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Ângela Maria por Ângela Maria

24 de setembro de 2014 0

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Fotos Cristiano Estrela (Agência RBS)

Por Ângela Bastos
angela.bastos@diario.com.br
Já fui em vários shows. Curti Rolling Stones, sambei com Zeca Pagodinho, aplaudi Ray Charles. Amerindiei com Mercedes Sosa, suspirei com Chico Buarque, romantizei com Roberto Carlos. Gostos, tempos e companhias diferentes me enfileiraram nessas e em muitas plateias. Mas o que nesta noite de 23 de setembro levou-me ao teatro do Centro Integrado de Cultura (CIC) foi uma razão que superou a admiração pelas personalíssimas vozes de Ângela Maria e Cauby Peixoto.

Sentei-me na poltrona 26, fila J, quase por uma questão afetiva. Eu queria conhecer de perto Ângela Maria, a cantora que serviu de inspiração para meu nome. A escolha foi de meu pai, fã conquistado na época de ouro do rádio. Também foi por meu pai que aprendi que Ângela Maria tinha olhos de sapoti, identificação dada por outro que meu pai admirava, o presidente Getúlio Vargas. Não lembro o que se passava na minha cabeça quando ouvia isso, pois nunca vi a tal frutinha meio amarronzada comum lá pelo Norte do país.

É verdade que naquela época eu não gostava do meu nome. Achava que não era coisa de criança. Achava que era nome de velha. Como se hoje, por exemplo, uma criança fosse registrada como Alcione. Nada contra a marrom, outra bela voz da música brasileira, mas sabe como é criança… Além de sempre ouvir a mesma pergunta:

– Por causa da cantora?

Sentia-me meio incomodada, principalmente na escola onde as professoras pareciam me usar para silenciar a classe:

Ângela Maria – costumavam dizer com olhar de interrogatório atrás dos óculos.

– Presente – respondia meio emburrada, quase sempre abrindo a lista de chamada por causa da letra A inicial.

Com o tempo isso mudou. Aprendi a gostar do meu nome, que carregava também o Maria de minha avó paterna e a combinação católica com o significado do “anjo de Maria”. Um pouco mais adiante, já aprendendo a gostar de música – e da boa música – comecei a achar interessante ter o nome da cantora que nas décadas de 1950 e 1960 era considerada uma diva.

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No show, me deixei levar por sua voz rara carregada de uma força interpretativa impressionante. Foi assim nos clássicos de carreira, como Gente Humilde e Ave Maria no Morro (Barracão de Zinco). Também em O Portão (Roberto Carlos), Nunca (Lupicínio Rodrigues) e Carinhoso (Pixinguinha).

Ângela Maria tem 65 anos de carreira e 85 de vida. Elegantemente usando um vestido longo em preto, branco e prata, passou todo o tempo cantando em pé, ao lado de Cauby, sentado em uma poltrona, e que com sua voz de barítono arrancava sequência de aplausos da plateia. Aliás, não poderia deixar de registrar que esse continua cantando di-vi-na-men-te.

Ângela Maria era gentil com o amigo e companheiro de palco desde a década 1960, com a cidade de Florianópolis ao elogiar suas belezas, com o público ao permitir-lhe cantar junto com ela.

De certa forma, gentil com essa outra Ângela Maria, eu.

Ao vir a Florianópolis para divulgar o disco Reencontro, em parceria com Cauby, permitiu-me um reencontro com a memória. Também com a arte dela. E com saudade de meu pai, a quem agradeço pelo nome dado.

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