita fila fora da Ressacada e dentro, taquicardia pura, especialmente às 21h30, quando sir. Paul subiu ao palco. A história da pontualidade britânica não é exagero, gente.
Sabe aquelas mulheres irritantes que vemos gritando nos documentários? Pois é... meio que eu entendo agora. Quando você ouve “Magical Mystery Tour”, “All my loving”, “Jet”, “Drive my Car”, “Paperback writer”, “Eleanor Rigby”, “Ob-la-di ob-la-da”, “Back in the USSR”, “Lady Madonna”, “Get Back”, “Yesterday”, “I saw her Standing There” e tantas outras canções maravilhosas, a catarse é automática. O ponto alto do show foi “Live and Let Die”. Acho que poucos vão discordar. A energia da música somada aos fogos de artifícios e luzes propiciaram um daqueles momentos para a lista dos melhores de toda a vida. Não deu pra conter as lágrimas. “Something”, “A Day in the Life”, “Let it Be” e “Hey Jude” também me emocionaram muito.
Se choveu? Sim, e como. A ponto de os dedos das mãos ficarem enrugados, calçados e roupas ensopados e a alma lavada. Mas como diz o Paul: “We don’t care”
. Sono atrasado, cansaço, gripe, rouquidão: tudo vale a pena. E os integrantes do clube dos 27 que me perdoem: bom mesmo é quem chega aos 69 anos ainda na ativa, rebolando; tocando guitarra, banjo e piano; cantando com uma voz irretocável; fazendo gracinhas em inglês e num inacreditável português; e mostrando por que é considerado a maior lenda viva da música.
Até breve
Rafaela Mazzaro | rafaela.mazzaro@an.com.br
Pela primeira vez, sinto a DPP (depressão pós Paul), que a fã Sônia Regina Machado me confidenciou na última entrevista antes do show, quando a acompanhava na rodoviária rumo à Capital. Cheguei a interrogá-la se vê-lo ao vivo não traria um sentimento contrário, de energias recarregadas, mas ela descrevia o vazio diante do fim de cada apresentação. Ontem, estive na mesma posição. E hoje, amanhã...
Essa foi a minha estreia na plateia de um show internacional. Fui preparada para aguentar horas em pé, sede (na tentativa, em vão, de não precisar ir ao banheiro), fome e chuva (santa capa de chuva!). Só não imaginava que seria fisgada de tal forma, a ponto de pensar mil maneiras de traduzir para familiares e amigos, que infelizmente não puderam ir ao show, o que vi na Ressacada.
Saí da Ressacada sem sentir falta de ouvir as canções de que gosto e ainda conheci novas. Aliás, qualquer set list me satisfaria naquela noite mágica, diante do jeito agradável
(e irreverente) que Macca conduz todo o espetáculo. É por essas e outras, que não cabem neste espaço, que retribuo o “até breve”. Paul, você é massa!
Paul lá em casa, forever and so
Sabrina Passos | sabrina.passos@an.com.br
Tenho a réplica da capa de “Abbey Road” na sala de casa. Trouxe do Museu dos Beatles, em Liverpool. “Across the Universe” está na lista dos top 5 filmes favoritos. “All my Loving” é trilha de um amor já esquecido e preferia “Blackbird” na versão tosca-cover do Foo Fighters. Até quarta, essa era minha maior relação com o fab four. Fui ao show para não perder o momento histórico e, mesmo com a magnitude do evento garantida, não tinha grandes pretensões de paixão-à-primeira-vista-ao-vivo.
Hoje, depois de uma maratona para acompanhar Paul McCartney em Floripa - que inclui poucas horas de sono e muitas horas na estrada -, o coração está balançado. Descobri dentro dele uma paixão até então escondidinha no meio de outras. Paul, com toda simpatia, talento e emoção, me conquistou pelo avesso, no susto. Hoje, é de longe meu beatle favorito. E, descalço, na parede de casa, vai me lembrar todos os dias da emoção do sing along mais delicioso de acompanhar. Love-u, Paul.