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Posts na categoria "Crítica"

Jurerê Jazz: Baile cubano do Buena Vista Social Club faz poltronas do CIC tornarem-se inúteis

19 de maio de 2015 8
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Aguaje, Barbarito e Papi Oviedo (sentados): nostalgia sem espaço para a tristeza (fotos: Marco Fávero/Agência RBS)

Emerson Gasperin
emersongster@gmail.com

Principal atração da quinta edição do Jurerê Jazz, o Buena Vista Social Club encerrou o festival com um show que só não transformou o Teatro do CIC em um salão de baile cubano porque as cadeiras impediram. Ao contrário de um certo clima melancólico que permeia mesmo as músicas mais ligeiras de seu único disco de estúdio (gravado em 1987), ao vivo o grupo emana uma vibração que acaba contagiando inclusive os momentos mais intimistas da apresentação em Florianópolis.

O frisson que a orquestra provoca pôde ser sentido já na abertura, com o palco ocupado somente pelo jovem pianista Rolando Luna executando Como Siento Yo. O tema, lento e instrumental, aumentou a expectativa para a entrada dos señores. Jesus “Aguaje” Ramos, 64 anos, trombone de vara, regendo o espetáculo. Gilberto “Papi” Oviedo,78, guitarra, e Barbarito Torres, 59, alaúde, sentadinhos. Manuel “Guajiro” Mirabal, 82, trumpete, engrossando o naipe de metais. Que figuras!

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Completado por três percussionistas (timbaus, congas e bongô), dois trompetistas, um baixista e os vocalistas Carlos Calunga e Idania Valdés, esse time levou a primeira parte do show portando-se, como era de se esperar, mais como uma banda tributo ao Buena Vista Social Club. Orlando “Cachaíto” Lopez (1933-2009), Ibrahim Ferrer (1927-2005) e Manuel Galbán (1931-2011) foram lembrados em vídeo enquanto Tumbao, Bruca Manigua e Marieta Lute evitavam que a saudade se transformasse em tristeza.

A situação muda quando aparece Omara Portuondo (com os fotógrafos proibidos de trabalhar). Aos 84 anos, “a mais bonita, a mais sexy”, conforme saudada por Ramos, locomove-se com dificuldade – até se esquecer de sua condição e virar dona do negócio. A grande dama da música cubana botou para quebrar.Em No Me Llores e Quizas Quizas Quizas, puxou palmas, levantou Papi para solar, insinuou passinhos de dança, pediu para o povo ficar de pé. Em Veinte Años e Besame Mucho, descansou soltando o vozeirão ao piano de Rolando.

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Omara deixou o palco para um dos maiores hits do grupo, Chan Chan, exibir imagens de Compay Segundo (1907-2003). Alguém estende uma bandeira de Cuba na beirada do palco. Antes do coxinha que pagou 450 paus pensar em protestar contra a “invasão comunista”, El Quarto de Tula recorda Pío Levya (1917-2006) e ameaça fechar a noite. No bis, com Omara novamente, Dos Gardenias e Candela reforçam a inutilidade das poltronas. Calunga e Barbarito ainda desviam do caminho do camarim para autografar a bandeira.

Tanto faz que ficou faltando Rubén González (1919-2003) no rol dos homenageados – segundo o setlist, o pianista seria invocado na primeira música (não rolou). Ou que, dos 14 em cena, apenas Barbarito, Mirabal e Omara restaram da formação original. Dizem que esta será a última turnê dos cubanos. Quem viu, viu; quem não viu, babau. Mas a despedida periga ser adiada: eles nem haviam se apresentado em Florianópolis e mais dois shows foram anunciadas pela organização do Jurerê Jazz para dezembro. Que isso se confirme sem mais ninguém no telão.

Jurerê Jazz: A família inteira se divertiu de graça com o Blue Etílicos no Jurerê Open Shopping

10 de maio de 2015 1
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Todo mundo sentadinho para curtir a banda carioca (Fotos: Bruno Ropelato, Divulgação)

Emerson Gasperin
emersongster@gmail.com

O delta do Mississippi está a quase 9 mil quilômetros de distância, uísque nem pensar e my baby ficou em casa. Os clichês do blues não fizeram falta para umas 500 pessoas curtirem o Blues Etílicos neste sábado (9/5) no Jurerê Open Shopping, em Florianópolis. Rio por rio, o Papaquara passa ali pertinho (e tem a praia a duas quadras), todos os bares do calçadão vendiam cerveja e a família inteira se divertiu com o show gratuito da banda carioca na quinta edição do festival Jurerê Jazz.

Com 30 anos de estrada no lombo, o Blues Etílicos comportou-se de acordo com a ocasião: como se estivesse em happy hour. Afinal, eram apenas 19h. Com o gaitista Flávio Guimarães e o guitarrista Greg Wilson (EUA no passaporte, Rio de Janeiro no sotaque) revezando-se nos vocais, o quinteto sentiu-se à vontade para animar a plateia com músicas e histórias.

Confira entrevista com o gaitista, Flávio Guimarães

Quando anunciou Puro Malte entre um gole e outro de cerveja, Guimarães contou que a banda gosta tanto da gelada que já fabricou uma com seu nome para comercializar – “mas bebemos tudo” – e ensinou o refrão, uma ode às artesanais.Wilson (abaixo, à esq.) lembrou da primeira música do grupo a tocar na rádio, A Safra de 63, e explicou que todos haviam nascido naquele ano. No fundo, o baterista Pedro Strasser tirava sarro sinalizando que não.

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A guitarra de Otávio Rocha (acima) ensaiou levar o povo ao transe emulando um berimbau (berimblues?) no toque de capoeira que precede Dente de Ouro. A presença da música brasileira no som da banda também incrementou a versão de Coração Cristalino, de Alceu Valença. Na saideira, Cerveja confirmou a impressão de que o show poderia ter sido mais agitado sem as fileiras de cadeiras à frente do palco.

Segundo Jean Mafra, da produção do festival, chegou a ser cogitada a hipótese de deixar todo mundo em pé, não somente quem ocupasse as laterais ou se acomodasse lá atrás. Mas a intenção ao dispor de lugar para sentar era exatamente atrair um público que, em outras circunstâncias, talvez não se empolgasse para vir. Pois não só veio, como voltou para casa ainda a tempo de pegar a novela.

Na leveza do groove, o trio carioca Azymuth abre o Jurerê Jazz

30 de abril de 2015 0
O trio carioca Azymuth faz o show de abertura do Jurerê Jazz (Foto: Charles Guerra)

Banda fundiu bossa nova, samba e jazz no Teatro Pedro Ivo (Foto: Charles Guerra)

Emerson Gasperin
emersongster@gmail.com

A julgar pela abertura do Jurerê Jazz, na quarta-feira, a quinta edição do festival vai entrar para a história. O show que o Azymuth cometeu no Teatro Pedro Ivo, em Florianópolis, lembrou por que a música brasileira é reverenciada pelo mundo: por causa do ritmo, da harmonia e, no caso do trio carioca, da excelência em fundir estilos como bossa nova, samba e jazz para formar uma massa compacta de groove e leveza.

Confira 13 destaques do Jurerê Jazz

O trio Azymuth comemora 40 anos em festival de Florianópolis

O baterista – e “mestre de cerimônia” – Mamão alternava viradas de dar inveja a muito roqueiro com sutis intervenções em que o volume das batidas era modulado apenas com a força empregada nas baquetas. Ivan Malheiros, no baixo, conduzia o balanço com segurança, provocando solavancos propositais com slaps esparsos. E Kiko Continentino, integrado há apenas quatro meses, transformou os teclados em uma usina de timbres, honrando o legado do falecido José Roberto Bertrami.

A banda comemorou 40 anos de carreira com clássicos como Voo Sobre o Horizonte, Faça de Conta, Partido Alto, Meditação (de Tom Jobim) e, lógico, Linha do Horizonte, que fechou a noite com o público cantando junto. O Jurerê Jazz continua hoje, com as bandas Rivo Trio e Brass Groove Brasil de graça às 17h e às 19h no Jurerê Open Shopping.

Kiss em Floripa: Deuses do rock existem e ainda são capazes do milagre da conversão

21 de abril de 2015 21

kiss5Foto: Marco Favero (Agência RBS)

Emerson Gasperin
emersongster@gmail.com

É provável que, para os integrantes do Kiss, o show desta segunda-feira (20) em Florianópolis tenha sido apenas mais um entre os quase 2500 já realizados pela banda desde 1973. Com certeza, para as milhares de pessoas (as estimativas iam de 8 mil a 12 mil) que lotaram o Devassa on Stage foi uma apresentação daquelas que irão se tornar cada vez maiores com o passar dos anos.

As duas maneiras totalmente opostas – uns que talvez não irão se lembrar, a não ser que tenham sofrido uma indisposição intestinal provocada por algum berbigão que não caiu bem; outros que não vão conseguir esquecer, salvo terem suas memórias apagadas pelo álcool – de encarar o mesmo evento resultaram em uma noite histórica, mágica e redentora.

:: Saiba como foi o pocket show exclusivo para 90 felizardos

:: Montagem do palco atrasa e fãs esperam debaixo de chuva

:: Galeria de imagens

Sim, a abertura dos portões atrasou mais de duas horas e a chuva deixou a espera ainda pior, além de borrar as maquiagens feitas com tanta dedicação pelos fãs. Não, não teve a estrutura completa, com a “aranha” metálica gigante com que a banda vem se apresentando em estádios, grande demais para o local. Ao contrário do divulgado pela produção, nem Gene Simmons nem Paul Stanley voaram sobre o público.

Mas só o fato de o Kiss estar estreando na cidade, escolhida para abrir a sétima turnê do grupo no país, bastou para superar quaisquer deficiências. Se a voz de Stanley já não tem mais a potência de outrora, aos 63 anos ele capricha na pronúncia de “Florianópolis” e fala sem parar entre as músicas. Simmons, 65, continua cuspindo sangue e fogo e mostrando sua língua sem freio.

O setlist se encarregou do resto, com duas horas de clássico atrás de clássico (arrepie-se com a lista abaixo). Quando se achava que o momento alto havia sido determinada música, vinha a seguinte e forçava uma reavaliação. I Love it Loud matou a pau! Não, War Machine! E Deuce, com o guitarrista Tommy Thayer juntando-se à coreografia de Simmons e Stanley? Uau, Calling Dr. Love! Lick it Up, inacreditável! Olha que baita vocal do batera Eric Singer em Black Diamond!

Na plateia, tiozinhos reencontravam-se com sua juventude, filhos descobriam porque os pais eram daquele jeito e todos erguiam os punhos no ritmo dos refrãos. O bis, gritando alto que foi feito para amar você com rock and roll a noite inteira, veio confirmar: em tempos de sertanejo, pagode e eletrônico, enquanto o Kiss existir um outro mundo sempre será possível.

Setlist:
– Detroit Rock City
– Creatures of the Night
– Psycho Circus
– I Love It Loud
– War Machine
– Do You Love Me?
– Deuce
– Hell or Hallelujah
– Calling Dr. Love
– Lick It Up
– God of Thunder
– Hide Your Heart
– Love Gun
– Black Diamond
BIS:
– Shout It Out Loud
– I Was Made For Lovin’ You
– Rock and Roll All Nite

Dimitri Vegas & Like Mike promovem folia sem culpa e sem vergonha no Devassa On Stage

17 de fevereiro de 2015 1
(Fotos Leo Cardoso/Agência RBS)

Dupla de irmãos belgas foi recebida como grande atração pop (Fotos Leo Cardoso/Agência RBS)

Emerson Gasperin
emersongster@gmail.com

Tem coisas que só a eletrônica faz por você. Uma delas é transformar dois anônimos da periferia do planeta musical em atração com apelo internacional. Foi o que aconteceu nesta segunda-feira (16) no Devassa On Stage, em Florianópolis. Os donos da noite eram os belgas Dimitri Vegas & Like Mike. Os dois irmãos poderiam circular pela pista que não seriam reconhecidos. Mas causaram uma mobilização digna das maiores estrelas do pop.

Ou melhor, imobilização. A fila até o local, em Jurerê Internacional, chegava a 12 quilômetros e não era vencida em menos de duas horas. Para entrar, outra fila. Lá dentro, estava tão socado que, para se mexer, só seguindo o fluxo. Nada disso impediu o público de receber Dimitri Vegas & Like Mike com disposição sobrando para encharcar as roupas brancas sugeridas pelo dress code da festa – pedido atendido pela maioria das pessoas.

Confira a galeria de fotos da apresentação de Dimitri Vegas & Like Mike

Confira a cobertura completa do Carnaval em SC no blog Partiu Carnaval

Quando a dupla assumiu as picapes, às 3h45 de terça, os foliões imaculados já haviam virado baladeiros profissionais graças à vodca com energético. Dimitri pegou o microfone e, em português impecável, soltou um “putaquiopariu!” – o primeiro dos clichês que mandaria ao longo do set (veja lista abaixo). Estava dada a largada para 70 minutos de hedonismo sem culpa, sem juízo e sem vergonha. Qualquer excesso, é Carnaval, lembra?

O som de Dimitri Vegas & Like Mike é rotulada de electro house e big room house. Para o leigo, é “tecneira” – e das mais comerciais. Ou acessíveis: a dupla orgulha-se de ter 5,6 milhões de curtidas no Facebook, 1,5 milhão de seguidores no Twitter e 100 milhões de visualizações no YouTube. Se as redes sociais são parâmetro de sucesso, Florianópolis presenciou um fenômeno que viralizou mais do que seus criadores imaginariam.

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Troféu simpatia
Em nome do carisma, Dimitri Vegas & Like Mike recorreram a alguns velhos truques do showbusiness:

- “Make some noise!” e “Are you fucking ready?” (diversas vezes)
- Pausas dramáticas antes de largar as batidas
- Contagens regressivas
- Aceleradas crescentes
- Explosões de gelo seco

Observações finais
No caso de ser obrigado a dançar, um homem jamais pode esquecer destas duas regras:

- Não rebolar mais do que uma mulher.
- Não subir em algum lugar mais alto (exemplo: sofá de camarote).

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Palhaçada Boa no Ri Catarina

02 de novembro de 2014 0

Se foto e texto tivessem som, você leitor estaria ouvindo agora gargalhadas. Mas daquelas de tirar o fôlego, das que fazem rolar de um lado ao outro no chão, em risos agudos e sinceros.  Na abertura  do Festival Internacional de Palhaços Ri Catarina, Carolino e Teotônio, palhaços do coletivo paulista Lume Teatro, protagonizaram cenas ridículas, delicadas e de doce ternura no espetáculo Cravo, Lírio e  Rosa.

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Foi pouco mais de uma hora e meio de espetáculo, sem falas, mas rico em expressão facial e gestos. Cravo, Lírio e Rosa já está há 19 anos no repertório do grupo. A história não é inédita: dois patetas que chegam com suas malas. Dentro delas objetos simples que abrem portas para um universo ingênuo e lúdico dos dois palhaços.

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A performance foi construída a partir da interação clássica entre dois palhaços (quem lembra da famosa dupla do cinema O Gordo e o Magro?). Apesar de não ter texto, a relação humana entre os dois e a plateia é a matéria prima, em jogos de cena e gags talvez até batidos, mas de certa forma executados com maestria e originalidade. Os dois palhaços se opõem e ao mesmo tempo se complementam: um é mais tímido, ingênuo e o outro é exibido e mandão.

Cenas hilárias, gargalhadas sinceras. O espetáculo que abriu o festival comprova a qualidade do Ri Catarina, que nesta quarta edição é realizado sem apoio do Governo do Estado – apesar de ter projeto aprovado para receber recursos do Funcultural. É um festival importante no Brasil por reunir mestres mundiais na arte da  palhaçaria, que vão apresentar até o próximo domingo as diferentes linguagens de palhaço.

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Público é quem patrocina

Em atitude louvável e corajosa, a Cia Pé de Vento Teatro, idealizadora  do evento, optou por realizar o Ri Catarina mesmo sem apoio público. Convidou o público a refletir sobre o valor da  arte e a pagar o preço que achar justo pelas apresentações. Na primeira noite o público aderiu à ideia e lotou o Circo da Dona Bilica, sede da Pé de Vento Teatro e do festival.

Na entrada, um painel trazia a seguinte mensagem: Você é patrocinador do Ri Catarina. Na abertura, o ator e  palhaço Pepe Nuñez fez uma fala emocionada em que ressaltou o carinho e a dedicação com as quais estão realizando o festival.

Neste domingo tem mais. Às 19h o grupo AtrapaTrupe, de Florianópolis, apresenta  o espetáculo Super Banda.

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A sinfonia mecânica da instalação sonora "Máquina Orquestra"

30 de outubro de 2014 0

Por Lucila Vilela

Uma sinfonia mecânica composta por máquinas inventadas soa no espaço como música visual. Movido por um complexo sistema de construção, Máquina Orquestra resulta de um encontro entre os artistas visuais Roberto Freitas, Marcelo Comparini e a dupla O Grivo, composta por Nelson Soares e Marcos Moreira. As máquinas que compõem a instalação sonora foram construídas com precisão em um longo período de residência artística.

Fotos

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Com uma lógica científica, seguem uma espécie de partitura mecânica, elaborada com perfurações em bobinas de papel. Os sons emitidos por essas construções são controlados pelos artistas que improvisam durante a cena compondo uma música atmosférica, experimental e imprevisível.

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No palco, a orquestra se dilui em um emaranhado de fios que torna visível o aparato tecnológico. A disposição dos objetos no espaço dialoga com uma projeção que capta detalhes do mecanismo de funcionamento, acentuando o caráter visual da instalação. As máquinas sonoras ou instrumentos visuais manifestam-se em um híbrido de paisagem cênica. Na performance, os ruídos provocam uma oscilação entre a escuta e o olhar.

A pesquisa dos artistas vem de longa data. Roberto Freitas chama de “trapizongas” as engenhocas que elabora com fins artísticos, cinéticos e/ou sonoros. A operação que adota o artista lida com o dispêndio e a transformação de energia, no entanto suas “trapizongas” muitas vezes brutas e desajeitadas carregam forte dose de poesia: sutis imagens aparecem no meio de um complexo sistema de organização mecânica.

Seu interesse nas possibilidades sonoras se expandiu na parceria com o duo O Grivo, que investiga o uso de instrumentos não convencionais na construção de mecanismos sonoros compostos por meio de fontes acústicas e eletrônicas. Marcelo Comparini, além de uma notável produção em pintura, também trabalha com restauração de instrumentos musicais e desenvolve sólido interesse pela fusão entre imagem e som.

O projeto que une esses quatro artistas foi contemplado pelo Programa Rede Nacional Funarte Artes Visuais -10ª edição, e segue seu caminho movido pelas máquinas orquestradas.

Lucila Vilela é artista plástica

CRÍTICA - Um espetáculo onde a palavra não engole o ator, por Julianna Rosa de Souza

24 de outubro de 2014 0

Por Julianna Rosa de Souza

Faz algum tempo que tenho assistido na cena teatral a atores que são devorados pelo texto. Percebo que esse tipo de encenação, enquadrada numa concepção tradicional de teatro, acaba por fazer do ator um intérprete e reforça uma posição hegemônica do autor/dramaturgo. Como espectadora, me sinto enfadada ao ver o ator se debater contra o texto, como se cada palavra o sufocasse em uma métrica monocórdica.

Foto: Espanca! / Divulgação

Foto: Espanca! / Divulgação

Em outras palavras, um ator a serviço do texto  torna-se refém do próprio texto.

Em Líquido Tátil, os atores parecem saber deste perigo e por isso saboreiam cada palavra. Sem temer a irreverência do texto e a direção do argentino Daniel Veronese, os atores se colocam nas fronteiras do real e da ficção e compartilham com o público as inquietações de uma suposta realidade da cena.

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Os três atores (Grace Passô, Gustavo Bones e Marcelo Castro) não se escondem por trás de cortinas e tampouco se colocam numa zona intocável e protegida pela quarta parede. O grupo ESPANCA! coloca em cheque a representação teatral, e para isso utiliza  a própria representação para questionar a instável separação: palco/plateia.

Líquido Tátil não é uma comédia leve – ao contrário, é uma encenação que “morde”  o espectador (como o cão que não aparece no palco, mas que está em cena a todo o tempo) e por isso foge da tradicional necessidade de celebração do herói/protagonista.

Sem dúvida, Líquido Tátil marcou a programação do Festival Isnard Azevedo, trouxe para Floripa o brilhantismo de Daniel Veronese e a sintonia/ritmo dos atores do grupo ESPANCA!

Enfim, um espetáculo que não se deixa engolir pelo texto.

 

Por Julianna Rosa de Souza, atriz e mestre em Teatro pela Udesc.

Saiba como foi a segunda reunião de pauta aberta do Anexo

24 de outubro de 2014 2

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Encontro aconteceu no Espaço Fernando Beck na Fundação Badesc. (Fotos Giuliano Bianco, Agência RBS)

A segunda reunião de pauta aberta do Anexo, encontro em que a equipe do caderno recebe leitores e agentes culturais para discutir assuntos que devem virar reportagem, aconteceu no final da tarde de quarta-feira no aconchegante espaço Fernando Beck, na Fundação Badesc. Leitores e representantes de todas as áreas - cultura popular, música, teatro, literatura, artes plásticas e política cultural – enriqueceram demais o debate. A gente só tem a agradecer!


Primeiro encontro aconteceu no MASC

Joinville também teve um encontro
Boas sugestões de pauta surgiram na conversa, relacionadas ao patrimônio público, à literatura local e também à saudosa cultura popular que, reconhecemos, tem tido pouco espaço no Anexo. Também foi importante ouvir críticas como a necessidade da imprensa fomentar a política cultural pública e privada.

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Repórter Carol Macário fala sobre a falta de identidade da arquitetura de alguns pontos de Florianópolis, que não preserva a história e a cultura da ilha.
Da esquerda para a direita, a editora Tais Shigeoka, o colunista Emerson Gasperin, o leitor Valmiré Rocha dos Santos, Tatiana Cobbett (bailarina e compositora), Carol e a leitora Luciene Fontão

Abaixo reproduzimos o que mais nos chamou atenção no debate. Fica já o convite aos participantes que entrem ali na seção Comentários e deixem  suas percepções e, claro, a todo mundo que quiser deixar o seu recado. Mês que vem tem mais!
“Atualmente, eu me sensibilizo com a questão da perda de importância nas relações humanas e na troca de conhecimento. Então, apoio qualquer iniciativa que seja um esforço de ir contra esses dois movimentos. As reuniões de pauta do Anexo são esse momento de reflexão e o melhor: com uma classe artística pulsante. Não tem nada de impositivo, mas de vivências, olhares e percepções sobre a arte. Na primeira reunião, conversamos muito sobre processos do fazer jornalístico. Nesta segunda, o papel da crítica de arte ganhou força. Afinal, é esperado que os jornalistas sejam curadores, contextualizem e avaliem as manifestações artístico-culturais. O Anexo só cresce com essas trocas e fico realizada de poder testemunhar e fazer parte desse momento.” Layse Ventura, repórter

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Descontração, bate papo e descoberta de afinidades entre pessoas que não se conheciam também marcou o encontro

“O debate foi dos mais ricos, com uma boa reflexão sobre o jornalismo cultural. Me chamou atenção o papo sobre a falta de maturidade do mercado local e como o empresariado catarinense ainda não despertou para o marketing cultural, opinião que nós, da equipe do Anexo, partilhamos. Temos aí um desafio de envolver e ajudar a despertar nossa força empresarial para a importância de investir na cultura catarinense“, Cris Vieira, editora

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Da esquerda para a direita, Leticia Bombo (assessora de imprensa), a leitora de Joinville Gabriela Maria Carneiro de Loyola (que chamava atenção para a necessidade da iniciativa privada investir na cultura local), Dânia Degano (empresária), Cláudia Barbosa (cantora e jornalista),  Susana Bianchini (artista visual), Renato Turnes (diretor de teatro), professor Acyr de Oliveira e Luzair Martins (grupo Filhos da Terra)

 

“A reunião reforçou a importância da materialidade das produções culturais no jornal para os artistas, como forma de reconhecimento do trabalho feito no Estado, e promoveu também o encontro de pessoas interessadas na preservação da memória cultural catarinense. Foi possível perceber a pluralidade de vozes e interesses, o que reforçou ainda mais a difícil tarefa de estabelecer critérios para a publicação de matérias. O mais bacana foi perceber que a reunião virou motivo para celebração! Todos estavam felizes com a oportunidade do diálogo! Conseguimos estreitar ainda mais nosso canal de comunicação com nossos leitores, tirando dúvidas sobre nossos processos no jornal, e com certeza ganhamos mais fontes para nos munirem de informações sobre o cotidiano, dificuldades e produções locais na área da cultura! (Nanda Gobbi, editora)

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“Abrir a pauta do Anexo foi um exercício interessante de compartilhar nosso dia-a-dia e desconstruir alguns mitos que eventualmente se relacionam ao jornal. Foi um encontro plural, com olhares múltiplos sobre a produção artística e cultural do Estado. A reunião reforçou também a urgência de avançarmos no aprofundamento do debate e da crítica em nossas reportagens. Carol Macário, repórter


Os participantes

Margaret Waterkemper (Fundação Badesc)
Emerson Gasperin (colunista do Anexo)
Thiago Momm (colunista do Anexo)
Letícia Bombo (assessora de imprensa)
Renato Turnes (diretor de teatro)
Gabriela Maria Carneiro de Loyola (artes plásticas)
Acyr Osmar de Oliveira (professor)
Luzair Lauro Martins (Grupo Folclórico Filhos da Terra)
Susana Bianchini (artista visual)
Fifo Lima (jornalista cultural)
Luciene Fontão (professora e escritora)
Cláudia Barbosa (cantora e jornalista cultural)
Tatiana Cobbett (bailarina, cantora e compositora)
Marina Tavares (produtora cultural)
Valmiré Rocha dos Santos (professor aposentado)
Giuliana Korzenowski (assessora de imprensa)
Laércio Luiz (artista plástico)
Dânia Degano (designer e empresária)
Julia Maris Latronico de Souza (assessora de imprensa)

Rodada de Negócios para o Teatro de SC

23 de outubro de 2014 0

Por Jefferson Bittencourt

Na quarta-feira, 22 de outubro, foi realizado em Florianópolis, dentro da programação do Floripa Teatro, um evento de extrema importância para os grupos de teatro da cidade (e também de Santa Catarina): a Feira de Negócios Teatrais.

Foto: Dieve Oehme / Divulgação Integrantes do grupo Teatro Sim... Por Que Não?!!!

Foto: Dieve Oehme / Divulgação
Integrantes do grupo Teatro Sim… Por Que Não?!!!

Foram convidados curadores de Festivais de destaque no cenário teatral brasileiro, para formar uma banca, onde cada grupo da cidade poderia “defender’ seu trabalho, apresentando vídeos, fotos, material teórico etc. Uma oportunidade única para os grupos de mostrar suas novas criações (ou mesmo repertório) para pessoas importantes, que determinam, muitas vezes, o percurso de uma obra teatral e também o que o público brasileiro terá a oportunidade de ver.

Criado e executado pela própria organização do Festival (que leva, desde já meus cumprimentos e todos os méritos pela investida) este evento, por mais simples que possa parecer a quem não é do meio teatral, é de extrema importância para impulsionar o teatro feito em Florianópolis para outros centros.

Muitos grupos não conseguem chegar até esses curadores pois, como acontece na maioria das vezes, ou somente o material gráfico e vídeo enviado num processo de inscrição não mostra  toda a potência do trabalho (algo que uma simples conversa como essa já resolve de maneira muito prática), ou a imensa carga de trabalhos recebidos durante esses processos de inscrição, faz com que a análise fique prejudicada.

Assim, de maneira mais clara e objetiva, os curadores dos Festivais de Londrina (FILO), Porto Alegre em Cena e FITBH (Belo Horizonte) puderam analisar a consistente produção teatral feita por estas bandas, com cada grupo ‘vendendo seu peixe’, buscando levar a arte que se faz por aqui para públicos de outros Estados e regiões do país.

Este evento mostra a maturidade da organização do Festival que, além de toda a programação de apresentações para a cidade , se preocupou também com as perspectivas do teatro feito em Santa Catarina. E também mostra que, cada vez mais, os Festivais de Teatro no Brasil estão interligados, possibilitando aos grupos uma facilidade maior de circulação neste país de extensão continental.

Jefferson Bittencourt, diretor teatral