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Posts de maio 2015

Minha crítica de haole ao show do The Dolls

29 de maio de 2015 0
Os manés do underground curtindo a volta do quarteto (Fotos: Diórgenes Pandini)

Os manés do underground curtindo a volta do quarteto (Fotos: Diórgenes Pandini)

Na tentativa de voltar à ativa, depois de 10 anos fora do circuito, a banda The Dolls tocou nesta quinta (28) para os nostálgicos do underground manezinho da Ilha. Fui ao Blues Velvet – a “casa da paquera” de Florianópolis – ver o revival e me impressionei com a produção. Ou melhor, com a falta dela: em boa parte do show, por exemplo, o microfone do vocalista Asdra Martin simplesmente não funcionou, deixando o cara puto a ponto de, no fim da apresentação, jogá-lo no chão várias e várias vezes.

Nunca fui fã de punk rock, mas aqueles quatro – Asdra Martin (vocal), Bruno Barbi (baixo), Domingos Longo (guitarra) e Xando Passold (bateria) – me deram a noção do por quê, uma década atrás, essa anarquia musical levou tantos moleques para o underground ilhéu. Basicamente, é um som raivoso embalando uma galera ainda mais raivosa. Acabou sobrando até pro meu brother fotógrafo. Após disparar inúmeros flashes na cara de cada um, tomou umas baquetadas e uns “vai se f…!”. No fim, fizeram as pazes e ficaram “de bem”.

 

Enfim, apesar do aparente fiasco, o público curtiu, e muito. As testemunhas tietaram e cantaram junto (compensando as falhas do microfone) o show inteiro, dando uma baita moral para os feras. Um cara até me disse que a música Junky Doll era um hino da época. “Muita gente veio me dizer que achou animal, legal e tal. Mas a gente pode fazer bem melhor, a gente tem convicção disso!”, publicou mais tarde Domingos no Facebook, ameaçando que “o próximo vai ser BEM melhor!”.

 

Nascido no interior de São Paulo e haole em Florianópolis há reles cinco anos, nunca vi uma raça curtir tanto um show tão zoado. Na região campestre de onde venho, essas coisas não acontecem. Fiquei de cara com a tosquice & loucura que foi o show do The Dolls. Talvez até apareça no próximo.

Jurerê Jazz: Baile cubano do Buena Vista Social Club faz poltronas do CIC tornarem-se inúteis

19 de maio de 2015 8
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Aguaje, Barbarito e Papi Oviedo (sentados): nostalgia sem espaço para a tristeza (fotos: Marco Fávero/Agência RBS)

Emerson Gasperin
emersongster@gmail.com

Principal atração da quinta edição do Jurerê Jazz, o Buena Vista Social Club encerrou o festival com um show que só não transformou o Teatro do CIC em um salão de baile cubano porque as cadeiras impediram. Ao contrário de um certo clima melancólico que permeia mesmo as músicas mais ligeiras de seu único disco de estúdio (gravado em 1987), ao vivo o grupo emana uma vibração que acaba contagiando inclusive os momentos mais intimistas da apresentação em Florianópolis.

O frisson que a orquestra provoca pôde ser sentido já na abertura, com o palco ocupado somente pelo jovem pianista Rolando Luna executando Como Siento Yo. O tema, lento e instrumental, aumentou a expectativa para a entrada dos señores. Jesus “Aguaje” Ramos, 64 anos, trombone de vara, regendo o espetáculo. Gilberto “Papi” Oviedo,78, guitarra, e Barbarito Torres, 59, alaúde, sentadinhos. Manuel “Guajiro” Mirabal, 82, trumpete, engrossando o naipe de metais. Que figuras!

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Completado por três percussionistas (timbaus, congas e bongô), dois trompetistas, um baixista e os vocalistas Carlos Calunga e Idania Valdés, esse time levou a primeira parte do show portando-se, como era de se esperar, mais como uma banda tributo ao Buena Vista Social Club. Orlando “Cachaíto” Lopez (1933-2009), Ibrahim Ferrer (1927-2005) e Manuel Galbán (1931-2011) foram lembrados em vídeo enquanto Tumbao, Bruca Manigua e Marieta Lute evitavam que a saudade se transformasse em tristeza.

A situação muda quando aparece Omara Portuondo (com os fotógrafos proibidos de trabalhar). Aos 84 anos, “a mais bonita, a mais sexy”, conforme saudada por Ramos, locomove-se com dificuldade – até se esquecer de sua condição e virar dona do negócio. A grande dama da música cubana botou para quebrar.Em No Me Llores e Quizas Quizas Quizas, puxou palmas, levantou Papi para solar, insinuou passinhos de dança, pediu para o povo ficar de pé. Em Veinte Años e Besame Mucho, descansou soltando o vozeirão ao piano de Rolando.

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Omara deixou o palco para um dos maiores hits do grupo, Chan Chan, exibir imagens de Compay Segundo (1907-2003). Alguém estende uma bandeira de Cuba na beirada do palco. Antes do coxinha que pagou 450 paus pensar em protestar contra a “invasão comunista”, El Quarto de Tula recorda Pío Levya (1917-2006) e ameaça fechar a noite. No bis, com Omara novamente, Dos Gardenias e Candela reforçam a inutilidade das poltronas. Calunga e Barbarito ainda desviam do caminho do camarim para autografar a bandeira.

Tanto faz que ficou faltando Rubén González (1919-2003) no rol dos homenageados – segundo o setlist, o pianista seria invocado na primeira música (não rolou). Ou que, dos 14 em cena, apenas Barbarito, Mirabal e Omara restaram da formação original. Dizem que esta será a última turnê dos cubanos. Quem viu, viu; quem não viu, babau. Mas a despedida periga ser adiada: eles nem haviam se apresentado em Florianópolis e mais dois shows foram anunciadas pela organização do Jurerê Jazz para dezembro. Que isso se confirme sem mais ninguém no telão.

Bárbara Sweet entrou nas batalhas de rap para azedar o machismo dentro e fora dos palcos

17 de maio de 2015 0
A rapper mineira Barbara Sweet é doce, mas só enquanto não ataca o machismo (Foto: Barbara Sweet, Divulgação)

Sweet ganhou dos homens nas duas batalhas que participou na Ilha

A rapper Bárbara Sweet quebrou a banca e ganhou na batalha de rap (disputa de improvisação de rimas) que aconteceu neste sábado (17) na Udesc, durante a programação da II SAPo (Semana de Arte Popular). A mineira chegou em Florianópolis na quarta (14) e participou da tradicional Batalha da Alfândega – que acontece toda quinta-feira, no Centro -, onde também levou a melhor em cima de todos os homens com quem disputou.

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Post que a rapper fez depois de vencer a Batalha da Alfândega na quinta (14)

Nascida na capital mineira com o nome Bárbara Bretas Coelho, Sweet foi uma das primeiras a se se popularizar no “rap das minas“. Este movimento cresce cada vez mais, com as mulheres ocupando o ritmo tradicionalmente conhecido por seus expoentes masculinos, como Racionais MCs, Criolo e Emicida.

Saiba mais: show do Facção Central é cancelado em Florianópolis

A rapper, em para o Anexo Em Cartaz, contou um pouco como é ser mulher, feminista e ativa nesse cenário:

- O que a gente fez em Minas Gerais transformou muita coisa. A gente conectou as “muié” – explicou Bárbara Sweet, falando sobre as mulheres que hoje participam das batalhas de rap.

- É um espaço de empoderamento “sinistro” para mulher. Às vezes elas falam “Ah, eu fui na batalha e o cara me chamou de vadia, falou dos meus peitos, falou da minha bunda” e eu respondo “Mano, quantas vezes o cara já te chamou de vadia na rua? Quantas vezes o cara já falou dos seus peitos e da sua bunda na frente de uma obra? Aproveita que na batalha você tem um minuto e meio pra responder”.

No palco da II SAPo, a mineira de irreconhecíveis 29 anos e alcunha doce desvelou a amargura do machismo dos oponentes, todos homens. Como ela mesma diz, essa maioria masculina e machista é “coisa bem comum nesses espaços”.

- Na batalha a galera responde. Sabe por quê? Porque, na batalha, você quer ver o oprimido virar rei.

Jurerê Jazz: Simpatia e carisma de Madeleine Peyroux conquistam público no Teatro do CIC

17 de maio de 2015 0
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Simplicidade acentuou o requinte das canções (Foto: Diorgenes Pandini/Agência RBS)

Emerson Gasperin
emersongster@gmail.com

É comum chamar Madeleine Peyroux de diva. Atração do Jurerê Jazz neste sábado, no Teatro Ademir Rosa (CIC), em Florianópolis, a cantora americana mostrou que está mais para o oposto disso – pelo menos em relação à afetação e frescura que a designação pode sugerir. Despojada e simpática, ela brincou com as quase 900 pessoas que lotaram a casa, falou (e interpretou) em português e conquistou todo mundo com seu carisma.

Leia entrevista com Madeleine Peyroux

O cenário do show já dava uma ideia de simplicidade: um tapete, uma mesinha (com duas garrafas de água e uma folha com frases na língua local) e duas banquetas; uma para lady Peyroux; outra, para o guitarrista Jon Herington; com o baixista Barak Mori em pé logo atrás completando o trio. Formal estava era a plateia, sentada, de bico seco e em respeitoso silêncio. Mas a artista não demorou para quebrar o gelo e estabelecer uma empatia com o público.

colaA própria Madeleine tratou de debochar da imagem solene de tristeza que rotula sua obra. “Eu canto três tipos de música: canções de amor, blues (tristes) e canções de beber. Esta próxima música é perfeito para mim porque é todos os três de uma vez”, leu com sotaque gringo para introduzir Guilty, do grande Randy Newman. Quando na letra apareciam “whisky” e “cocaine”, lançava olhares marotos para as primeiras filas, arrancando risadas.

Sozinha no palco, somente com seu violão, ela honrou o sobrenome e entoou o clássico La Vie en Rose, acompanhado em francês insuspeito por parte da audiência. Com Herington e Mori já de volta, Madeleine homenageou o recém-falecido BB King em Got You on My Mind. Novamente com a ajuda da cola, anunciou Água de Beber (Tom Jobim) dizendo que “esta canção é meu entendimento poético favorito do amor. Ele diz que o amor é a água, e que nos estamos morrendo de sede”.

Foram também ovacionadas músicas de sua autoria, como Half the Perfect World, Don’t Wait Too Long ou Dance me to the End of Love. Contudo, nada superou os exatos 100 segundos de aplausos que a cantora recebeu ao encerrar a apresentação com Keep me in Your Heart. As palmas só cessaram com seu retorno para o bis com This is Heaven to me. Se isso é o céu para ela, para o público foi o paraíso.

setlist madeleine peyroux

Setlist
Take This Chains | By Bye Love | Between the Bars | Tango Till They’re Sore | Guilty | Fun Out of Life | Half the Perfect World | Don’t Wait Too Long | La Vie en Rose | Trampin’ | Easy Come Easy Go | Got You on My Mind | More Time | Changing Those Changes | Água de Beber | Dance me to the End of Love | Careless Love | Keep me in Your Heart | BIS: This Is Heaven to me | J’ai Deux Amours | Walkin’ After Midnight/I’m All Right

Jurerê Jazz: A família inteira se divertiu de graça com o Blue Etílicos no Jurerê Open Shopping

10 de maio de 2015 1
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Todo mundo sentadinho para curtir a banda carioca (Fotos: Bruno Ropelato, Divulgação)

Emerson Gasperin
emersongster@gmail.com

O delta do Mississippi está a quase 9 mil quilômetros de distância, uísque nem pensar e my baby ficou em casa. Os clichês do blues não fizeram falta para umas 500 pessoas curtirem o Blues Etílicos neste sábado (9/5) no Jurerê Open Shopping, em Florianópolis. Rio por rio, o Papaquara passa ali pertinho (e tem a praia a duas quadras), todos os bares do calçadão vendiam cerveja e a família inteira se divertiu com o show gratuito da banda carioca na quinta edição do festival Jurerê Jazz.

Com 30 anos de estrada no lombo, o Blues Etílicos comportou-se de acordo com a ocasião: como se estivesse em happy hour. Afinal, eram apenas 19h. Com o gaitista Flávio Guimarães e o guitarrista Greg Wilson (EUA no passaporte, Rio de Janeiro no sotaque) revezando-se nos vocais, o quinteto sentiu-se à vontade para animar a plateia com músicas e histórias.

Confira entrevista com o gaitista, Flávio Guimarães

Quando anunciou Puro Malte entre um gole e outro de cerveja, Guimarães contou que a banda gosta tanto da gelada que já fabricou uma com seu nome para comercializar – “mas bebemos tudo” – e ensinou o refrão, uma ode às artesanais.Wilson (abaixo, à esq.) lembrou da primeira música do grupo a tocar na rádio, A Safra de 63, e explicou que todos haviam nascido naquele ano. No fundo, o baterista Pedro Strasser tirava sarro sinalizando que não.

blues etílicos, open shopping_Foto- Bruno Ropelato

A guitarra de Otávio Rocha (acima) ensaiou levar o povo ao transe emulando um berimbau (berimblues?) no toque de capoeira que precede Dente de Ouro. A presença da música brasileira no som da banda também incrementou a versão de Coração Cristalino, de Alceu Valença. Na saideira, Cerveja confirmou a impressão de que o show poderia ter sido mais agitado sem as fileiras de cadeiras à frente do palco.

Segundo Jean Mafra, da produção do festival, chegou a ser cogitada a hipótese de deixar todo mundo em pé, não somente quem ocupasse as laterais ou se acomodasse lá atrás. Mas a intenção ao dispor de lugar para sentar era exatamente atrair um público que, em outras circunstâncias, talvez não se empolgasse para vir. Pois não só veio, como voltou para casa ainda a tempo de pegar a novela.

Criolo apresenta em Florianópolis show de Convoque Seu Buda

02 de maio de 2015 2

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O rapper Criolo passou por Florianópolis na noite de sexta-feira, com o show da turnê de seu terceiro álbum, Convoque Seu Buda, lançado em novembro do ano passado e que ainda não tinha passado por Santa Catarina. O show ocorreu no Lagoa Iate Clube (Lic), em Florianópolis, mesmo lugar da última apresentação (setembro de 2014) do rapper paulista em SC.

Em entrevista ao Anexo, Criolo fala do novo disco, dos Racionais, faz uma declaração de amor aos palcos e lembra o show do ano passado no LIC

Em uma hora e meia de puro espetáculo, Criolo mostrou-se ainda melhor. Um show bem resolvido, com um ótimo aparato de iluminação, construído a partir de Convoque Seu Buda, mas mesclando de maneira certeira hinos de Nó na Orelha(álbum de 2011 que o consagrou), como Não Existe Amor em SP e Subirusdoistiozin. Sons cantados em coro por um público apaixonado por seu ídolo, que chegava a gritar: “Criolo, Criolo, Criolo”, no intervalo entre uma música e outra. Aliás rapazes, as belas meninas – tinha mesmo muitas mulheres bonitas no show – e casais de namorado mostraram que são uma legião de fãs fiéis: também levaram no gogó as novas músicas do terceiro álbum – destaque para a explosão com Convoque Seu Buda, música que abriu o show. Cartão de Visita transformou o LIC num perfeito bailinho black. Côsa Linda.

Talvez a experiência, talvez a proximidade de Ivete Sangalo (o cantor viaja o Brasil ao lado da experiente musa baiana no Projeto Nívea Viva, que homenageia Tim Maia) tenham tornado Criolo ainda mais profissional. Ele está mais à vontade nas conversas, brincadeiras e interação com o público. Mantém seus momentos de transe, de showman – em que se entrega à musicalidade da sua superbanda, orquestrada pelos produtores Daniel Ganjaman, Marcelo Cabral e DJ DanDan - este eterno parceiro de Criolo, ainda nos tempos de Criolo Doido, antes de Nós na Orelha.

Segue com o tom profético de suas apresentações e discursos, proclamando “mais amor sempre” , evocando a “energia do universo” e lembrando que “todo mundo tem um lado bom”. É, sem dúvida, um cara de palco – capaz de colocar uma multidão para dançar, cantar e celebrar com ele (se você ainda não foi a um show de Criolo, meu amigo, sério, você está marcando). Mas está mais objetivo,, finalizando bem cada som e chamando o coro do público na hora certa.

Ficou a sensação de que o LIC, e sua vibe salão de formatura, é pouco estruturado para receber um artista no nível de Criolo. Ainda assim quem foi acordou neste sábado de alma lavada.