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Posts de junho 2015

Aula magna de Steve Vai no CIC teve mais filosofia do que guitarra – e foi sensacional

24 de junho de 2015 2
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(Fotos: Charles Guerra/Agência RBS)

Emerson Gasperin
emersongster@gmail.com

Da aula magna de um guitarrista com a fama de Steve Vai espera-se virtuosismo, técnica, habilidade. Teve tudo isso na noite de terça (23) no Teatro do CIC, em Florianópolis. Mas o que sobressaiu foram as palavras do americano. O magrão de 55 anos, considerado geniozinho desde os 19, quando foi tocar com – um de seus mestres – Frank Zappa, ensinou mais falando do que tocando. E o que falou, tocou.

A intenção de Vai era já estar dedilhando a guitarra à medida que os “alunos” fossem entrando, em um clima bem informal. Como ia demorar demais até a gentarada que lotou o lugar (900 assentos) se acomodar, o negócio começou solene como um show mesmo, como todo mundo devidamente sentado ovacionando o guitar hero. Ele exibiu sua destreza na Ibanez branca e, em seguida, abriu o microfone para a plateia fazer perguntas. História para explorar, tinha de sobra.

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Após sair da banda de Zappa, Vai lançou seu primeiro álbum, substituiu Yngwie Malmsteen no Alcatrazz, participou do PIL do ex-Sex Pistol John Lydon. Interpretou o demoníaco Jack Butler em Crossroads – A Encruzilhada, acompanhou o ex-Van Halen Dave Lee Roth, integrou o Whitesnake. Formou o G3 com Joe Satriani, dividiu o palco com orquestras, continuou gravando seus discos.

Para os manezinhos, havia ainda um assunto ligado à cidade: Vai irá se apresentar com a Camerata Florianópolis em setembro no Rock in Rio. Por mais específica que fosse a questão, porém, a resposta não raro se encaminhava para uma relação muito mais espiritual do que prática com a música.

“Aprenda a ouvir.”

“Deixe fluir o som através de você.”

“Você é o universo.”

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Adepto da meditação, Vai ilustrava sua filosofia com demonstrações de seu processo de criação – a melodia do hit supremo For the Love of God, por exemplo, foi inicialmente composta somente com a boca. Nem assim ele descambava para o exibicionismo estéril, entremeando solos com passagens bem-humoradas de como surgem suas ideias.
A pedidos, as duas horas de workshop terminaram com outro sucesso, Tender Surrender.

A escala catarinense da La Brazilian Clinic Tour 2015 – Alien Guitar Secrets Master Class, promovida pela Escola de Música Rafael Bastos, prosseguiu com Vai recebendo seis guitarristas locais para uma rápida jam session: Nando Brites, Cecília Cordeiro, Rafael Pfleger, Vicente Eastwood, Luciano Bilu e Chico Martins, do Dazaranha. Aplausos de pé para o homem, que ele merece.

Segundo a organização, Vai nunca havia se apresentado para tanta gente em uma única classe no país. Pode ser que os presentes – a maioria músicos ou aspirantes a tal – não tenham saído sabendo solar mais rápido ou como tirar determinado timbre. Mas todos aprenderam a, de alguma forma, se tornar pessoas melhores. Em respeito ao artista,
os celulares foram ligados apenas ao final da aula.


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REGALO
Steve Vai voltará para casa com uma lembrança de Florianópolis: uma caixa com placa em sua homenagem e pedal de guitarra (acima), oferecida pela promotora de sua vinda à cidade (clique para ampliar).

Saiba como foi a participação dos artistas de Florianópolis na Virada Cultural de São Paulo

21 de junho de 2015 0

Seis atrações de Florianópolis figuraram entre os 1500 shows realizados durante as 24 horas da Virada Cultural no final de semana em São Paulo. Cinco delas, graças à parceria entre o evento paulistano e os organizadores da Maratona Cultural manezinha: Bombardino no Choro, Califaliza, François Muleka, Trupe Toe e Brass Groove Band. Correndo por fora, o ERRO Grupo – a única que não estava nessa barca, ou melhor, no ônibus que partiu do antigo terminal urbano do centro ilhéu ao amanhecer levando os artistas até lá.

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ERRO Grupo (Fotos: Emerson Gasperin/Agência RBS)

A companhia de teatro abriu a participação catarinense com Geografia Inútil, a banda-espetáculo na qual a música é apenas um pretexto para suas loucuras. O coreto da Bovespa ficou pequeno para o esculacho armado pelos cinco integrantes, que saíram pela praça Antônio Prado apavorando quem em emcontravam pela frente. Neymar, super-heróis e passistas de escolas de samba foram alguns dos papéis representados, sempre deixando transparecer a provocação por trás do suposto nonsense. Quando o público conseguia se conectar com aquela bagunça toda, era uma maravilha. Quando não, restava o estupor.

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Bombardino no Choro

À meia-noite em ponto, Bombardino no Choro trouxe a situação de volta à normalidade, mostrando a proposta que carrega no nome: recuperar o protagonismo do instrumento (também chamado de eufônio, uma espécie de tuba menor) no gênero musical brasileiro. Para isso, o grupo adota o formato de regional (violão, cavaco, percussão e o famigerado bombardino) e investe em belas composições como Jacobiana (em homenagem ao papa do estilo Jacob do Bandolim) e Toda Dor. Não à toa, o eufonista Carlos Schmidt seria convidado mais tarde para exibir seu talento na roda de 91 músicos que se sucediam em um improviso previsto para durar até o término da Virada.

Califaliza

Califaliza

Duras horas depois, bastou o Califaliza passar o som para empolgar os transeuntes. A partir do momento em que se plugou para valer, a banda fez seu rock vigoroso ribombar pela fachada do prédio onde milhões em ações são negociados diariamente. Era a primeira vez do grupo em solo paulistano, mas parecia que estava na Célula. O vocalista Gui Coutinho chamou a noiva para cantar junto, mandou uma versão de Rita Lee (Luz del Fuego), dedicou música a Florianópolis (Cidadão do Caos), ensinou refrãos à turma. A Partir Daqui, Contra o Tempo e Ego finalizaram o show em ritmo energético, adequado para se aguentar o frio e o cansaço.

François Muleka

François Muleka

Literalmente em casa, o paulistano radicado na Ilha François Muleka foi na direção oposta, aquecendo com poesia e despertando com canções plácidas. Munido apenas de violão, o filho de congoleses ganhou o acompanhamento percussivo das palmas batidas por um bando de moleques em frente ao coreto – além dos estalinhos que ele faz com a boca. Suas risadas a cada intervalo mostravam sua surpresa com a receptividade, motivando-o a adiantar a faixa-título do próximo disco, Limbo da Cor, e a ampliar o bis reivindicado pela rapaziada. O “mais um” com Tapete Azul (de Alegre Corrêa) virou dois, três e só parou porque já eram quase cinco da madrugada.

Trupe Toe

Trupe Toe

Integrantes da Trupe Toe sapatearam no palco do Largo São Francisco, preparando o local para a Brass Groove Brasil, executar músicas que estarão no álbum a ser lançado até dezembro. Com o dia claro, a excelência instrumental da banda encantou os produtores da Virada, que cogitaram carregá-la para uma canja em outro dos inúmeros palcos do evento. Faltou tempo para isso, pois já eram 9h da manhã e o ônibus que levaria a raça de volta para casa partiria às 11h30. Na hora marcada, todos estava prontos para embarcar, extenuados, satisfeitos e com a certeza de que deixaram uma ótima impressão.

Brass Groove Band (Carla Lins, Divulgação)

Brass Groove Band (Carla Lins, Divulgação)

Cinema do Mercosul é destaque em Florianópolis

20 de junho de 2015 0

Sansara Buriti, especial
buritisansara@gmail.com

Diante de uma plateia muito bem agasalhada com casacos, gorros e cachecóis – na rua os termômetros variavam entre 11 e 12 graus ­–, surge na tela o sol inclemente e a paisagem seca do sertão. Em um vilarejo esquecido pelo tempo, três mulheres vivem histórias de amor e desejo no primeiro longa-metragem do pernambucano Camilo Cavalcanti. A História da Eternidade abriu a programação do 19º Florianópolis Audiovisual Mercosul (FAM) no Centro de Cultura e Eventos da Universidade Federal de Santa Catarina, na noite de sexta-feira (19).

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Camilo Cavalcanti apresentando o filme A História da Eternidade. (Foto: Daniel Guilhamet)

Vencedor dos cinco principais prêmios do Festival de Paulínia no ano passado ( melhor filme, diretor, ator (Irandhir Santos), atriz (dividido entre Marcélia Cartaxo, Débora Ingrid e Zezita Matos), o filme foi recebido com aplausos e comentários sobre a bela e impactante fotografia de Beto Martins.

Para quem perdeu a abertura, a boa notícia é que mais 49 filmes serão exibidos gratuitamente até 26 de junho.

Produções de oito países (Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai e Uruguai) apresentam um panorama diverso do que está sendo produzido atualmente na América do Sul, mas muitas vezes fica fora do circuito comercial de cinema.

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A expectativa é receber 20 mil pessoas nesta edição. (Foto: Tim Gerlach)

– Queremos oferecer mais do que entretenimento. O FAM é um espaço para o cinema de arte, cinema que propõe reflexão – destacou a diretora de mostras do festival, Marilha Naccari, durante a cerimônia de abertura.

Embora tenha 19 anos de estrada, o FAM, assim como outros grandes eventos culturais da cidade, ainda enfrenta dificuldades para ser viabilizado. Este ano a indefinição do valor e data de repasse da verba aprovado pelo governo do Estado fez com que a programação fosse reduzida. Dois dias antes do festival começar o repasse de R$300 mil reais ainda não estava oficialmente autorizado.

– A gente trabalha sem saber se vai conseguir fazer o festival – disse o coordenador geral, Antônio Celso dos Santos.

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Antonio Celso dos Santos, idealizador do festival, fala dos desafios de produzir o evento. (Foto: Daniel Guilhamet)

Apesar dos impasses, mais uma edição do FAM chega ao público. E é bonito ver como ele agrega tanta gente diferente. Cineastas, estudantes, gente que conhece o festival há anos, gente que vai pela primeira vez. Para quem reclama da falta de opções culturais na cidade, vale sair da frente do Netflix e conferir a programação.

No sábado, às 16h30, o documentário catarinense Desculpe Pelo Transtorno – A História do Bar do Chico, traz a história de um pescador cujo pequeno bar à beira-mar tornou-se o “marco zero” na batalha de uma comunidade contra o desenvolvimento desenfreado da região.

Às 18h30, os músicos Jean Mafra e Felipe Melo se apresentam no hall de entrada do festival. A partir das 19h é a vez da Mostra de Curtas Mercosul. O filme colombiano Los Hongos encerra a noite de sábado, às 21h, com a história de um jovem grafiteiro que não consegue dormir.

No domingo, às 21h, a última produção realizada pelo cineasta Penna Filho, que morreu em abril deste ano, poderá ser conferida pela primeira vez. Das Profundezas aborda a trajetória de uma família de trabalhadores das minas de carvão no sul do Estado, entre 1964 e 1987, com o envolvimento na resistência à ditadura militar e numa greve histórica para o movimento operário.

Agende-se:

O quê: FAM (Florianópolis Audiovisual Mercosul)
Quando: 19 a 26 de junho
Onde: Centro de Cultura e Eventos da Universidade Federal de Santa Catarina, Campus Trindade.
Quanto: gratuito

Confira a programação completa no site famdetodos.com.br

 

 

Acústico Brognoli 2015: de Skrotes a Bichos Escrotos

15 de junho de 2015 4
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O titã Paulo Miklos e o guitarrista Luiz Carlini foram as principais atrações do espetáculo (fotos: Diorgenes Pandini (Agência RBS)

Emerson Gasperin
emersongster@gmail.com

O Acústico Brognoli 2015 fez o teatro do Centro Integrado de Cultura (CIC), em Florianópolis, lotar em uma noite chuvosa e fria de domingo (14) para um show de rock. Com o titã Paulo Miklos e o guitarrista Luiz Carlini como atrações principais, o gênero –  um pouco mais velho do que a sexagenária empresa promotora – foi o grande homenageado em duas horas de espetáculo. Que, de acústico, só teve o nome.

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A celebração começou com os Skrotes (acima) subvertendo todos os clichês roqueiros. Nem guitarra – o maior símbolo do estilo – o trio tem! Mas tem atitude para encarar 900 pessoas prontas para escutar Satisfaction (ou algum outro lugar-comum) com inclassificáveis passagens instrumentais. Chico Abreu (baixo elétrico), Igor de Patta (teclado) e Guilherme Ledoux (bateria) serviram um coquetel de jazz, metal, bossa nova, reggae e sabe-se lá mais o quê, sem facilitar. Mesmo quando forneceram a base para o guitarrista Juliano Diniz, entortaram bonito as versões de Stevie Wonder e Iron Maiden.

A vocalista do grupo Faraway, Mércia Maruk, tratou de trazer as coisas para um terreno mais familiar à plateia, interpretando Mercedes Benz (Janis Joplin) à capela e Velha Roupa Colorida (Elis Regina) acompanhada apenas pelo piano. Grego, da banda DasAntigas, continuou na onda com Stairway to Heaven (Led Zeppelin) e Love of My Life (Queen), até que as guitarras finalmente apareceram.

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Primeiro com André Seben (ex-Os Chefes) e Marcel Coelho (Tribuzana), da formação que iria permanecer no palco até o final, completada por Adauto Charnesky (baixo, Dazaranha), Sérgio Negrão (vocais, Quarteto Banho de Lua) e Adriano Barvik (bateria). Em seguida, com o primeiro medalhão da noite, Luiz Carlini. Após executar o tema Sleep Walk (clássico da surf music gravado em 1959 por Santo & Johnny) sentado, deslizando os dedos sobre as cordas com a técnica slide, ele abriu o baú de histórias.

Contou que conheceu a cidade em 1972 cruzando a ponte Hercílio Luz de ônibus com Rita Lee a a banda Tutti Frutti, que já produziu dois discos do Dazaranha e que iria tocar uma música dos Mutantes que viu sendo composta. Era Ando Meio Desligado, com direito a citação de Do it Again (Steely Dan). Da antiga parceria, vieram Ovelha Negra, Jardins da Babilônia e Agora Só Falta Você, culminando com Rock Das Aranhas (Raul Seixas). Conclusão: como vocalista, Carlini é um excelente guitarrista.

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A cortina se abriu pela última vez para a entrada de Paulo Miklos com Sonífera Ilha. Negrão tentou ensiná-lo uma versão alternativa da letra – “sonhei ver a ilha” –, mas o titã não captou, de tão elétrico que estava. Simpaticão, sem parar um minuto, convidou todos para engrossar o coro em Pra Dizer Adeus, Diversão e É Preciso Saber Viver.

No encerramento, com Carlini de volta em Bichos Escrotos, causou certo desconforto em ouvidos bairristas ao bradar “porque aqui em Florianópolis só bicho escroto é o que vai ter”, imediatamente absolvido por botar o CIC inteiro para gritar “vão se f*”. Tanto que o público não arredou pé enquanto não voltaram para o bis, com mais um Raul, Aluga-se. Missão cumprida.

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DETALHE
O par de botas animal print usado por Luiz Carlini chamou a atenção de todo mundo, mas o único que teve autoridade para tocar no assunto foi Paulo Miklos. Ao ver o colega ajeitando os pedais da guitarra com o tal calçado, o titã não se conteve e tirou um sarro: “Mas você vai tocar com isso?”