Se você cresceu acompanhando as aventuras dos personagens da Turma da Mônica, vai ficar de cara com essa notícia: eles também cresceram. Sim, é isso mesmo. Mauricio de Sousa vai estrear no ano que vem um projeto no qual Mônica, Cebolinha, Magali, Cascão e cia. são adultos. É o que você vai conferir na página 10 do "Anexo" desta segunda-feira. Só pra dar um gostinho, leia entrevista feita por Carlos André Moreira, da Agência RBS, com o criador dos personagens.
Depois de mais de meio século, as criações de Mauricio de Sousa já se fixaram no imaginário de gerações de leitores. Iniciada em 1959 com uma tirinha protagonizada por Bidu e Franjinha, a turma foi agregando personagens, hoje sinônimo de quadrinhos infantis no Brasil: Mônica, Cebolinha, Cascão, Chico Bento e companhia. Pois ainda não é o bastante.Aos 75 anos, o paulista prepara-se para nova empreitada: transformar seus doces personagens infantis em protagonistas de uma novela em quadrinhos, e afetados pelo tempo: Mônica, Cebolinha e companhia se tornarão adultos, crescerão, casarão e viverão a aturidade. "Resolvi acompanhar os leitores, em vez de eles me acompanharem", diz o autor. Por telefone, de seu estúdio em São Paulo, Mauricio falou sobre a proposta da nova série:
O que senhor planeja para essa nova revista?
Mauricio de Sousa – Seria uma cronovela, uma novela no tempo. Ela contará uma história, uma novela sem fim. Vai continuar porque, enquanto há vida, há fatos acontecendo. A minha ideia é montar uma nova linha endereçada a um público novo. Provavelmente, parte do público já existente, tanto da turma criança quanto da turma jovem, também vai ter curiosidade. Mas a ideia é criar um novo padrão de leitores, que vai acompanhar uma novela realista, de famílias onde acontece de tudo, como na vida real.Vai ser um folhetim meio jornalístico, mexendo com o que estiver acontecendo. Tem uma crise nos Estados Unidos com possibilidade de calote, vai se falar disso, vai se mencionar. Para isso, eu preciso de uma nova equipe, não apenas de artistas, mas especialistas em economia, em medicina, jornalistas etc, e vou fazer uma redação para isso.
Vários elementos da Turma da Mônica como os leitores a conhecem há décadas são fantásticos, como a existência do Anjinho ou do Capitão Feio, ou por vezes surreais, como as intervenções do Louco. Como isso funcionaria em um contexto de folhetim realista?
Mauricio – Na Turma da Mônica Jovem, mantive o Anjinho, que já era mesmo um anjo caído. O realismo fantástico é permitido em uma novela de folhetim. Gabriel García Márquez prova isso. Então vamos fazer um belo mix de informações, fantasias, ilusões, conflitos e reconciliações para que todo o público normal, adulto, tenha os ingredientes necessários para acompanhar, para aprender alguma coisa e também para se divertir, porque eu não quero fazer uma coisa dramática, trágica, a vida está cheia de momentos desses. Quando precisar abordar isso, vou passar batido. Vou focar no lado alegre da vida, que é o nosso estilo, a minha assinatura é essa.
Na turma clássica, o elemento da cronologia, da passagem do tempo para os personagens, é irrelevante. Como será lidar com isso nesta série mais assemelhada a uma novela?
Mauricio – Na versão criança dos personagens de turma da Mônica, eles fazem sete anos todos os anos, já até fizemos histórias em que eles se rebelam contra isso como boas crianças modernas que são. Mas ele têm sempre a mesma idade. Na Turma Jovem, eles podem continuar dessa maneira também, mas, na turma nova que vamos criar, que ainda não tem nome, embora tenhamos várias ideias, eles farão aniversário: 19, 20, 21 e daí por diante. A Mônica vai ficar noiva, vai casar, vai ter filho. Esses dias estive no programa Altas Horas, de Serginho Groisman, com o Contardo Calligaris e quando falei disso ele brincou: “Ih, então ela vai se divorciar, também”. Se for preciso, por que não? Vamos falar de divórcio e de como funciona essa coisa, como é que se sai disso. A nossa redação de roteiristas vai ser orientada por psicólogos e outros profissionais para abordar isso. E daqui a 40 anos a Mônica deve estar com 55 anos, provavelmente uma coroa muito enxuta, brabinha como sempre, e os leitores estarão com a idade dela, mais ou menos. Aí, sim, vai haver uma interação do leitor com o personagem como nunca houve. Porque sempre há uma manipulação do autor para que se crie uma “dimensão Peter Pan” nas histórias: o herói ou personagem não envelhece, usa sempre a mesma roupinha, de preferência. Agora estão mudando até a roupa do Super-Homem, mas o Fantasma ficou 400 anos com a mesma roupa, o Mandrake a mesma coisa, os nossos personagens infantis a mesma coisa. Vamos mudar um pouco isso aí.
E já há uma identidade visual para essa nova turma, as versões já foram imaginadas ou esboçadas?
Mauricio – Não temos preocupação com isso porque vamos usar os traços atuais da Turma Jovem. Eles vão envelhecendo, maturando, inclusive, com o que estiver acontecendo inclusive na moda. Vamos buscar a assessoria de desenhistas de moda para isso. Alguém poderia objetar que, à medida que os personagens forem envelhecendo, os mais velhos da história forem ficando mais maduros, mais acomodados,mais de meia-idade, os jovens não vão se interessar pela série. Mas há outros personagens jovens, como a irmã do Cebolinha, Maria Cebolinha, que é um bebê na série infantil e tem 12 anos na Turma Jovem, vai estar com uns 17 anos, então não vamos parar de ter jovens crescendo e maturando nessa terceira linha. É uma revolução, nunca se fez uma coisa dessas nos quadrinhos do Brasil. E sei que vai dar muito trabalho, talvez mais trabalho do que todo o resto que produzimos.
A experiência da Turma da Mônica Jovem foi o que levou a essa terceira linha?
Mauricio - Totalmente. E não só pavimentou o caminho para essa nova série como mostrou que temos alternativas bem variadas. Uma delas também está em livros especiais, no qual convidaremos alguns dos melhores artistas do mundo com total liberdade de desenho, de criação para dar sua visão dos personagens. Tanto que a partir desses livros vamos criar graphic novels, com outros desenhistas criando histórias de outra maneira, totalmente fora do padrão ao qual estamos acostumamos.
A Turma Jovem agora é uma referência para a criação da turma adulta. Mas, durante o processo de criação da Turma Jovem, não houve em um primeiro momento algum receio de mudar e alterar personagens que estão no imaginário de mais de uma geração de leitores?
Mauricio – Houve diversos momentos em que muitos funcionários da minha empresa, artistas, diretores e até membros da editora tiveram algumas dúvidas e receios. Eu jamais tive. Sabia que a Turma faria sucesso. É que sinto há mais de meio século o mercado de quadrinhos e o que aconteceu e deixou de acontecer. Vi e acompanhei diversas experimentações, umas deram certo e outras não. E eu sabia que havia esse nicho aberto pronto para ser preenchido. Precisamos passar para o público leitor sempre alguma novidade, não dá para ficar se repetindo. E mesmo quando você repete porque tem um público cativo, você tem esse público
por cinco anos. Como meu negócio é para sempre, não posso ficar só com esses cinco, dez anos e depois perder esse público. E foi isso que eu consegui fazer com a Turma Jovem: pegar o público que estava escapando, indo para outras leituras, mangás japonês, principalmente. E esse público, depois que fizesse uns 20 anos, escaparia de novo. Então resolvi encarar o desafio de acompanhar os leitores, em vez de eles me acompanharem.